A alteia (Althaea officinalis) é uma planta de brejos e margens de rio cuja raiz concentra mucilagem, um conjunto de polissacarídeos que incha em contato com a água e forma um gel viscoso. Esse gel cobre as mucosas com uma película macia, e é desse efeito físico, mais do que de qualquer ação farmacológica potente, que vem o uso mais bem documentado da planta: acalmar a irritação de garganta que dispara a tosse seca.
O nome popular em inglês, marshmallow, batizou o doce, embora a versão industrial de hoje não leve nada da planta. Em torno da alteia circulam ainda promessas sobre digestão, infecções ginecológicas e pele, e o nível de evidência por trás de cada uma varia bastante. O que segue separa aquilo que já foi testado em pessoas daquilo que ainda existe apenas em cultura de células ou em modelo animal.
Sumário do Artigo
- Como a Planta É e Onde Cresce
- Registro Histórico, sem Peso de Evidência
- Composição Fitoquímica da Raiz
- O Que a Pesquisa Pré-clínica Mostra sobre Inflamação
- Tosse Seca e Irritação de Garganta
- Trato Digestivo: Pesquisa Pré-clínica, Não Tratamento
- Pele Seca, Eczema e Dermatite Atópica
- Candidíase Vulvovaginal: Um Único Ensaio Clínico
- Como Usar a Alteia
- Cuidados, Contraindicações e Interações
- Perguntas Frequentes sobre a Alteia
Como a Planta É e Onde Cresce
Herbácea perene da família Malvaceae, a alteia chega a cerca de dois metros de altura e prefere solos úmidos e férteis. As folhas são aveludadas ao toque, as flores vão do branco ao rosa-claro e abrem no verão, e a raiz, espessa e comprida, é a parte mais aproveitada. A planta é nativa de Ásia Ocidental, Europa e Norte da África, e o nome do gênero vem do grego altho, curar.
Folhas e flores também aparecem no uso tradicional, com perfil diferente do da raiz. Como a mucilagem se concentra na porção subterrânea, é ela que se torna a escolha padrão sempre que o objetivo é o efeito demulcente.
Registro Histórico, sem Peso de Evidência
Menções ao uso da raiz para garganta irritada e para feridas aparecem em fontes egípcias, gregas e romanas, e a planta figura entre as cultivadas nos jardins medicinais europeus da Idade Média. Esse histórico explica por que a alteia entrou nas farmacopeias modernas na categoria de uso tradicional, e é só isso que ele explica. Séculos de emprego popular indicam aceitação cultural e boa tolerância, nunca eficácia comprovada para as indicações que hoje se atribuem à planta.
Composição Fitoquímica da Raiz
- Ácidos fenólicos, que somam à fração antioxidante do extrato.
- Asparagina, aminoácido presente na raiz e associado a um leve efeito diurético.
- Escopoletina, cumarina com atividade anti-inflamatória descrita em laboratório.
- Flavonoides, entre eles a hipolaetina-8-glucosídeo, estudados por ação antioxidante e anti-inflamatória1.
- Mucilagem, a fração majoritária e responsável pelo gel que recobre as mucosas.
O teor de mucilagem varia conforme colheita, forma de extração e secagem, o que ajuda a entender por que preparações diferentes rendem sensações tão distintas na garganta.

As raízes secas de alteia concentram a mucilagem responsável pelo efeito demulcente da planta.
O Que a Pesquisa Pré-clínica Mostra sobre Inflamação
Em cultura de macrófagos, o extrato de raiz de alteia e uma formulação comercial derivada dela reduziram marcadores de inflamação e de estresse oxidativo, com magnitude comparável à do diclofenaco avaliado no mesmo ensaio1. O achado interessa como pista de mecanismo e para por aí: célula em placa não reproduz absorção, dose real nem metabolismo, e nenhum ensaio clínico comparou alteia com um anti-inflamatório dessa classe em pessoas. Ler esse resultado como equivalência terapêutica seria um salto que os próprios autores não dão.
Tosse Seca e Irritação de Garganta
Esta é a indicação com respaldo regulatório. A monografia do comitê de medicamentos à base de plantas da Agência Europeia de Medicamentos reconhece a raiz de alteia como fitoterápico de uso tradicional para alívio sintomático da irritação da mucosa oral e faríngea e da tosse seca associada2. A categoria de uso tradicional tem significado técnico preciso: o reconhecimento se apoia em emprego prolongado e em plausibilidade do mecanismo demulcente, não em ensaios clínicos de grande porte. Revisões dedicadas ao tema chegam à mesma leitura, descrevendo um efeito local, mecânico e razoavelmente consistente para o conforto da garganta3.
Daí saem duas consequências práticas. O alívio dura enquanto a película permanece sobre a mucosa, o que costuma significar algumas horas, e a forma de administração pesa mais do que a dose total. Chás, pastilhas e xaropes mantêm contato direto com a região irritada, enquanto cápsulas engolidas inteiras passam pela garganta sem cumprir esse papel.
A alteia também não é expectorante no sentido farmacológico, já que não fluidifica secreção nem acelera a eliminação de muco. Quando aparece associada a bronquite ou a quadros com catarro, o benefício que se pode esperar continua sendo o conforto da mucosa irritada, e não a limpeza das vias aéreas.
Tosse que ultrapassa duas semanas, ou que vem acompanhada de falta de ar, febre persistente, perda de peso ou sangue no escarro, pede avaliação médica em vez de chá.
Trato Digestivo: Pesquisa Pré-clínica, Não Tratamento
Uma avaliação farmacológica do extrato aquoso da flor de alteia, conduzida em modelos experimentais, descreveu efeitos anti-inflamatórios e sugeriu ação protetora sobre a mucosa4. Somado ao efeito de barreira da mucilagem, isso sustenta a hipótese de que a planta ajude no conforto de quem sente ardência ou queimação, e é exatamente aí que a leitura precisa parar. Nada nesse conjunto demonstra que a alteia trate gastrite, refluxo ou úlcera péptica em seres humanos.
As três condições têm causas distintas e exigem diagnóstico. Gastrite e úlcera envolvem com frequência infecção por Helicobacter pylori, que precisa ser pesquisada e tratada com esquema antibiótico específico quando presente, e refluxo mal controlado carrega complicações próprias ao longo do tempo. Doenças inflamatórias intestinais e síndrome do intestino irritável, citadas em muitos textos sobre a planta, não contam com ensaio clínico relevante de alteia e são justamente os quadros que mais dependem de acompanhamento gastroenterológico. Usar a raiz como conforto adicional é uma coisa; usá-la no lugar da investigação e do tratamento prescrito é outra bem diferente.
Pele Seca, Eczema e Dermatite Atópica
Sobre a pele, a mucilagem age pelo mesmo princípio das mucosas, formando uma camada que retém umidade. É essa a base do uso emoliente tradicional em pele seca e áspera.
Quando o assunto é dermatite atópica, existe um dado clínico que costuma ser mal contado por aí. Um estudo piloto, pequeno a ponto de apenas 22 crianças concluírem o protocolo, comparou pomada de alteia com pomada de hidrocortisona a 1% em casos leves a moderados da doença5. Não houve grupo placebo, porque o comparador escolhido foi um corticoide ativo, e nesse desenho o grupo da alteia teve melhora um pouco maior no escore de gravidade. Os próprios pesquisadores, ainda assim, destacam que são necessários estudos maiores para confirmar o achado.
Um piloto com esse tamanho de amostra não estabelece superioridade da alteia sobre a hidrocortisona, e nenhuma decisão de tratamento deveria se apoiar nele. Corticoide tópico prescrito não se substitui por pomada de fitoterápico por conta própria. Eczema e dermatite atópica devem ser acompanhados por dermatologista ou pediatra, e qualquer mudança no tratamento tópico prescrito precisa ser discutida antes com esse profissional, ainda mais em crianças, em que a escolha da potência do corticoide e do veículo faz parte do cuidado.
Para feridas e queimaduras, o uso tradicional se restringe a lesões superficiais e pequenas. Queimaduras com bolhas, feridas que não fecham e sinais de infecção, como calor, dor crescente, pus ou vermelhidão em expansão, são situações de atendimento, não de cataplasma caseiro.
Candidíase Vulvovaginal: Um Único Ensaio Clínico
Um ensaio clínico randomizado e duplo-cego avaliou a alteia como tratamento complementar na candidíase vulvovaginal6. Trata-se de um resultado isolado e ainda não replicado, o que o mantém na categoria de hipótese em investigação, longe de terapia validada e estabelecida. O termo complementar, presente no próprio desenho do estudo, também merece atenção: a planta foi somada ao tratamento, não colocada em seu lugar.
Ardência ao urinar, coceira, corrimento com alteração de cor ou odor e episódios recorrentes exigem avaliação ginecológica. Uma das razões é que o autodiagnóstico de candidíase erra com frequência, e sintomas parecidos aparecem em vaginose bacteriana e em infecções sexualmente transmissíveis, que pedem tratamentos completamente distintos.
Como Usar a Alteia
Infusão a Frio
A extração a frio preserva melhor a mucilagem e é a preparação preferida quando se busca o efeito demulcente. Cubra uma colher de chá de raiz picada com 250 ml de água em temperatura ambiente, deixe de 2 a 4 horas mexendo de vez em quando, e coe antes de tomar. O líquido fica levemente viscoso, e é essa textura que sinaliza boa extração.
Decocção
Ferver a raiz de 10 a 15 minutos extrai outros compostos além da mucilagem e rende uma bebida de sabor mais marcante. Funciona como alternativa quando a infusão a frio não for prática, com a ressalva de que o calor prolongado tende a reduzir a viscosidade final.
Cápsulas e Tinturas
Cápsulas de raiz em pó costumam trazer de 500 a 1000 mg por unidade, e tinturas são diluídas em água antes do uso. Ambas atendem bem quando a proposta é uso interno geral. Para garganta irritada, porém, o contato local é o que produz o alívio, de modo que chá, pastilha ou xarope levam vantagem clara sobre a cápsula.
Uso Tópico
O cataplasma se faz misturando a raiz em pó com água morna até formar uma pasta, que é aplicada sobre a pele limpa por 20 a 30 minutos e depois removida com água. Cremes e pomadas comerciais poupam o preparo e trazem concentração definida em rótulo, o que facilita o uso regular.
As quantidades descritas acima refletem a prática usual e não substituem a orientação do rótulo do produto escolhido ou do profissional que acompanha o caso.
Cuidados, Contraindicações e Interações
- Crianças pequenas devem usar alteia apenas sob supervisão pediátrica, conforme a monografia europeia condiciona para as faixas etárias mais novas2.
- Gestantes e lactantes precisam evitar a planta por precaução, já que não existem dados de segurança suficientes nesses grupos2.
- Medicamentos de uso contínuo podem ter a absorção retardada pela mucilagem, que funciona como barreira física no trato digestivo, e por isso a alteia deve ser espaçada dos demais medicamentos em pelo menos 1 a 2 horas.
- Reações adversas são raras e costumam se limitar a desconforto gástrico leve, mas qualquer sinal sugestivo de alergia, como coceira ou inchaço, pede suspensão imediata e avaliação.
O perfil da alteia é o de uma planta suave, de ação local e previsível, que oferece conforto real em irritações de mucosa. Esse tipo de cuidado convive bem com tratamento médico, desde que não tente ocupar o lugar dele.
Perguntas Frequentes sobre a Alteia
A Alteia É Segura para Crianças?
A planta é considerada bem tolerada, e preparações de alteia estão entre as tradicionalmente usadas para tosse seca na infância. A monografia europeia, contudo, condiciona o uso nas faixas etárias mais novas à orientação profissional, então a regra prática é conversar com o pediatra antes de oferecer alteia a crianças pequenas2. Tosse em bebês merece avaliação por si só, principalmente quando persiste ou vem com cansaço e febre.
Qual a Diferença entre a Raiz e as Folhas da Alteia?
A raiz concentra muito mais mucilagem, e por isso é a parte escolhida quando o objetivo é o efeito demulcente sobre garganta e trato digestivo. As folhas têm teor menor desse componente e aparecem também no uso tradicional voltado ao trato urinário. Para tosse seca, a raiz é a opção coerente.
A Alteia Tem Efeitos Colaterais?
Reações adversas são raras e, quando ocorrem, costumam se resumir a desconforto gástrico leve. O ponto mais relevante não é toxicidade, e sim interação: a mucilagem pode retardar a absorção de outros medicamentos tomados no mesmo horário, o que se resolve espaçando a alteia em 1 a 2 horas de qualquer outro medicamento.
Quem Está Grávida ou Amamentando Pode Usar Alteia?
Não existem dados de segurança suficientes para esses grupos, e a recomendação padrão é evitar a planta por precaução durante a gestação e a amamentação2. Sintomas respiratórios ou digestivos nessas fases devem ser levados ao profissional que acompanha o pré-natal ou o puerpério.
A Alteia Trata Gastrite e Úlcera?
Não. O que existe é pesquisa pré-clínica com extratos da planta4 e o efeito de barreira da mucilagem, que pode trazer conforto sintomático em quadros de ardência. Gastrite e úlcera exigem diagnóstico médico e investigação de Helicobacter pylori quando indicada, com tratamento próprio que a planta não substitui.
Alteia É o Mesmo que o Doce Marshmallow?
Não. O doce nasceu de uma receita antiga que aproveitava a mucilagem da raiz, mas a versão industrial atual é feita de açúcar, gelatina e xarope de glicose, sem extrato da planta. Comer marshmallow não produz nenhum dos efeitos descritos aqui.
A Alteia Pode Ser Usada na Pele?
Sim, no uso tradicional como emoliente para pele seca e áspera, formando uma camada que ajuda a reter umidade. Para dermatite atópica, eczema e feridas que não cicatrizam, o acompanhamento cabe ao dermatologista ou ao pediatra, e nenhum produto tópico prescrito deve ser trocado por pomada de alteia por conta própria.
Qual a Melhor Forma de Preparar o Chá de Alteia?
A infusão a frio, de 2 a 4 horas, é a que melhor extrai a mucilagem e rende aquela textura levemente viscosa que caracteriza um bom preparado. A decocção de 10 a 15 minutos serve como alternativa e extrai outros compostos, ainda que com menos viscosidade no resultado final.
Referências
- Anti-inflammatory and Anti-oxidative Effects of Phytohustil and Root Extract of Althaea officinalis L. on Macrophages in vitro. PMC7090173.
- European Medicines Agency. Assessment report on Althaea officinalis L., radix (monografia HMPC).
- Marsh Mallow (Althaea officinalis L.) and Its Potency in the Treatment of Cough. PMID 31770755.
- Pharmacological evaluation of aqueous extract of Althaea officinalis flower grown in Lebanon. PMID 21281251.
- 2021 Naseri V, et al. Effect of topical marshmallow (Althaea officinalis) on atopic dermatitis in children: A pilot double-blind active-controlled clinical trial of an in-silico-analyzed phytomedicine. Phytotherapy Research, 2021. PMID 33034099.
- The efficacy of complementary treatment with marshmallow (Althaea officinalis L.) on vulvovaginal candidiasis: A randomized double-blinded controlled clinical trial.






