A frângula (Rhamnus frangula, também classificada como Frangula alnus) é um arbusto europeu cuja casca envelhecida é tradicionalmente usada como laxante para a constipação ocasional. O uso seguro depende de dois pontos que não podem ser ignorados: a casca precisa ser envelhecida por pelo menos um ano antes do preparo, e o tratamento não deve passar de uma semana seguida, limite fixado pela Agência Europeia de Medicamentos (EMA).
Sumário do Artigo
- O Que É o Amieiro-Negro (Frângula)
- Nomes Populares em Outros Idiomas
- Usos Tradicionais e Etnobotânicos
- Por Que a Casca Precisa Ser Envelhecida
- Composição Química e Mecanismo de Ação
- Propriedades Medicinais Tradicionais e Estudadas
- Alívio da Constipação: o Uso Real
- Como Preparar o Chá de Amieiro-Negro
- O Que Dizem as Agências Reguladoras
- Pesquisa Preliminar
- Sinergia com Outras Plantas
- Contraindicações e Efeitos Colaterais
- Riscos do Uso Prolongado
- Curiosidades Sobre o Amieiro-Negro
- Perguntas Frequentes Sobre a Frângula
O Que É o Amieiro-Negro (Frângula)

A frângula pertence à família Rhamnaceae, grupo de arbustos e pequenas árvores com várias espécies de uso medicinal em diferentes partes do mundo. É nativa da Europa, da Ásia Ocidental e do norte da África, onde cresce em solos úmidos e ácidos, próxima a florestas e cursos de água.
A planta atinge de 3 a 7 metros de altura, com casca marrom-escura, folhas ovais e frutos que amadurecem do verde ao preto-azulado. Apesar de a espécie produzir frutos, é a casca dos ramos, colhida e envelhecida, a única parte usada na fitoterapia; os frutos não fazem parte do preparo tradicional e não devem ser consumidos.
O sinônimo botânico mais usado na literatura é Rhamnus frangula L., ainda adotado pelas farmacopeias mesmo com Frangula alnus Mill. sendo o nome aceito pela taxonomia atual. As duas grafias convivem nos documentos oficiais: a monografia da EMA se chama “Rhamnus frangula L., cortex” e traz “Frangula alnus Miller” entre parênteses.
Nomes Populares em Outros Idiomas
- Alemão: Faulbaum, Gemeiner Faulbaum, Pulverholz.
- Espanhol: arraclán, frángula, rabiacán.
- Francês: bourdaine, nerprun purgatif.
- Inglês: alder buckthorn, breaking buckthorn, glossy buckthorn.
- Italiano: frangola, ontano nero.
- Português: amieiro-negro, frângula, fúsaro, lagarinho, sanguinho-de-água.
Usos Tradicionais e Etnobotânicos
O uso da frângula como purgativo é documentado desde pelo menos o século XIV na medicina popular europeia, com registros que remontam a menções do médico grego Galeno, no século II d.C., sobre plantas do gênero Rhamnus em geral. A planta foi incluída em farmacopeias europeias e ainda hoje é reconhecida pela EMA como laxante de curto prazo, na categoria de uso bem estabelecido, reservada a preparações com respaldo clínico e bibliográfico consolidado.
Historicamente, a casca era armazenada por cerca de um ano antes do uso, prática que os herbalistas já associavam a um efeito mais suave, hoje explicada pela química da planta (veja a seção seguinte). Usos tópicos para sarna e em curas de desintoxicação da primavera também são registrados na tradição popular, mas sem confirmação científica moderna.
Por Que a Casca Precisa Ser Envelhecida

A casca fresca contém antronas, formas reduzidas dos compostos ativos, que irritam a mucosa digestiva e causam náuseas e vômitos intensos. O envelhecimento, feito por secagem e armazenamento por pelo menos um ano (ou por tratamento térmico equivalente), converte essas antronas em antraquinonas, suas formas oxidadas, muito mais suaves e seguras.
Essa exigência não ficou no plano da tradição. A Farmacopeia Europeia submete cada lote a um ensaio específico para antronas, com revelação por nitrotetrazólio azul, e o material só é aprovado se nenhuma zona violeta ou azul-acinzentada aparecer na placa. Casca mal envelhecida é reprovada antes de virar produto.
Por esse motivo, a casca fresca nunca deve ser usada em preparações caseiras, e o envelhecimento deve ser confirmado no rótulo antes da compra.

Composição Química e Mecanismo de Ação
A qualidade da casca é definida por farmacopeia, não por estimativa. A Farmacopeia Europeia exige no mínimo 7,0% de glucofranguline, expressas como glucofrangulina A, sobre a droga seca. Respondem por esse número os glicosídeos frangulina A e B e glucofrangulina A e B. Fora do circuito farmacêutico o teor oscila muito: uma análise de 2024 encontrou variação superior a vinte vezes entre amostras comerciais e silvestres.
O mecanismo é conhecido em detalhe. Os glicosídeos são beta-O-glicosídeos, que as enzimas digestivas humanas não quebram e por isso quase não são absorvidos no intestino delgado. São as bactérias do intestino grosso que os convertem no metabólito ativo, a emodina-9-antrona. A partir daí agem duas frentes: a estimulação da motilidade do cólon, que acelera o trânsito, e a alteração das trocas de líquido, que inibe a absorção de água e eletrólitos pelo epitélio e estimula a secreção para o lúmen. Como tudo depende dessa conversão bacteriana, a evacuação só costuma ocorrer de 8 a 12 horas após a tomada.
A casca também contém taninos, com ação adstringente, e flavonoides, com ação antioxidante, que compõem o perfil da planta sem substituir o mecanismo laxativo principal.
Propriedades Medicinais Tradicionais e Estudadas
Além do efeito laxante, bem documentado e reconhecido pela EMA, a frângula também é associada, na fitoterapia tradicional e em estudos preliminares, a outras propriedades. Cada uma tem um nível diferente de evidência científica, listado a seguir:
- Antifúngico: possível atividade antifúngica observada em estudos in vitro, sem confirmação clínica.
- Antiviral: alguma atividade contra vírus encapsulados observada em laboratório, também restrita a estudos in vitro.
- Colagogo: uso tradicional associado ao estímulo da produção e do fluxo da bile.
- Depurativo: termo da fitoterapia popular para plantas tradicionalmente associadas à eliminação de toxinas do organismo, sem definição clínica precisa.
- Diurético: efeito diurético leve atribuído pela tradição popular, distinto e não relacionado ao uso de medicamentos diuréticos (veja as interações mais adiante).
- Tônico: uso tradicional como fortalecente geral do organismo.
Esses usos adicionais não têm o mesmo nível de evidência do efeito laxativo e não devem ser a razão principal para o uso da planta.
Alívio da Constipação: o Uso Real
A indicação reconhecida é estreita: constipação ocasional, por curto prazo, em maiores de 12 anos. A monografia europeia trata a casca de frângula como recurso de segunda linha, para quando a mudança de dieta e os agentes formadores de bolo fecal não resolvem. Quando alguém precisa de laxante todos os dias, a questão deixa de ser a evacuação e passa a ser a causa da constipação, que exige investigação médica. A tomada é recomendada à noite, em dose única, na menor quantidade que produza uma evacuação macia e confortável.
Como Preparar o Chá de Amieiro-Negro
- Use apenas casca seca e envelhecida por pelo menos um ano, de 0,5 a 2 gramas. A monografia europeia limita o preparo ao equivalente a no máximo 30mg de derivados hidroxiantracênicos por xícara.
- Para a infusão, forma descrita pela EMA, despeje 150 a 200ml de água fervente sobre a casca e deixe tampado por 10 a 15 minutos, sem ferver.
- Para a decocção tradicional, mais concentrada, adicione a casca à água fria, leve ao fogo e ferva por 5 a 10 minutos.
- Coe e beba uma xícara à noite, antes de dormir, para que o efeito ocorra na manhã seguinte.
- Ajuste para a menor dose que funcione e não repita por mais de uma semana. Em geral bastam duas a três tomadas nesse período.
Extratos, tinturas e cápsulas padronizadas oferecem dosagem mais precisa do que a casca solta. A referência europeia para essas apresentações é uma dose única diária de 10 a 30mg de derivados hidroxiantracênicos, calculados como glucofrangulina A, tomada à noite. Siga sempre as instruções do fabricante ou a orientação de um profissional de saúde.
O Que Dizem as Agências Reguladoras
Duas discussões europeias correm em paralelo e costumam ser confundidas. Como medicamento, a casca tem a monografia da EMA já citada, com a qualidade definida pela Farmacopeia Europeia. Como ingrediente alimentar, a história é outra. A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos avaliou em 2018 os derivados hidroxiantracênicos e não conseguiu estabelecer uma ingestão diária isenta de preocupação, apontando genotoxicidade in vitro para a emodina e a aloe-emodina. A Comissão Europeia então proibiu essas substâncias como aditivos e pôs as preparações de casca de frângula sob escrutínio, pelo Regulamento (UE) 2021/468, entradas que o Tribunal Geral da União Europeia anulou em novembro de 2024. A monografia da EMA não entrou nesse processo e segue em vigor.
Pesquisa Preliminar
Fora do efeito laxativo, o que existe são estudos de laboratório, e o capítulo da atividade antitumoral merece cuidado redobrado, porque é onde a divulgação costuma escorregar. Um estudo sérvio de 2023 testou extrato da planta e emodina isolada em linhagens de carcinoma hepatocelular e colorretal, com forte redução da viabilidade celular, mas os próprios autores registram que não houve seletividade entre células tumorais e fibroblastos normais e que ambos os materiais mostraram forte potencial genotóxico. Um estudo croata anterior chegou a resultado convergente em linfócitos humanos e concluiu pela cautela no uso.
Esses achados são in vitro e não sustentam qualquer uso da planta contra câncer. Reforçam, ao contrário, a orientação de uso curto e pontual.
Sinergia com Outras Plantas
Na fitoterapia tradicional, a frângula é por vezes combinada com sena ou ruibarbo para reforçar o efeito laxante, mas essa combinação soma plantas de ação estimulante semelhante e aumenta o risco dos mesmos efeitos adversos (cólica, diarreia, perda de eletrólitos); por isso, não deve ser feita sem orientação profissional. Combinações voltadas ao conforto digestivo geralmente usam camomila, e fórmulas depurativas tradicionais associam a frângula ao dente-de-leão.
A raiz de alcaçuz merece menção separada. A monografia europeia a lista, ao lado de diuréticos e corticosteroides, entre os produtos que agravam a perda de potássio quando tomados junto com a frângula. Qualquer combinação de plantas deve ser avaliada por um profissional.
Contraindicações e Efeitos Colaterais
Gestantes e lactantes não devem usar a frângula. Na gravidez, a contraindicação se apoia em dados experimentais de risco genotóxico de antranoides como a emodina e a frangulina; na amamentação, no fato de metabólitos ativos como a reína passarem para o leite em pequenas quantidades. Crianças menores de 12 anos devem evitar o uso, pela maior sensibilidade do sistema digestivo infantil.
A lista oficial de contraindicações é mais longa do que a que costuma aparecer em embalagens e sites. Além dos casos acima, ela inclui a apendicite, a atonia intestinal, a desidratação grave com perda de eletrólitos, a dor abdominal de origem desconhecida, as doenças inflamatórias intestinais (Crohn e colite ulcerativa), a hipersensibilidade à substância ativa e as obstruções e estenoses intestinais. Sintomas digestivos agudos sem diagnóstico também impedem o uso, porque podem indicar obstrução.
Os efeitos mais comuns são cólica abdominal e fezes líquidas, sobretudo em doses altas e em pessoas com cólon irritável; nesses casos, a conduta é reduzir a dose. A monografia europeia registra ainda reações de hipersensibilidade, como prurido e urticária, e, no uso prolongado, desequilíbrio hidroeletrolítico que pode se manifestar como albuminúria e hematúria. A pigmentação da mucosa intestinal, conhecida como pseudomelanose coli, é benigna e costuma regredir depois que a pessoa interrompe o uso.
Riscos do Uso Prolongado
O uso contínuo por mais de uma semana não é recomendado. A monografia europeia é direta ao afirmar que o uso prolongado de laxantes estimulantes deve ser evitado, porque o tratamento além de um período breve pode levar ao comprometimento da função intestinal e à dependência de laxantes.
Esse quadro é o que a fitoterapia popular chama de síndrome do intestino preguiçoso. Uma revisão de 2024 sobre laxantes estimulantes de outras classes sugere que o dano estrutural atribuído a eles foi superestimado, mas a frângula não entrou nessa análise e a orientação de uso curto permanece.
O risco melhor documentado é o desequilíbrio eletrolítico, com perda de potássio (hipocalemia). Essa hipocalemia potencializa a ação dos glicosídeos cardíacos, sensibilizando o músculo cardíaco à digoxina, e interage com antiarrítmicos, o que eleva o risco de arritmia.
Curiosidades Sobre o Amieiro-Negro
O carvão da madeira do amieiro-negro já foi considerado um dos melhores para a fabricação de pólvora, por queimar de forma uniforme e servir bem a fusíveis de precisão.
A planta também tem papel ecológico relevante: é uma das principais hospedeiras da lagarta da borboleta-limão (Gonepteryx rhamni), que se alimenta quase exclusivamente de suas folhas.
Na Antiguidade, Galeno já mencionava plantas do gênero Rhamnus, às quais a crença popular da época atribuía poderes de proteção contra bruxaria, demônios e venenos, além de uso para dores de cabeça. Essas atribuições refletem o folclore médico da época e não têm respaldo científico atual.
Perguntas Frequentes Sobre a Frângula
A Frângula Emagrece?
Não. O efeito laxativo pode causar perda de peso temporária por eliminação de líquidos e fezes, não por queima de gordura. Usar a planta com esse objetivo é inadequado e potencialmente perigoso.
Posso Usar a Casca Fresca?
Não, nunca. A casca fresca contém antronas que causam náuseas, vômitos e cólicas fortes. É obrigatório usar casca envelhecida por pelo menos um ano.
Qual a Diferença entre Amieiro-Negro e Cáscara-Sagrada?
Ambos pertencem à família Rhamnaceae e têm efeito laxativo antraquinônico semelhante. A cáscara-sagrada (Rhamnus purshiana) é nativa da América do Norte, enquanto o amieiro-negro (Rhamnus frangula) é nativo da Eurásia, com pequenas diferenças de composição e potência.
Posso Usar o Chá Todos os Dias?
Não. A monografia europeia limita o uso a uma semana e observa que, em geral, duas a três tomadas nesse período bastam. O uso diário e contínuo pode comprometer a função intestinal e causar perda de potássio.
Crianças Podem Tomar Chá de Amieiro-Negro?
Não. O uso é contraindicado para menores de 12 anos, pela maior sensibilidade do sistema digestivo infantil ao efeito laxativo estimulante.
Pode Ser Usado na Gravidez ou na Amamentação?
Não, é estritamente contraindicado nos dois casos. Na gravidez, por dados experimentais que apontam risco genotóxico de antranoides como a emodina e a frangulina. Na amamentação, porque metabólitos ativos, como a reína, são excretados no leite materno em pequenas quantidades.
O Chá de Frângula Causa Câncer de Intestino?
A evidência disponível não sustenta essa associação. Uma meta-análise de 2022 sobre laxantes antraquinônicos e câncer colorretal encontrou razão de chances de 1,41, com intervalo de confiança de 95% entre 0,94 e 2,11, resultado sem significância estatística. Isso não autoriza o uso prolongado, desaconselhado por outros motivos.
Por Que a Urina Fica Escura Depois de Tomar?
Os metabólitos eliminados pelos rins podem dar à urina uma cor amarela ou marrom-avermelhada, conforme o pH. É um efeito descrito na monografia europeia, sem significado clínico, e não indica sangramento.
Interage com Medicamentos?
Sim. O uso prolongado pode causar hipocalemia, que potencializa a ação dos glicosídeos cardíacos, como a digoxina. A recomendação oficial é consultar um médico antes de usar a planta junto com antiarrítmicos, corticosteroides, diuréticos, glicosídeos cardíacos, medicamentos que prolongam o intervalo QT ou raiz de alcaçuz.
Quais São os Benefícios Reconhecidos da Frângula?
O único benefício com respaldo consistente é o efeito laxante para a constipação ocasional, reconhecido pela Agência Europeia de Medicamentos. Outras propriedades tradicionais, como ação colagoga, depurativa ou antifúngica, têm evidência apenas preliminar e não devem orientar o uso da planta.
Existem Efeitos Colaterais Graves?
Cólica abdominal e fezes líquidas costumam ser leves e respondem à redução da dose. O risco maior está no uso prolongado, que pode causar hipocalemia com consequências cardíacas em quem usa digoxina.
Como Armazenar a Casca?
Em recipiente hermético, em local fresco e escuro, longe do alcance de crianças e animais domésticos.
Referências
Ver Todas as 11 Referências Citadas
- 2016 EMA. EU herbal monograph on Rhamnus frangula L., cortex. EMA/HMPC/726261/2016, 2019.
- 2008 Ph. Eur. Frangula bark, monografia 01/2008:0025.
- 2018 EFSA. Safety of hydroxyanthracene derivatives for use in food. EFSA Journal, 16(1):e05090, 2018. DOI 10.2903/j.efsa.2018.5090.
- 2021 Comissão Europeia. Regulamento (UE) 2021/468. CELEX 32021R0468.
- 2024 Tribunal Geral da UE. Processo T-302/21, 13 nov. 2024. CELEX 62021TJ0302.
- 2022 Lombardi N. et al. Anthraquinone laxatives use and colorectal cancer. Phytother Res, 36(3):1093-1102, 2022. DOI 10.1002/ptr.7373.
- 2024 Whorwell P. et al. Do stimulant laxatives damage the gut? Therap Adv Gastroenterol, 17, 2024. DOI 10.1177/17562848241249664.
- 2024 Zwerger M. et al. Determination of anthraquinones in Frangula alnus. J Chromatogr A, 1737:465432, 2024. DOI 10.1016/j.chroma.2024.465432.
- 2015 Brkanac SR. et al. Toxicity and antioxidant capacity of Frangula alnus bark and emodin. Regul Toxicol Pharmacol, 73(3):923-929, 2015. DOI 10.1016/j.yrtph.2015.09.025.
- 2023 Vuletić S. et al. Alder buckthorn against hepato- and colorectal carcinoma: an in vitro study. Mutat Res, 892:503706, 2023. DOI 10.1016/j.mrgentox.2023.503706.
- 2022 Kledecka A. et al. Extracts from Frangula alnus and their effects on environmental and probiotic bacteria. Plants, 11(20):2719, 2022. DOI 10.3390/plants11202719.






