Plantas Medicinais

Mirto-de-Cera: Para Que Serve, Riscos e Cuidados

Conheça os benefícios, efeitos colaterais, indicações e propriedades medicinais do chá e da fruta da Myrica cerifera, chamada de arbusto-de-sebo e barberry.

Por Conselho Editorial9 Min de Leitura
7 Referências
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Myrica cerifera - MIRTO-DE-CERA, ÁRVORE-DE-CERA, WAXBERRY
Frutos característicos do mirto-de-cera (Myrica cerifera), cobertos por cera natural que lhes confere aparência esbranquiçada e propriedades medicinais.

O mirto-de-cera, cientificamente chamado de Myrica cerifera, é um arbusto perene nativo do leste dos Estados Unidos, com longa história na medicina tradicional norte-americana. A planta também aparece como arbusto-de-cera, arbusto-de-sebo e árvore-de-cera, e em inglês como bayberry, candleberry, southern bayberry, wax myrtle e waxberry.

A casca da raiz é a parte historicamente mais usada, valorizada pela ação adstringente. Já a cera que reveste os frutos deu à planta boa parte de sua fama econômica, empregada em cosméticos, sabões e velas.

Antes de qualquer coisa, um ponto de segurança que costuma ficar de fora dos textos sobre a planta: a literatura desaconselha o uso interno da casca em humanos, por causa do teor de taninos. Este artigo reúne o que a tradição registra e o que os dados de segurança mostram, porque os dois lados importam.

Sumário do Artigo
  1. Alerta de Segurança Sobre o Uso Interno
  2. O Que é o Mirto-de-Cera
  3. História e Uso Tradicional
  4. Composição Fitoquímica
  5. Usos Tradicionais Registrados
  6. O Que a Pesquisa Mostra Até Agora
  7. Perguntas Frequentes Sobre o Mirto-de-Cera (FAQ)

Alerta de Segurança Sobre o Uso Interno

Esta seção vem antes dos benefícios de propósito, já que a informação é determinante para qualquer decisão de uso.

A elevada concentração de taninos da casca do mirto-de-cera mostrou-se carcinogênica em ratos, e é esse dado que leva as referências de fitoterapia a desaconselharem o uso interno da casca em pessoas. Em experimentos prolongados, animais expostos a extratos da casca da raiz desenvolveram tumores malignos.

Além disso, o triterpeno miricadiol tem efeito semelhante ao de hormônios do córtex adrenal sobre o metabolismo de sódio e potássio. Na prática, doses altas podem provocar retenção de sódio e água, com elevação da pressão arterial.

Quem Deve Evitar a Planta

  • Crianças e bebês
  • Gestantes e lactantes, pela possível atividade mineralocorticoide e pelo dado de carcinogenicidade
  • Pessoas com doença renal
  • Pessoas com hipertensão arterial

Há ainda relato de que o miricadiol apresenta ação espermicida, e descrição de atividade antiandrogênica no extrato da casca, o que soma cautela para homens em busca de fertilidade.

Por fim, o uso externo, em compressas e cataplasmas, tem perfil de risco diferente do uso interno, mas também merece orientação profissional.

O Que é o Mirto-de-Cera

O mirto-de-cera pertence à família Myricaceae. Pode se apresentar como arbusto grande ou árvore pequena, alcançando com facilidade cerca de nove metros de altura.

Além disso, a espécie é comum no Texas e em toda a porção leste dos Estados Unidos, e também ocorre naturalmente em partes da América Central e em ilhas do Caribe. Adapta-se bem a climas variados, com preferência por zonas úmidas, próximas a rios e córregos, além de áreas de floresta.

Características Botânicas

As flores masculinas têm cerca de quatro estames, enquanto as femininas se desenvolvem em frutos recobertos por uma camada de cera. Ambas são amareladas. Por sua vez, os frutos, de coloração branco-azulada, são bastante consumidos por aves e pequenos mamíferos.

Um detalhe interessante da biologia da planta: suas raízes têm nódulos capazes de fixar nitrogênio, o que permite que ela cresça sem dificuldade em solos pobres em nutrientes.

História e Uso Tradicional

Povos nativos americanos foram os primeiros a empregar a planta. Os Choctaw preparavam um chá da casca usado em quadros febris, e os Lumbee recorriam à espécie para queixas digestivas e de pele.

Em seguida, os colonizadores europeus incorporaram esses usos à própria medicina popular. A cera dos frutos, por sua vez, era muito valorizada na produção de velas perfumadas e sabonetes, considerados artigos de luxo no período colonial.

A Casca da Raiz na Farmacopeia do Século XIX

A casca da raiz era empregada como adstringente e estimulante. Em doses pequenas, a tradição a associava ao controle de diarreias e disenterias; em doses maiores, ao efeito emético. O pó da casca era inalado para aliviar congestão nasal, prática comum em resfriados e sinusites.

No século XIX, médicos do movimento eclético nos Estados Unidos prescreviam a planta para uma lista ampla de condições. Esse tipo de indicação reflete o padrão terapêutico da época, e não corresponde a evidência clínica no sentido atual.

Composição Fitoquímica

A casca da raiz concentra os compostos de interesse, e é essa mesma concentração que explica tanto a ação adstringente quanto as ressalvas de segurança.

Triterpenos

Miricadiol, taraxerol e taraxerona já foram isolados da casca da raiz. O taraxerol é descrito com atividade anti-inflamatória, enquanto o miricadiol responde pelo efeito sobre sódio e potássio mencionado no alerta.

Flavonoides

Da mesma forma, a miricitrina é o flavonoide glicosídico mais citado na espécie, com atividade antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana descrita em estudos laboratoriais.

Taninos e Outros Componentes

Já os taninos respondem pela forte adstringência da casca, e são também o motivo da restrição ao uso interno. Completam o perfil resinas, fenóis, gomas e amido, além da cera dos frutos, formada por ésteres de ácidos graxos como o palmítico, o mirístico e o láurico.

Usos Tradicionais Registrados

Os empregos a seguir vêm da tradição e de compêndios de fitoterapia, não de ensaios clínicos em humanos. Eles ajudam a entender a reputação da planta, sem servir de orientação de uso.

Sistema Digestivo

Assim, a ação adstringente dos taninos sustenta o uso histórico contra diarreia e disenteria. A tradição também registra emprego em quadros inflamatórios do trato gastrointestinal.

Vias Respiratórias

A planta aparece na literatura tradicional como descongestionante e expectorante, com uso da casca em pó para congestão e gargarejos para dor de garganta.

Uso Externo

Cataplasmas para feridas, compressas em varizes e aplicação sobre hemorroidas estão entre os empregos externos mais citados, associados às propriedades adstringentes.

O Que a Pesquisa Mostra Até Agora

Os estudos disponíveis sobre a espécie são majoritariamente laboratoriais, feitos com compostos isolados, e não com a planta inteira em pessoas.

Por exemplo, a miricitrina demonstrou, em modelos experimentais, atividade antioxidante e anti-inflamatória, além de efeito protetor sobre células endoteliais em condições de estresse oxidativo. O taraxerol também aparece em investigações sobre inflamação.

Nada disso equivale a eficácia comprovada em humanos. Não há ensaio clínico randomizado que sustente indicação terapêutica para a espécie, e a existência de um dado de carcinogenicidade animal para a casca torna o quadro ainda mais delicado.

Perguntas Frequentes Sobre o Mirto-de-Cera (FAQ)

Para Que Serve o Mirto-de-Cera?

Na tradição norte-americana, a casca da raiz foi usada como adstringente em quadros de diarreia, como descongestionante em resfriados e, externamente, em feridas e hemorroidas. São usos históricos, sem confirmação por ensaios clínicos. A literatura atual desaconselha o uso interno da casca pelo teor de taninos.

Posso Tomar Chá da Casca de Mirto-de-Cera?

As referências de fitoterapia desaconselham o uso interno da casca em humanos, porque a elevada concentração de taninos mostrou-se carcinogênica em estudos com ratos. Por isso este artigo não recomenda preparo nem dosagem para ingestão. Qualquer uso deve ser avaliado por um profissional de saúde.

Quem Tem Pressão Alta Pode Usar a Planta?

Não sem avaliação médica. O miricadiol, um dos triterpenos da casca, atua sobre o metabolismo de sódio e potássio de forma semelhante a hormônios adrenais, e doses altas podem causar retenção de sódio e água, elevando a pressão arterial. Pessoas com hipertensão ou doença renal devem evitar.

Gestantes Podem Usar Mirto-de-Cera?

Não. O uso na gravidez e na amamentação deve ser evitado, tanto pela possível atividade mineralocorticoide quanto pelo dado de carcinogenicidade observado em animais. Não há estudos de segurança nessa população que autorizem o uso.

O Mirto-de-Cera Tem Efeito Sobre a Fertilidade?

Há relato na literatura de que o miricadiol apresenta ação espermicida, e também descrição de atividade antiandrogênica no extrato da casca. Homens que buscam fertilidade têm nisso mais um motivo para evitar a planta sem orientação profissional.

Qual a Diferença Entre a Casca e a Cera dos Frutos?

São partes com destinos bem diferentes. A casca da raiz concentra taninos e triterpenos, e é o material associado às restrições de uso interno. Já a cera que reveste os frutos é formada por ésteres de ácidos graxos, com uso essencialmente industrial, em velas, sabões e cosméticos.

A Planta Serve Para Tratar Infecções?

Estudos laboratoriais descrevem atividade antimicrobiana para compostos isolados da espécie, como a miricitrina. Isso não significa que a planta trate infecções em pessoas. Infecção é quadro que exige diagnóstico e tratamento médico, e adiar esse cuidado pode ser perigoso.

Onde o Mirto-de-Cera é Encontrado?

A espécie é nativa do leste dos Estados Unidos, com presença marcante no Texas, e ocorre também na América Central e em ilhas do Caribe. Prefere zonas úmidas, perto de rios e córregos, mas adapta-se a diferentes climas e a solos pobres, graças aos nódulos fixadores de nitrogênio nas raízes.

Referências

7 Referências Citadas

Baseado em 7 Referências Citadas (3 Peer-Reviewed, 4 Complementares).

Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)

  1. PEER1974 Paul, B. D., et al. “Isolation of Myricadiol, Myricitrin, Taraxerol, and Taraxerone from Myrica cerifera L. Root Bark.” Journal of Pharmaceutical Sciences, vol. 63, no. 6, 1974, pp. 958-960. .
  2. PMC2015 Domitrović, R., et al. “Myricitrin exhibits antioxidant, anti-inflammatory and antifibrotic activity in carbon tetrachloride-intoxicated mice.” Chemico-Biological Interactions, vol. 230, 2015, pp. 21-29. .
  3. PMC2015 Qin, M., Luo, Y., Meng, X. B., et al. “Myricitrin attenuates endothelial cell apoptosis to prevent atherosclerosis: an insight into PI3K/Akt activation and STAT3 signaling pathways.” Vascular Pharmacology, vol. 70, 2015, pp. 23-34. .

Leituras Complementares (4)

  1. Drugs.com. “Bayberry: Uses, Benefits and Dosage.” Natural Products Database. .
  2. RxList. “Bayberry: Health Benefits, Side Effects, Uses, Dose and Precautions.” .
  3. Botanical.com. “Myrica cerifera (Linn.): Bayberry.” A Modern Herbal, Mrs. M. Grieve. .
  4. Useful Tropical Plants Database. “Morella cerifera.” Tropical Plants Database, Ken Fern. .

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