A manteiga e a margarina estão entre as gorduras mais consumidas no mundo, presentes no café da manhã e em receitas de todos os tipos. A dúvida sobre qual das duas é mais saudável não é nova: ela acompanha décadas de mudanças na ciência da nutrição e nos processos de fabricação de ambas.
Durante boa parte do século XX, a manteiga foi vista como a opção mais arriscada para o coração por causa da gordura saturada, o que impulsionou a popularidade da margarina como alternativa vegetal. Depois, a descoberta dos riscos da gordura trans, presente em muitas margarinas hidrogenadas mais antigas, complicou essa narrativa. Hoje a ciência reconhece que a qualidade da gordura importa tanto quanto sua origem animal ou vegetal, e que tanto a manteiga quanto a margarina moderna têm vantagens e limitações.
Sumário do Artigo
- O Que É a Manteiga e Como É Produzida
- O Que É a Margarina e Como É Fabricada
- Comparativo Nutricional: Gorduras Saturadas, Insaturadas e Trans
- Impacto na Saúde Cardiovascular: O Que Diz a Ciência?
- Butirato na Manteiga: Um Aliado da Saúde Intestinal?
- Margarinas Modernas: Fitoesteróis e Outros Aditivos
- Manteiga ou Margarina na Cozinha: Qual a Melhor para Cada Preparo?
- Como Fazer a Escolha Certa para Você?
- Impacto Ambiental: Uma Nova Camada na Decisão
- Perguntas Frequentes sobre Manteiga e Margarina
O Que É a Manteiga e Como É Produzida

A manteiga é um laticínio milenar, obtido a partir do creme de leite batido até que os glóbulos de gordura se separem e se aglutinem em uma massa sólida. O líquido restante, o leitelho, é drenado, e a massa de gordura costuma ser lavada e, em muitas versões, salgada.
O resultado é um produto com alto teor de gordura, majoritariamente saturada. A manteiga também concentra vitaminas lipossolúveis naturalmente presentes na gordura do leite, como as vitaminas A, D, E e K, além de minerais como magnésio e cálcio. Sua cor amarelada vem, em parte, do betacaroteno presente na alimentação das vacas.
Existem variações no processo. A manteiga de creme doce, mais comum no mercado, é feita de creme pasteurizado; já a manteiga de cultura é produzida a partir de creme fermentado, o que resulta em sabor mais rico e levemente ácido. Também há versões com maior concentração de gordura, chamadas de extra cremosas ou estilo europeu, usadas sobretudo em confeitaria de alta qualidade. Em geral, a manteiga é um produto mais caro que a margarina, por ser de origem animal e ter um processo de fabricação diferente.
O Que É a Margarina e Como É Fabricada

A margarina surgiu na França, no século XIX, como um substituto mais acessível à manteiga. Ao contrário da manteiga, sua origem é vegetal: ela é feita a partir de óleos como girassol, canola, soja e milho, cada um contribuindo com um perfil diferente de ácidos graxos.
O processo tradicional envolve a hidrogenação, reação que adiciona hidrogênio aos óleos vegetais líquidos para solidificar a gordura e aumentar sua vida útil; foi esse processo que, historicamente, gerava gordura trans como subproduto indesejado. A indústria hoje utiliza cada vez mais a interesterificação, técnica que reorganiza os ácidos graxos dos óleos sem formar isômeros trans, o que permite controlar a textura e o ponto de fusão da margarina sem recorrer à hidrogenação parcial.
Além dos óleos, a margarina recebe água, leite, emulsificantes, corantes e aromatizantes que imitam o sabor da manteiga. Diferente da manteiga, que tem vitaminas naturalmente presentes na gordura do leite, a margarina costuma ser fortificada artificialmente com vitaminas A e D durante o processamento.
Comparativo Nutricional: Gorduras Saturadas, Insaturadas e Trans
A diferença nutricional mais relevante entre as duas está no tipo de gordura predominante. A manteiga é rica em gordura saturada; a margarina, em gorduras insaturadas, divididas em monoinsaturadas e poli-insaturadas. Essa distinção importa para a saúde cardiovascular, e por isso as diretrizes dietéticas costumam recomendar moderação no consumo de gordura saturada; a American Heart Association sugere que ela represente cerca de 5 a 6% das calorias diárias.
A gordura saturada, presente em produtos de origem animal, pode elevar o colesterol LDL, conhecido como colesterol ruim, associado a maior risco cardiovascular quando em excesso. Já as gorduras insaturadas, presentes em óleos vegetais, castanhas e sementes, tendem a ajudar a reduzir o LDL e são essenciais para diversas funções do corpo, mas precisam estar em equilíbrio: o consumo excessivo de ômega-6 em relação ao ômega-3, comum quando há abuso de certos óleos vegetais, é associado a maior potencial inflamatório no organismo.
O ponto de maior consenso científico atual é sobre a gordura trans industrial, formada na hidrogenação parcial de óleos: ela eleva o LDL e reduz o HDL, o colesterol bom, simultaneamente, com associação bem documentada a maior risco de doença cardíaca. No Brasil, a Anvisa proíbe desde 2023 a adição de gordura trans industrial em alimentos processados, o que mudou de forma significativa o perfil das margarinas vendidas hoje em relação às versões hidrogenadas mais antigas.
A percepção sobre a própria gordura saturada também evoluiu. Revisões mais recentes mostram uma relação menos direta com o risco cardiovascular do que se pensava décadas atrás, o que tornou esse um tema de debate científico ativo, não uma questão fechada; alguns estudos sugerem, inclusive, que a gordura saturada de laticínios tem efeito diferente da gordura saturada de carnes processadas, embora essa distinção ainda esteja sendo investigada.
Impacto na Saúde Cardiovascular: O Que Diz a Ciência?
Por décadas, a recomendação de saúde pública foi trocar a manteiga pela margarina, com base no menor teor de gordura saturada desta última. Essa recomendação fazia sentido no contexto das margarinas hidrogenadas mais antigas, carregadas de gordura trans, hoje reconhecida como o tipo de gordura alimentar com associação mais consistente a maior risco cardiovascular.
Pesquisas populacionais mais recentes, como o estudo PURE (Prospective Urban Rural Epidemiology), têm questionado a força da associação direta entre gordura saturada e risco cardiovascular, sugerindo que substituir gordura saturada por carboidratos refinados pode ser mais prejudicial do que mantê-la na dieta. Por outro lado, a substituição de gordura saturada por gordura insaturada, vinda de óleos vegetais, castanhas e peixes, segue associada a menor risco em diversos estudos.
Isso sugere que a pergunta relevante não é apenas manteiga contra margarina, mas a qualidade geral da dieta como um todo. Uma margarina moderna, rica em gorduras poli-insaturadas e sem gordura trans, pode ser uma escolha mais favorável ao colesterol dentro de uma dieta pobre em outros nutrientes; uma quantidade pequena de manteiga, dentro de uma dieta rica em fibras, frutas e vegetais, tende a ter impacto pouco relevante isoladamente.
Butirato na Manteiga: Um Aliado da Saúde Intestinal?
A manteiga contém butirato, um ácido graxo de cadeia curta que serve de fonte de energia para as células do cólon e ajuda a manter a integridade da barreira intestinal, a estrutura que impede que toxinas e bactérias indesejadas alcancem a corrente sanguínea.
A maior parte do butirato presente no organismo, porém, não vem da manteiga: ele é produzido principalmente pelas próprias bactérias intestinais, que fermentam fibras alimentares. A contribuição da manteiga para os níveis totais de butirato é, portanto, relativamente pequena diante do que uma dieta rica em fibras é capaz de gerar.
Pesquisas sobre o papel do butirato de modo geral, incluindo o produzido pela fermentação de fibras, sugerem um possível efeito na modulação da inflamação intestinal, inclusive em contextos estudados como as doenças inflamatórias intestinais; são resultados de pesquisa em desenvolvimento, e não substituem o acompanhamento médico dessas condições. Estudos preliminares também investigam uma possível conexão entre o butirato e o eixo intestino-cérebro, com efeitos ainda em avaliação sobre humor e comportamento, além de um papel na regulação do sistema imunológico.
Margarinas Modernas: Fitoesteróis e Outros Aditivos
A preocupação com a gordura trans impulsionou inovações na indústria de margarinas. Uma das mais relevantes foi a adição de fitoesteróis, compostos vegetais com estrutura semelhante à do colesterol que competem com ele pela absorção no intestino e podem ajudar a reduzir os níveis de colesterol LDL. Margarinas enriquecidas com fitoesteróis são consideradas alimentos funcionais e costumam ser mais caras que as versões comuns. Elas foram desenvolvidas para quem precisa reduzir o colesterol, e não para a população em geral: os órgãos reguladores orientam não ultrapassar cerca de 3 gramas de fitoesteróis por dia e recomendam que gestantes, lactantes e crianças menores de 5 anos não consumam esses produtos, já que o uso regular diminui a absorção de betacaroteno e de outros carotenoides. Pessoas com sitosterolemia, uma doença genética rara do metabolismo dos esteróis vegetais, devem evitá-los. Quem já faz tratamento medicamentoso para o colesterol precisa alinhar o uso com o médico, em vez de substituir a medicação pela margarina funcional.
Outras margarinas são enriquecidas com ômega-3, geralmente na forma de ALA, o ácido alfa-linolênico, presente em óleos como linhaça e canola. O corpo consegue converter parte do ALA em EPA e DHA, os ômega-3 de cadeia longa encontrados em peixes, mas essa conversão é pouco eficiente; por isso, a margarina enriquecida com ALA é um complemento, não um substituto, das fontes diretas de EPA e DHA.
A variedade de margarinas hoje é ampla: existem versões light, com menos gordura e mais água; cremosas; líquidas para cozinhar; e até misturas de manteiga com margarina, que buscam unir o sabor da primeira ao perfil de gordura da segunda.
Manteiga ou Margarina na Cozinha: Qual a Melhor para Cada Preparo?
Além da saúde, as propriedades físicas de cada gordura afetam diretamente o resultado das receitas. A manteiga é preferida na confeitaria fina: seu ponto de fusão cria as camadas de ar que deixam massas folhadas, como a de croissants, leves e aeradas, e seu sabor é considerado difícil de substituir.
A margarina, por sua vez, costuma ser mais barata, ter vida útil mais longa e, em bolos e biscoitos, pode gerar uma textura mais macia e uniforme, já que a gordura envolve as partículas de farinha e limita o desenvolvimento excessivo do glúten.
Para refogados e frituras em temperatura alta, o ponto de fumaça importa: a manteiga comum tem ponto de fumaça mais baixo e queima com mais facilidade, enquanto a manteiga clarificada, o ghee, sem os sólidos do leite, tem ponto de fumaça mais alto. A maioria das margarinas e dos óleos vegetais também tem ponto de fumaça mais elevado, o que os torna mais adequados para frituras. O teor de água de cada produto, cerca de 15 a 18% na manteiga e variável na margarina conforme a marca, também influencia a consistência final da receita, o que faz da manteiga uma escolha mais previsível para preparos que exigem precisão.
Como Fazer a Escolha Certa para Você?
Não existe uma resposta única válida para todo mundo. A manteiga é um alimento menos processado, com nutrientes naturais, mas rica em gordura saturada; a margarina moderna, sem gordura trans, tem perfil de gordura geralmente mais favorável ao colesterol para quem precisa reduzi-lo, mas é um produto industrializado, com aditivos.
Pessoas com colesterol alto ou risco cardiovascular elevado costumam se beneficiar mais de substituir gordura saturada por insaturada, o que favorece a margarina moderna nesse contexto específico. Para a população geral, sem esse risco, o consumo moderado de qualquer uma das duas, dentro de uma dieta equilibrada, não costuma ser motivo de preocupação isolada.
Ler o rótulo é fundamental em qualquer caso: vale conferir a lista de ingredientes e a tabela nutricional, evitar produtos com gordura hidrogenada e dar preferência a gorduras insaturadas. A decisão mais segura, em caso de dúvida sobre o próprio perfil de colesterol, é conversar com um médico ou nutricionista.
Impacto Ambiental: Uma Nova Camada na Decisão
Além da saúde e do uso culinário, o impacto ambiental de manteiga e margarina também pesa na decisão de muitos consumidores. A manteiga, como derivado da pecuária leiteira, está associada a uma pegada de carbono mais alta: a criação de gado exige grandes quantidades de terra e água, e os animais produzem metano, um gás de efeito estufa relevante.
A produção de margarina depende da agricultura de óleos vegetais, e o impacto ambiental aqui varia conforme o óleo utilizado. O óleo de palma é o caso mais controverso, associado ao desmatamento de florestas tropicais e à perda de biodiversidade; já óleos como girassol e canola, quando cultivados de forma sustentável, tendem a ter impacto menor que a pecuária.
Selos de certificação, como o da RSPO, a Roundtable on Sustainable Palm Oil, buscam garantir que o óleo de palma seja produzido de forma ambiental e socialmente responsável. Verificar a origem dos óleos e a presença dessas certificações pode fazer diferença para quem prioriza esse critério na escolha entre as duas gorduras.
Perguntas Frequentes sobre Manteiga e Margarina
Qual É a Principal Diferença Entre Manteiga e Margarina?
A principal diferença está na origem e na composição da gordura. A manteiga é de origem animal, feita da gordura do leite, rica em gordura saturada; a margarina é de origem vegetal, feita de óleos vegetais, geralmente rica em gorduras insaturadas.
Manteiga É Sempre Pior que Margarina para o Coração?
Não necessariamente. O debate científico sobre gordura saturada e risco cardiovascular está mais nuançado do que há décadas; o consenso mais forte hoje é sobre o risco da gordura trans, hoje proibida nas margarinas brasileiras.
Margarina Vendida no Brasil Ainda Tem Gordura Trans?
Não deveria: a Anvisa proíbe a adição de gordura trans industrial em alimentos processados desde 2023. As margarinas mais antigas, hidrogenadas, é que continham esse tipo de gordura.
O Que São Fitoesteróis Adicionados a Algumas Margarinas?
São compostos vegetais que competem com o colesterol pela absorção no intestino e podem ajudar a reduzir os níveis de colesterol LDL. Margarinas enriquecidas com fitoesteróis são consideradas alimentos funcionais e se destinam a quem precisa reduzir o colesterol; gestantes, lactantes e crianças menores de 5 anos não devem consumi-las, e quem já toma medicamento para colesterol deve conversar com o médico em vez de trocar o tratamento pela margarina.
Qual É a Melhor Opção para Cozinhar Cada Tipo de Prato?
Depende do preparo. Para massas folhadas e sabor, a manteiga costuma ser insuperável; para bolos e biscoitos, a margarina pode gerar uma textura mais macia; para frituras em temperatura alta, óleos vegetais e margarinas com ponto de fumaça mais elevado tendem a ser mais indicados.
Manteiga Ghee É Mais Saudável que a Manteiga Comum?
O ghee é uma forma de manteiga clarificada, sem os sólidos do leite e a água, o que reduz bastante o teor de lactose e de caseína e eleva seu ponto de fumaça. A remoção não é total: restam traços de proteínas do leite, e por isso quem tem alergia à proteína do leite de vaca deve evitar o ghee ou consultar um alergista antes de usá-lo, ainda que a maioria das pessoas com intolerância à lactose costume tolerá-lo bem. Nutricionalmente, a composição de gorduras é muito semelhante à da manteiga comum.
Crianças Podem Consumir Manteiga e Margarina?
Em quantidade moderada, geralmente sim, já que as gorduras são importantes para o desenvolvimento infantil. Para margarina, vale priorizar opções sem gordura trans e com bons óleos vegetais; a orientação de um pediatra ajuda a definir a quantidade adequada para cada criança.
Qual É a Melhor Opção para Quem Tem Colesterol Alto?
Para quem tem colesterol alto, a recomendação geral é limitar gordura saturada e trans; nesse caso, uma margarina moderna, sem gordura trans e, se possível, enriquecida com fitoesteróis, costuma ser mais indicada, mas a decisão deve envolver um médico ou nutricionista.
Manteiga Tem Mais Nutrientes que Margarina?
Tem vitaminas lipossolúveis naturais, A, D, E e K, e minerais como magnésio e cálcio; a margarina costuma ser fortificada artificialmente com vitaminas durante o processamento.
Qual É Mais Cara, Manteiga ou Margarina?
A manteiga costuma ser mais cara, por ser um produto de origem animal com processo de fabricação diferente do da margarina.
Referências
Ver Todas as 14 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)
- PMC Theoretical effects of substituting butter with margarine on risk of cardiovascular disease
- PEER Effects of margarine compared with those of butter on blood lipid profiles related to cardiovascular disease risk factors
- PMC The Effect of Trans Fatty Acids on Human Health
- PMC Butyrate: A Double-Edged Sword for Health?
- PEER Butyrate’s role in human health and the current progress in its application in the gastrointestinal tract
Fontes Institucionais (2)
Leituras Complementares (7)
- American Heart Association. Saturated Fat.
- American Heart Association. Trans Fats.
- 2019 Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). RDC nº 332/2019, proibição de gorduras trans industriais.
- 2014 Chowdhury, Rajiv, et al. Association of dietary, circulating, and supplement fatty acids with coronary risk: a systematic review and meta-analysis. Annals of Internal Medicine, 2014;160(6):398-406.
- 2009 Mozaffarian, Dariush, et al. Health effects of trans-fatty acids: experimental and observational evidence. European Journal of Clinical Nutrition, 2009;63(S2):S5-S21.
- Trans fat is double trouble for your heart health
- Margarine or Butter: The Heart-Healthiest Spreads





