Humulus lupulus, é a trepadeira cujas flores femininas dão à cerveja o amargor e boa parte do aroma. Fora da cervejaria, ele aparece na fitoterapia sobretudo por três motivos: sono, sintomas da menopausa e alívio de tensão nervosa.
O que torna o lúpulo um caso que exige atenção redobrada é a 8-prenilnaringenina (8-PN), apontada como um dos fitoestrógenos mais potentes já descritos em ensaios de laboratório.
Potência estrogênica não é apenas uma boa notícia. Ela define quem pode e quem não deve usar a planta, e é sobre isso que este artigo se detém antes de qualquer outro benefício.
Sumário do Artigo
- O Que É o Lúpulo
- Atividade Estrogênica: o Ponto Central
- O Que a Pesquisa Diz Sobre os Possíveis Benefícios do Lúpulo
- Sedação e Cuidados Práticos
- Como Preparar o Chá de Lúpulo
- Sinergias: Combinações Tradicionais com Outras Plantas
- Usos Tradicionais
- Contraindicações e Efeitos Colaterais
- Perguntas Frequentes Sobre o Lúpulo
O Que É o Lúpulo

Botanicamente, o Humulus lupulus é uma trepadeira perene da família Cannabaceae, a mesma da cannabis, e pode alcançar vários metros de comprimento em uma única estação, chegando a até dez metros em condições favoráveis. A espécie é dioica, ou seja, existem plantas masculinas e femininas separadas, e é nativa de regiões temperadas do hemisfério norte, com adaptação hoje à Europa, à Ásia e à América do Norte.
Na prática, a parte utilizada é a inflorescência feminina, chamada de cone ou estróbilo. É nela que se concentram as glândulas de lupulina, uma resina amarela e pegajosa responsável pelas resinas amargas, pelos óleos essenciais e pelos flavonoides prenilados. As plantas masculinas, menores e reunidas em panículas, servem sobretudo à polinização e a programas de melhoramento genético; na produção comercial, cultivam-se apenas fêmeas não polinizadas.
Nomes Populares
Em português, a planta também é conhecida como engatadeira, erva-engatadeira, lúparo, pé-de-galo e vinha-do-norte. Em outros idiomas, aparece como common hop e hops (inglês), echter hopfen e hopfen (alemão), houblon e vigne du nord (francês), luppolo e luppolo comune (italiano), e lupulera e vidarria (espanhol). Na literatura botânica mais antiga, a espécie também é registrada sob os sinônimos Humulus lupus L., Humulus volubilis Salisb. e Humulus vulgaris Gilib., hoje pouco usados.
Composição Química
Em resumo, as resinas amargas incluem os alfa-ácidos, como a humulona, e os beta-ácidos, como a lupulona. São eles que respondem pelo amargor característico e que concentram parte da atividade antimicrobiana historicamente usada para conservar a cerveja.
Entre os flavonoides prenilados, dois se destacam. O xantohumol é estudado por atividades antioxidante e anti-inflamatória em ensaios de laboratório, e por uma possível ação sobre a proliferação de certas células em cultura, achado preliminar que não equivale a tratamento contra câncer em humanos. Já a 8-prenilnaringenina, formada no organismo a partir do isoxantohumol pela ação da microbiota intestinal, é o composto responsável pela atividade estrogênica que define o perfil de risco da planta.
Os óleos essenciais, por fim, reúnem terpenos como mirceno, humuleno, cariofileno e linalol, responsáveis pelo aroma característico e por parte do efeito relaxante tradicionalmente atribuído à planta.
Atividade Estrogênica: o Ponto Central
Essa seção vem antes das demais porque orienta todo o restante.
De fato, a 8-prenilnaringenina é descrita na literatura como um dos fitoestrógenos mais potentes conhecidos em ensaios laboratoriais. Uma revisão publicada em periódico de biologia molecular discute justamente a dupla face desse composto, entre o interesse terapêutico e a preocupação com efeitos indesejados, e uma análise farmacognóstica clássica sobre o lúpulo dedica atenção especial a essas propriedades estrogênicas.
Quem Precisa Evitar Por Causa Disso
- Gestantes e lactantes
- Pessoas com câncer de mama, de útero ou de ovário, atual ou prévio
- Pessoas com endometriose ou miomas uterinos
- Pessoas com histórico familiar importante de câncer hormônio-dependente, sem avaliação
- Pessoas em uso de terapia hormonal ou de contraceptivo hormonal, sem orientação
Portanto, quem tem qualquer condição sensível a hormônios precisa conversar com o médico que acompanha o caso antes de considerar o lúpulo, e isso vale também para o chá.
O Que a Pesquisa Diz Sobre os Possíveis Benefícios do Lúpulo
Atualmente, há material clínico e pré-clínico em frentes distintas, com qualidade desigual entre elas.
Sono
Nesse campo o lúpulo quase nunca aparece sozinho. Os estudos costumam testar a combinação com valeriana, o que impede separar a contribuição de cada planta.
Um ensaio publicado em Sleep comparou uma combinação de valeriana e lúpulo com difenidramina e placebo em insônia. Trabalhos mais recentes seguiram avaliando essa mesma combinação em duração do sono e sonolência diurna, e uma revisão sobre plantas medicinais para insônia relacionada à ansiedade também discute extratos de lúpulo. Estudos de laboratório sugerem que produtos de degradação dos alfa-ácidos e a ação sobre receptores do neurotransmissor GABA possam contribuir para o efeito sedativo, mas a via exata em humanos ainda não está totalmente esclarecida.
Sintomas da Menopausa
Por exemplo, um ensaio clínico randomizado com cento e vinte mulheres, publicado em Complementary Therapies in Clinical Practice, avaliou o uso de lúpulo por doze semanas em sintomas precoces da menopausa. Nesse trabalho, relatou-se redução dos escores de sintomas e do número de fogachos em comparação com placebo.
Um estudo duplo-cego mais antigo, publicado em Maturitas, também testou um extrato padronizado de lúpulo para queixas da menopausa, e outro ensaio randomizado examinou desfechos de função sexual em mulheres na pós-menopausa. Uma revisão em Maturitas sobre preparações vegetais para a menopausa situa o lúpulo entre as opções investigadas além das isoflavonas e do cohosh-preto.
Ansiedade e Tensão Nervosa
Historicamente associado ao relaxamento, o lúpulo também foi testado de forma mais controlada nessa frente. Um estudo piloto randomizado, duplo-cego e cruzado, com adultos jovens saudáveis, avaliou um extrato seco de lúpulo sobre níveis autorrelatados de depressão, ansiedade e estresse, com resultados que sugerem benefício modesto.
O mecanismo proposto envolve a modulação do neurotransmissor GABA, que tem ação inibitória sobre a excitabilidade neuronal. Isso é consistente com o efeito sedativo já descrito para a planta, mas ainda depende de confirmação em estudos maiores.
Ação Anti-Inflamatória e Antioxidante
Em modelos de laboratório e em cultura de células, ácidos amargos do lúpulo, sobretudo as humulonas, modulam vias inflamatórias associadas ao fator de transcrição NF-κB e às enzimas ciclo-oxigenases. Já os polifenóis, como o xantohumol, atuam como antioxidantes, neutralizando radicais livres e favorecendo enzimas antioxidantes do próprio organismo.
Esses achados são, em sua maioria, pré-clínicos, isto é, obtidos em células ou em animais, e ainda não confirmam um efeito anti-inflamatório ou antioxidante clinicamente relevante em pessoas. Não substituem tratamento estabelecido para dor, inflamação crônica ou qualquer outra condição.
Outras Linhas de Pesquisa em Andamento
Revisões sobre fitoquímicos do lúpulo também mencionam investigações preliminares, quase sempre em laboratório ou em modelos animais, sobre possível influência em marcadores de colesterol, em açúcar no sangue e em vias metabólicas ligadas ao acúmulo de gordura, além do já citado interesse pelo xantohumol em estudos de biologia celular sobre proliferação de células cancerígenas. Nenhuma dessas linhas configura tratamento estabelecido para obesidade, diabetes, doença cardiovascular ou câncer, e usá-las como justificativa para abandonar acompanhamento médico é conduta de risco.
Como Ler Esses Resultados
Contudo, convém ser exato quanto ao alcance. São estudos de porte modesto, com preparações específicas, e o efeito sobre sono e ansiedade vem majoritariamente de combinações com outras plantas, não do lúpulo isolado.
Ou seja, existe sinal mais consistente na menopausa e sinais mais preliminares no sono, na ansiedade, na inflamação e nas demais linhas de pesquisa. Nada disso equivale a tratamento estabelecido, e a decisão de uso precisa considerar sempre a atividade estrogênica descrita acima.
Sedação e Cuidados Práticos

Além disso, o efeito sedativo descrito para o lúpulo tem consequência prática: ele pode somar-se ao de outras substâncias.
- Álcool, com potencialização da sedação
- Antidepressivos e demais psicotrópicos
- Anti-histamínicos sedativos
- Benzodiazepínicos e outros ansiolíticos
Ademais, sonolência residual é motivo de atenção para quem dirige ou opera máquinas, sobretudo no início do uso.
Cerveja É Diferente
A quantidade de lúpulo em uma cerveja é muito menor que a de um extrato fitoterápico. Curiosamente, um estudo com enfermeiras saudáveis relatou efeito sedativo mensurável até com cerveja sem álcool, sugerindo que compostos do próprio lúpulo, e não apenas o álcool, contribuem para a sonolência associada à bebida. Ainda assim, a cerveja convencional vem acompanhada de álcool, que traz seus próprios riscos, e uma coisa não substitui nem justifica a outra como forma de uso terapêutico.
Como Preparar o Chá de Lúpulo
- Ferva cerca de 250 ml de água.
- Coloque de uma a duas colheres de chá de cones de lúpulo secos em um infusor ou peneira.
- Despeje a água fervente sobre os cones e cubra a xícara.
- Deixe em infusão por cerca de dez minutos.
- Coe, se necessário, e beba morno, preferencialmente pouco antes de dormir.
Extratos, Tinturas e Cápsulas
Extratos secos padronizados costumam ser comercializados em faixas de trezentos a seiscentos miligramas por dose, mas a concentração real varia conforme o fabricante e o grau de padronização em compostos como a 8-PN. Por isso, seguir a bula do produto e buscar orientação de um médico ou fitoterapeuta antes de iniciar qualquer suplementação é sempre a conduta mais segura, sobretudo diante das contraindicações hormonais e sedativas já descritas.
Sinergias: Combinações Tradicionais com Outras Plantas
Para queixas de sono e ansiedade, a valeriana (Valeriana officinalis) é a parceira clássica do lúpulo, e a camomila (Matricaria chamomilla) também costuma ser somada para reforçar o efeito calmante. Para suporte digestivo, o lúpulo é por vezes combinado com gengibre (Zingiber officinale) ou hortelã-pimenta (Mentha piperita). Essas combinações são tradicionais e não foram necessariamente testadas juntas nos mesmos ensaios citados neste artigo.
Usos Tradicionais
Historicamente, o lúpulo aparece em preparações populares como sedativo, tônico amargo e auxiliar digestivo, e há registro de uso externo em cataplasmas. Os brotos jovens da planta também são consumidos como um tipo de “aspargo de lúpulo” em algumas regiões da Europa.
O cultivo sistemático se intensificou em mosteiros europeus durante a Idade Média, período em que o lúpulo passou de conservante da cerveja a ingrediente valorizado por amargor e aroma. Fora da Europa, povos nativos norte-americanos empregavam a planta para dores e queixas digestivas, e a medicina ayurvédica, na Índia, recorria a ela como tônico nervoso. Travesseiros recheados com flores de lúpulo também são um registro popular antigo para favorecer o sono.
Igualmente, a tradição também lhe atribui outras indicações amplas, de cólicas menstruais a queixas de pele. São registros históricos, sem confirmação em ensaios clínicos, e não devem orientar tratamento.
Sobre Alegações Hormonais Mais Amplas
Por outro lado, circula a ideia de que o lúpulo funcionaria como bloqueador hormonal, com indicações em condições de próstata ou em ajustes de testosterona. Não há evidência clínica que sustente esse tipo de uso.
Ocorre que condições prostáticas exigem diagnóstico e acompanhamento urológico. Automedicar-se com uma planta de atividade estrogênica nesse contexto é conduta de risco.
Contraindicações e Efeitos Colaterais
Além das restrições hormonais já listadas, existem outros pontos de atenção.
- Crianças, sem orientação profissional
- Pessoas com alergia conhecida à planta, já que dermatite de contato é descrita em quem manipula os cones
- Pessoas com cirurgia marcada, pelo efeito sedativo somado à anestesia
- Pessoas com depressão, pela possibilidade de acentuar sintomas
Efeitos colaterais mais brandos incluem sonolência, tontura e, ocasionalmente, diminuição da libido. Em doses mais altas, já foram relatados confusão mental e lentificação da respiração, o que reforça a importância de evitar a combinação com álcool ou outros sedativos.
Quando Procurar Avaliação
Por fim, insônia persistente, sangramento fora do ciclo, alterações menstruais importantes ou sintomas de menopausa que comprometem a rotina merecem consulta. Há tratamentos com eficácia estabelecida, e adiar essa conversa não ajuda.
Perguntas Frequentes Sobre o Lúpulo
Para Que Serve o Lúpulo?
As frentes com material clínico mais consistente são sintomas da menopausa, onde ensaios randomizados relataram redução de fogachos, e sono e ansiedade, quase sempre em combinação com valeriana. Estudos de laboratório também investigam ação anti-inflamatória e antioxidante. A tradição registra usos ainda mais amplos, sem confirmação em ensaios.
Lúpulo Tem Efeito Hormonal?
Sim, e de forma marcante: ele contém 8-prenilnaringenina, descrita como um dos fitoestrógenos mais potentes conhecidos em ensaios laboratoriais. É justamente por isso que a planta exige cautela em qualquer condição sensível a hormônios.
Quem Teve Câncer de Mama Pode Usar?
Não sem avaliação do médico que acompanha o caso. Pela atividade estrogênica descrita, o lúpulo não é indicado para pessoas com câncer hormônio-dependente atual ou prévio, e a orientação vale também para a forma de chá.
Lúpulo Ajuda a Dormir?
Os estudos costumam testar a combinação de lúpulo com valeriana, o que impede atribuir o efeito a uma planta só. Um ensaio publicado em Sleep comparou essa combinação com difenidramina e placebo em insônia, com resultados modestos.
Beber Cerveja Tem o Mesmo Efeito?
Não, porque a quantidade de lúpulo na cerveja é muito menor que a de um extrato fitoterápico. Mesmo cerveja sem álcool mostrou algum efeito sedativo em estudo controlado, mas isso não torna a bebida uma forma adequada de uso terapêutico, e a versão convencional ainda traz os riscos próprios do álcool.
Lúpulo Interage com Remédios?
Sim, principalmente pelo efeito sedativo, que pode somar-se ao de álcool, ansiolíticos, anti-histamínicos sedativos e antidepressivos. Quem usa medicação contínua deve conversar com o médico antes de iniciar.
Grávida Pode Tomar Chá de Lúpulo?
Não é recomendado, porque a atividade estrogênica da planta e a ausência de dados de segurança na gestação e na amamentação sustentam a contraindicação, mesmo na forma de infusão.
Lúpulo Pode Causar Dependência?
Não há evidências consistentes de dependência física associada ao uso de lúpulo nas doses tradicionalmente estudadas. Ainda assim, qualquer substância usada de forma recorrente para dormir merece acompanhamento, e não deve substituir a investigação da causa da insônia.
Qual a Diferença Entre Lúpulo e Cannabis?
Apesar de pertencerem à mesma família botânica, Cannabaceae, lúpulo e cannabis são plantas quimicamente muito distintas. O lúpulo não contém THC nem produz efeitos psicoativos; seus compostos característicos são os ácidos amargos, os flavonoides prenilados e os terpenos descritos neste artigo.
Lúpulo Serve para Problemas de Próstata?
Não há evidência clínica que sustente esse uso. Condições prostáticas exigem diagnóstico e acompanhamento urológico, e recorrer por conta própria a uma planta de atividade estrogênica nesse contexto é conduta de risco.
Referências
Ver Todas as 20 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (12)
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- PMC2016 Aghamiri, V., et al. “The effect of Hop (Humulus lupulus L.) on early menopausal symptoms and hot flashes: a randomized placebo-controlled trial.” Complementary Therapies in Clinical Practice, 2016. ↗.
- PMC2023 “Effect of Humulus lupulus L. (Hop) on Postmenopausal Sexual Dysfunction: A Randomized Trial.” International Journal of Clinical Practice, 2023. ↗.
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Leituras Complementares (8)
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- 2006 Heyerick, A., Vervarcke, S., Depypere, H., Bracke, M., De Keukeleire, D. “A first prospective, randomized, double-blind, placebo-controlled study on the use of a standardized hop extract to alleviate menopausal discomforts.” Maturitas, 2006.
- 2013 Keiler, A., Zierau, O., et al. “Hop Extracts and Hop Substances in Treatment of Menopausal Complaints.” Planta Medica, 2013. ↗.
- 2006 Schiller, H., Forster, A., Vonhoff, C., Hegger, M., Biller, A., Winterhoff, H. “Sedating effects of Humulus lupulus L. extracts.” Phytomedicine, 2006.
- 2009 Van Cleemput, M., Cattoor, K., De Bosscher, K., Haegeman, G., De Keukeleire, D., Heyerick, A. “Hop (Humulus lupulus)-derived bitter acids as multipotent bioactive compounds.” Journal of Natural Products, 2009.
- 2022 Zugravu, C. A., Bohitea, R. E., et al. “Antioxidants in Hops: Bioavailability, Health Effects and Perspectives for New Products.” Antioxidants, 2022. ↗.
- 2012 Franco, L., Sánchez, C., et al. “The Sedative Effect of Non-Alcoholic Beer in Healthy Female Nurses.” PLOS ONE, 2012. ↗.
- 2018 Bocquet, L., Sahpaz, S., Hilbert, J. L., Rambaud, C., Rivière, C. “Humulus lupulus L., a very popular beer ingredient and medicinal plant: overview of its phytochemistry, its bioactivity, and its biotechnology.” Phytochemistry Reviews, 2018.






