Anadenanthera colubrina var. cebil, também citada como Anadenanthera macrocarpa
O angico se destaca como uma das árvores mais marcantes do Brasil, um símbolo de resiliência que nasce em solos difíceis. Sua presença é constante nos biomas do Cerrado e da Caatinga, onde raízes profundas buscam sustento em terrenos muitas vezes áridos. Comunidades tradicionais, guardiãs de um saber que atravessa gerações, valorizam suas propriedades há séculos, um conhecimento passado de pai para filho que mantém viva a prática da fitoterapia popular.
Esta árvore robusta oferece muito mais do que sombra e madeira de lei. A casca do angico, de aparência rústica, guarda um patrimônio valioso para o cuidado da saúde, e é dela que saem os preparos conhecidos no sertão: o chá, o xarope caseiro, o banho de assento, a compressa e o gargarejo. O sabor amargo e adstringente do chá sinaliza a concentração de compostos ativos que a pesquisa científica vem examinando nas últimas décadas.
Neste artigo, você vai conhecer a história etnobotânica do angico, seus principais componentes químicos, os usos tradicionais atribuídos à casca e o que os estudos publicados de fato mostraram, com os números que eles registraram. Também vai encontrar cada preparo descrito passo a passo, as doses geralmente indicadas e os cuidados necessários para um uso consciente.
Sumário do Artigo
- A História e a Tradição do Angico
- As Espécies de Angico e a Confusão de Nomes
- Composição Química e Princípios Ativos
- Propriedades Atribuídas à Casca de Angico
- Usos Tradicionais da Casca de Angico
- O Que a Pesquisa Científica Já Mostrou
- Como Preparar a Casca de Angico
- Efeitos Colaterais e Contraindicações do Angico
- O Angico na Cultura Popular e no Folclore
- Perguntas Frequentes sobre o Angico
A História e a Tradição do Angico

Angico, Anadenanthera macrocarpa
A história do angico está profundamente ligada à formação da cultura brasileira. Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, os povos indígenas que habitavam o Cerrado e a Caatinga já conheciam e reverenciavam esta árvore, incorporando-a ao seu cotidiano, à sua cosmologia e às suas tradições de cura.
Os povos originários empregavam a madeira resistente na construção de moradias e ferramentas, e as copas frondosas ofereciam abrigo contra o sol forte do sertão. O uso mais valorizado, porém, vinha da casca: ela era um dos principais ingredientes da farmacopeia local, empregada tradicionalmente no cuidado de feridas, inflamações e desconfortos respiratórios. A aplicação do pó da casca sobre ferimentos, para estancar o sangue, é uma das técnicas mais citadas nos registros etnobotânicos da região semiárida.
Com a colonização, a exploração do angico se intensificou de forma predatória. Sua madeira de alta densidade e durabilidade era cobiçada para dormentes de ferrovias, postes, cercas e móveis, o que levou a um desmatamento expressivo em diversas regiões. Ainda assim, o conhecimento popular sobre suas propriedades sobreviveu, preservado sobretudo nas comunidades rurais, quilombolas e sertanejas que seguem utilizando o chá da casca como recurso de saúde acessível.
Foi nesse ambiente que as receitas ganharam a forma que têm hoje. O xarope de angico com mel, também chamado de lambedor, tornou-se um clássico das estações secas, quando os desconfortos respiratórios se tornam mais frequentes. O chá da casca também entrou na veterinária popular, usado em feridas de animais de criação, o que dá a medida da importância prática da planta para a vida no sertão.
As Espécies de Angico e a Confusão de Nomes

Anadenanthera colubrina, angico-branco e angico-vermelho
O nome popular angico designa um grupo de árvores do gênero Anadenanthera, da família Fabaceae. As mais conhecidas e estudadas são as que a tradição chama de angico-branco e angico-vermelho, ambas associadas a propriedades semelhantes e usadas de forma intercambiável pela população local.
Angico-Branco e Angico-Vermelho
Na tradição popular, o angico-branco costuma se referir à Anadenanthera colubrina em sentido estrito, mais comum em áreas de Cerrado e matas de transição, com casca de tom mais claro e porte que pode ser bastante imponente. Já o angico-vermelho costuma se referir à árvore chamada de Anadenanthera macrocarpa, mais associada à Caatinga e a outras áreas de clima semiárido, com casca de tonalidade mais escura e avermelhada.
O Que Dizem as Bases Taxonômicas
A botânica atual trata os dois nomes como sendo do mesmo grupo. Bases de referência internacionais, entre elas o Plants of the World Online, mantido pelo Kew Science, e a GBIF Backbone Taxonomy, registram Anadenanthera macrocarpa (Benth.) Brenan como sinônimo de Anadenanthera colubrina var. cebil (Griseb.) Altschul, que é o nome aceito. Isso explica por que os dois nomes aparecem, dependendo da fonte, ora como espécies distintas, ora como variações da mesma espécie.
A observação tem uma consequência prática para quem lê a literatura científica. Estudos publicados sob o nome Anadenanthera macrocarpa e estudos publicados sob o nome Anadenanthera colubrina var. cebil tratam, na maioria dos casos, da mesma planta, ainda que os autores tenham escolhido nomenclaturas diferentes.
Como Identificar a Árvore
O angico pode atingir de 10 a 20 metros de altura e tem tronco robusto, coberto por uma casca espessa, rugosa e de cor escura, muitas vezes com projeções espinhosas. As folhas são compostas, pequenas e delicadas, e as flores, brancas e perfumadas, agrupam-se em cachos e atraem abelhas e outros polinizadores. É uma espécie resistente, adaptada às condições áridas do semiárido brasileiro.
Composição Química e Princípios Ativos
A casca do angico reúne uma composição fitoquímica complexa, que é a base dos usos tradicionais atribuídos à planta. Taninos, flavonoides, saponinas, alcaloides e outros compostos fenólicos foram identificados em análises laboratoriais, e a pesquisa segue isolando e caracterizando moléculas específicas, como o anadantosídeo, um flavanol glicosilado descrito em 1999 a partir da casca.
Taninos e a Ação Adstringente
Os taninos, um grupo de polifenóis, estão entre os componentes mais estudados e são os principais responsáveis pela forte adstringência, aquela sensação de contrair a boca, e pelo sabor amargo característico da casca. Essas substâncias têm a capacidade de se ligar a proteínas dos tecidos, promovendo contração local e constrição de pequenos vasos sanguíneos superficiais. Ao entrar em contato com a pele ou com as mucosas, formam uma camada protetora que reduz secreções e dificulta a proliferação de micro-organismos na superfície, o que ajuda a explicar tanto o uso tradicional em pequenos ferimentos quanto o emprego popular em quadros de diarreia.
Flavonoides e a Ação Antioxidante
A casca contém flavonoides, como fisetina e quercetina, conhecidos pela atividade antioxidante. Essas moléculas neutralizam radicais livres, espécies instáveis que participam do estresse oxidativo associado ao envelhecimento celular e a processos inflamatórios. É a classe de compostos mais diretamente ligada aos resultados de laboratório descritos adiante.
Saponinas e Alcaloides
As saponinas têm propriedade tensoativa, semelhante à de um sabão, e ajudam a reduzir a tensão superficial do muco acumulado nas vias respiratórias, tornando a expectoração mais fácil. Os alcaloides são compostos nitrogenados com atividades biológicas variadas, ainda em investigação, e no angico podem participar da modulação de respostas inflamatórias.
Casca e Sementes Não São a Mesma Coisa
As sementes do angico têm um perfil químico bastante distinto do da casca, concentrando alcaloides como a bufotenina e a N,N-dimetiltriptamina (DMT), compostos psicoativos historicamente associados ao uso ritual de povos indígenas. Essas sementes não entram em nenhum dos preparos descritos neste artigo. Uma revisão publicada em 2023 no Journal of Ethnopharmacology resume bem a distinção: extratos de folhas, casca, goma e frutos apresentaram baixa toxicidade nos testes in vitro e in vivo revisados, enquanto o potencial tóxico da espécie é atribuído aos compostos psicotrópicos presentes nas sementes. O uso tradicional de saúde do angico está ligado à casca, nunca às sementes.
Propriedades Atribuídas à Casca de Angico
A ação adstringente é a mais documentada e sustenta o uso tradicional da casca no cuidado de feridas, úlceras cutâneas, queimaduras leves e pequenos sangramentos. Ela também é a explicação mais aceita para o emprego popular do chá em episódios leves de diarreia.
O angico é associado a uma atividade anti-inflamatória que já foi observada em modelos animais. Um estudo publicado em 2013 no Journal of Ethnopharmacology avaliou o extrato da planta em respostas inflamatórias e de dor em roedores e descreveu efeitos benéficos em ambos os desfechos, o que dá alguma base experimental ao uso tradicional em dores e inchaços. Trata-se, ainda assim, de pesquisa pré-clínica, sem ensaios clínicos que autorizem indicação terapêutica em pessoas.
A ação expectorante é a propriedade de maior destaque para o sistema respiratório. O chá da casca, rico em saponinas, é tradicionalmente usado para ajudar a fluidificar o catarro acumulado, favorecendo sua eliminação. Por isso, seu uso popular costuma ser citado como apoio em quadros de bronquite, asma, sinusite e tosse persistente, sempre em conjunto com o acompanhamento médico adequado e nunca em substituição ao tratamento prescrito.
Extratos da casca também foram testados frente a bactérias e fungos em laboratório, com resultados que variam bastante conforme o micro-organismo estudado. Esses achados ajudam a explicar o uso tradicional em afecções de pele e desconfortos gastrointestinais leves, mas não substituem diagnóstico nem tratamento indicados por um profissional de saúde.
Usos Tradicionais da Casca de Angico
Boca e Garganta
Bochechos e gargarejos com o chá são tradicionalmente utilizados como apoio no cuidado de gengivite, sangramento gengival e periodontite, sempre como complemento a uma rotina de higiene bucal orientada por um dentista. Aftas, estomatites e o desconforto de inflamações na garganta, como as que ocorrem em faringites e amigdalites, também aparecem entre os usos populares mais citados.
Pele e Feridas
Aplicado em compressas ou lavagens, o chá é tradicionalmente associado à recuperação de cortes leves, arranhões, escoriações e queimaduras superficiais. A ação adstringente atribuída aos taninos ajuda a controlar pequenos sangramentos, o que torna o angico um recurso popular de baixo custo para o cuidado básico de feridas simples. Ferimentos profundos, extensos, com sinais de infecção ou em pessoas diabéticas exigem avaliação médica.
Saúde Feminina
Banhos de assento com o chá mais concentrado são tradicionalmente indicados como apoio em alguns desconfortos ginecológicos, ajudando a aliviar corrimentos e a sensação de inflamação na região pélvica, graças à ação adstringente da casca. Esse uso deve ser sempre orientado por um profissional de saúde, e corrimentos persistentes precisam de diagnóstico, porque suas causas exigem tratamentos diferentes entre si.
Sistema Digestivo
O chá da casca é um recurso tradicional em episódios leves e passageiros de diarreia, novamente por conta da adstringência dos taninos. Diarreias que duram mais de dois dias, que vêm com febre ou sangue, ou que ocorrem em crianças e idosos, são situação de avaliação médica e de atenção à hidratação.
Vias Respiratórias
O chá morno, adoçado com mel, é o uso mais difundido de todos e é empregado popularmente para aliviar a tosse, a sensação de congestão e o incômodo na garganta. O xarope caseiro cumpre o mesmo papel de forma mais concentrada e mais palatável, e é a preparação que atravessou gerações nas feiras e mercados do Nordeste.
O Que a Pesquisa Científica Já Mostrou
Os estudos disponíveis sobre o angico são, em sua quase totalidade, de laboratório ou em animais. Eles ajudam a entender por que a planta ganhou o lugar que tem na medicina popular, mas nenhum deles equivale a um ensaio clínico, e nenhum autoriza tratar o angico como tratamento para as condições citadas.
Cicatrização de Feridas em Ratos
Um estudo publicado em 2012 na Acta Cirúrgica Brasileira avaliou o extrato alcoólico de angico a 5% em feridas cutâneas de ratos, comparando lesões tratadas com o extrato e lesões tratadas com solução salina no mesmo animal. Na análise morfológica, as feridas tratadas com o extrato apresentaram fibroblastos maiores e maior concentração de fibras de colágeno nos dias 7 e 14 após a cirurgia. A análise morfométrica registrou aumento significativo do número de vasos sanguíneos nesses mesmos dias, com valor de p menor que 0,01.
Fibroblastos são as células que produzem colágeno, a proteína que estrutura o tecido novo, e a formação de vasos sanguíneos é o que leva oxigênio e nutrientes à área lesionada. O conjunto desses achados foi interpretado pelos autores como compatível com uma cicatrização mais rápida no modelo animal estudado, o que oferece uma explicação plausível para o uso tradicional das compressas de casca.
Atividade Antioxidante entre Árvores da Caatinga
Um trabalho publicado em 1999 no Journal of Ethnopharmacology comparou a capacidade antioxidante de extratos da casca de quatro árvores medicinais usadas na região da Caatinga. O angico apresentou a maior atividade do grupo em dois ensaios distintos.
No teste de potencial antioxidante total reativo, o extrato metanólico da casca registrou TRAP de 3.028 μM, com desvio de 95 μM, o valor mais alto entre os extratos avaliados. Na inibição da peroxidação lipídica, medida pela produção de TBARS, o extrato aquoso obteve IC50 de 54 μg/mL, também o melhor resultado do conjunto. Os autores sugeriram que essa atividade antioxidante pode contribuir para os efeitos anti-inflamatórios atribuídos à planta na tradição popular. Convém lembrar que o extrato aquoso de laboratório é padronizado e não corresponde, em concentração, ao chá preparado em casa.
Modulação da Atividade de Antibióticos
Um estudo publicado em 2013 na BioMed Research International testou extratos etanólicos de angico combinados a antimicrobianos convencionais contra cepas multirresistentes de Escherichia coli e Staphylococcus aureus. Contra a cepa EC 27 de E. coli, a concentração inibitória mínima da amicacina caiu de 128 μg/mL, quando o antibiótico foi usado sozinho, para 4 μg/mL na presença do extrato, uma redução de 32 vezes.
O mesmo trabalho registrou o resultado oposto em outra combinação: o extrato apresentou interação antagônica com a ampicilina contra S. aureus, ou seja, atrapalhou a ação do antibiótico. Os dois resultados juntos explicam por que a associação entre angico e antibióticos não pode ser feita por conta própria. O efeito depende do antibiótico e da bactéria envolvidos, e foi observado apenas em placa de laboratório, não em pessoas.
Ensaios de Citotoxicidade e Genotoxicidade
Um estudo publicado em 2018 na Archives of Oral Biology avaliou extratos de angico e de cajueiro frente a bactérias cariogênicas e submeteu os dois a testes de toxicidade celular. O extrato de angico não apresentou atividade antimicrobiana contra as cepas de Streptococcus testadas, resultado que os próprios autores registraram como negativo.
Em contrapartida, as atividades hemolítica e oxidante dos extratos foram apenas discretamente observadas, mesmo em concentrações altas, e o teste do micronúcleo não mostrou alterações significativas nas células expostas. É um indicativo de baixa toxicidade celular nas condições testadas, e não uma garantia de segurança para qualquer forma de uso, em qualquer dose e por qualquer pessoa.
Linhas de Pesquisa em Aberto
Revisões da literatura sobre a espécie listam atividade antitumoral entre as propriedades investigadas, com estudos preliminares conduzidos em células. Os resultados são iniciais e não permitem qualquer indicação de uso do angico como tratamento para o câncer, nem como complemento a ele; apenas apontam caminhos para novas pesquisas.
Na área de biomateriais, a goma extraída do tronco do angico vem sendo estudada para a produção de filmes e curativos biodegradáveis, aproveitando as propriedades observadas em laboratório. A caracterização da composição e do comportamento reológico dessa goma já foi publicada, e o interesse por ela cresce junto com a busca por materiais de origem vegetal.
Como Preparar a Casca de Angico
Todas as receitas a seguir usam a mesma unidade de medida para a casca seca e picada, a colher de sopa, para evitar confusão entre preparos. Como referência, uma colher de sopa cheia corresponde, em média, a 7 a 8 gramas de casca seca. Como se trata de uma parte dura da planta, o método correto é sempre a decocção, que é a fervura da casca na água, e não a infusão simples.
Uma advertência importante antes das receitas: os preparos de uso externo são propositalmente mais concentrados que o chá de beber e não devem ser ingeridos. Quando a receita indicar uso externo, o preparo é apenas para banho, compressa, gargarejo ou bochecho.
Banho de Assento
Preparo de uso externo, tradicionalmente empregado como apoio em desconfortos da região íntima.
- Ferva 6 colheres de sopa de casca seca e picada em 1 litro de água por 10 minutos.
- Coe e adicione o líquido a uma bacia com água morna.
- Sente-se na bacia por 15 a 20 minutos.
Chá de Angico
Este é o único preparo desta lista destinado a ser bebido, e é o de menor concentração.
- Separe de 1 a 2 colheres de sopa de casca seca e picada para cada litro de água.
- Coloque a casca e a água fria em uma panela e leve ao fogo até levantar fervura.
- Abaixe o fogo e deixe cozinhar por 10 a 15 minutos, depois desligue.
- Tampe a panela e deixe descansar por mais 10 minutos, para não perder os compostos voláteis.
- Coe, de preferência em coador de pano, e sirva morno.
A dose geralmente indicada para adultos é de até duas xícaras por dia, por períodos curtos. É prudente começar com uma quantidade menor, observar como o organismo reage e buscar orientação de um médico ou fitoterapeuta antes de manter o uso de forma regular.
Compressa para Feridas
Preparo de uso externo, tradicionalmente aplicado sobre cortes leves e contusões.
- Ferva 4 colheres de sopa de casca seca e picada em 500 ml de água por 10 minutos.
- Coe e deixe esfriar até ficar morno.
- Embeba um pano limpo no líquido e escorra o excesso.
- Aplique sobre a área por 15 a 20 minutos, de duas a três vezes ao dia.
Gargarejo e Bochecho
Preparo de uso externo. Ele não deve ser engolido depois do gargarejo.
- Ferva de 2 a 3 colheres de sopa de casca seca e picada em 500 ml de água por 10 minutos.
- Coe e deixe esfriar até ficar morno.
- Faça gargarejos ou bochechos por cerca de 30 segundos, de três a quatro vezes ao dia.
Xarope ou Lambedor
O xarope é a preparação caseira mais famosa do angico e é destinada ao uso interno. O açúcar ou o mel funcionam como conservantes naturais além de adoçar.
- Ferva 6 colheres de sopa de casca seca e picada em 1 litro de água até o líquido reduzir pela metade.
- Coe e acrescente 500 g de açúcar mascavo ou de mel.
- Cozinhe em fogo baixo, mexendo, até obter consistência de xarope.
- Guarde em vidro limpo e tampado, na geladeira.
- Tome 1 colher de sopa, até três vezes ao dia.
Efeitos Colaterais e Contraindicações do Angico
O consumo excessivo ou prolongado do chá pode causar efeitos indesejados, como náuseas, dor de estômago e prisão de ventre. A alta concentração de taninos irrita a mucosa gástrica e intestinal em pessoas mais sensíveis, sobretudo quando o chá é tomado em jejum. O uso interno deve ser feito com moderação e por períodos curtos.
Gestantes e lactantes devem evitar o angico, já que não há estudos suficientes que garantam sua segurança para esses grupos. O mesmo vale para crianças pequenas, para as quais o uso não é recomendado sem orientação médica específica. Xaropes adoçados com mel não devem ser oferecidos a menores de um ano, pelo risco de botulismo infantil. Pessoas com problemas hepáticos, renais ou gástricos crônicos também precisam de cautela redobrada.
Não existem estudos aprofundados sobre interações medicamentosas do angico em pessoas, mas há dois motivos concretos de atenção. O primeiro é a adstringência: os taninos podem interferir na absorção de outros medicamentos tomados no mesmo horário, e por isso se recomenda um intervalo de pelo menos duas horas entre o chá e qualquer fármaco. O segundo vem do estudo de 2013 sobre antimicrobianos, que encontrou tanto potencialização quanto antagonismo, dependendo da combinação testada. Quem faz uso contínuo de medicação, e em especial quem está em tratamento com antibiótico, deve consultar o médico antes de associar o angico.
Algumas indicações que aparecem no registro etnográfico do angico merecem um alerta explícito. Corrimentos de causa infecciosa e infecções sexualmente transmissíveis, como a gonorreia, exigem diagnóstico laboratorial e antibioticoterapia, e nenhum banho de assento substitui esse tratamento. O mesmo vale para a coqueluche, doença que tem vacina disponível na rede pública e tratamento antibiótico definido. Asma e bronquite são condições crônicas que exigem acompanhamento e medicação própria; o angico, nesses casos, não entra no lugar do inalador ou do medicamento prescrito.
A automedicação, mesmo com plantas de uso tradicional consolidado, envolve risco. Antes de iniciar o uso regular de qualquer preparado com angico, o ideal é consultar um médico ou um fitoterapeuta, que poderá avaliar histórico de saúde, possíveis interações e a dose mais adequada para cada caso.
O Angico na Cultura Popular e no Folclore
O angico ultrapassa seu papel de planta de uso tradicional e ocupa um lugar de destaque no imaginário popular brasileiro. Em muitas regiões do sertão, a árvore é vista como sagrada, um símbolo de conexão entre o mundo material e o espiritual. Contam-se histórias de curandeiros e pajés que realizavam seus rituais à sombra de um velho angico, invocando a força dos ancestrais em benefício da comunidade.
As sementes do angico, distintas da casca usada nos preparos, estão envoltas em história e mistério. As evidências arqueológicas mais antigas remontam a cerca de 4000 anos e vêm do noroeste da Argentina, onde foram encontradas sementes da planta ao lado de cachimbos usados para fumá-las. Moídas, essas sementes davam origem a um pó psicoativo conhecido como vilca, paricá ou yopo, inalado em cerimônias xamânicas para induzir estados de transe. É uma prática ritual completamente distinta do consumo da casca em chás, xaropes ou compressas.
Na literatura de cordel e nas canções populares do Nordeste, o angico é citado como símbolo de força, resistência e identidade sertaneja. Ele representa a capacidade de florescer nas condições mais adversas, uma metáfora para a resiliência do povo do sertão, e segue presente nas histórias, nas crenças e na paisagem do Brasil profundo.
Perguntas Frequentes sobre o Angico
Para Que Serve o Chá de Angico?
O chá de angico é tradicionalmente utilizado como apoio no alívio de desconfortos respiratórios, como tosse e sensação de congestão, graças às propriedades expectorantes e anti-inflamatórias atribuídas à casca. Também é empregado como adstringente, auxiliando em casos leves de diarreia e em inflamações na boca e na garganta. De forma tópica, seu uso tradicional está associado ao cuidado de pequenas feridas na pele.
Como Preparar Corretamente o Chá de Angico?
O método correto é a decocção: ferva de 1 a 2 colheres de sopa de casca seca e picada em 1 litro de água por 10 a 15 minutos, desligue o fogo, deixe descansar tampado por mais 10 minutos, coe e beba morno. A dose geralmente indicada é de até duas xícaras por dia, mas a quantidade ideal deve ser sempre orientada por um profissional de saúde.
O Angico É uma Planta Tóxica?
Nas doses tradicionalmente indicadas, a casca do angico não é considerada tóxica. Um estudo de 2018 na Archives of Oral Biology observou apenas atividade hemolítica e oxidante discreta dos extratos, mesmo em concentrações altas, e nenhuma alteração significativa no teste do micronúcleo. Isso indica baixa toxicidade celular nas condições testadas, o que não elimina a possibilidade de irritação gastrointestinal com consumo excessivo ou prolongado. As sementes são um caso à parte, por conterem compostos psicoativos, e não entram em preparos de saúde.
Existem Contraindicações para o Consumo de Chá de Angico?
Sim. O chá é contraindicado para gestantes, lactantes e crianças pequenas sem orientação médica, já que não há estudos que garantam sua segurança para esses grupos. Pessoas com problemas hepáticos, renais ou gástricos crônicos devem ter cautela redobrada. O consumo excessivo pode causar irritação gástrica, náuseas, vômitos e desconforto intestinal.
Qual a Diferença entre Angico-Branco e Angico-Vermelho?
Na tradição popular, o angico-branco costuma se referir à Anadenanthera colubrina em sentido estrito, mais associada ao Cerrado, enquanto o angico-vermelho costuma se referir à árvore chamada de Anadenanthera macrocarpa, mais associada à Caatinga. As duas denominações têm usos tradicionais semelhantes, e as bases taxonômicas atuais tratam Anadenanthera macrocarpa como sinônimo de Anadenanthera colubrina var. cebil, que é o nome aceito.
O Angico Tem Interações com Outros Medicamentos?
Não existem estudos aprofundados sobre interações do angico em pessoas. Por conta da ação adstringente, o chá pode interferir na absorção de outros fármacos, e recomenda-se um intervalo de pelo menos duas horas entre um e outro. Em laboratório, o extrato potencializou a amicacina contra E. coli, mas foi antagônico à ampicilina contra S. aureus, o que reforça a necessidade de orientação médica para quem está em tratamento com antibiótico.
Crianças Podem Tomar Chá de Angico?
O uso do chá de angico não é recomendado para crianças pequenas sem orientação médica, já que não há estudos suficientes que garantam sua segurança para esse grupo. Para crianças maiores, qualquer uso deve ser avaliado e acompanhado por um pediatra ou fitoterapeuta.
O Chá de Angico Emagrece?
Não há evidências científicas que sustentem o uso do chá de angico para emagrecimento. As propriedades atribuídas à casca são principalmente adstringentes, anti-inflamatórias e expectorantes, sem relação com o metabolismo de gorduras. Ele não deve ser usado com essa finalidade.
O Angico Ajuda a Parar de Fumar?
Não existem estudos que sustentem essa aplicação, e ela não faz parte do uso tradicional da planta. Para parar de fumar, existem tratamentos eficazes e seguros disponíveis inclusive na rede pública de saúde, e o caminho é procurar orientação profissional.
O Angico Pode Causar Alergia?
Reações alérgicas ao angico são consideradas raras, mas podem ocorrer em pessoas predispostas, sobretudo as sensíveis a outras plantas da família Fabaceae. Ao primeiro sinal de reação, como coceira, vermelhidão ou inchaço, o uso deve ser suspenso e um profissional de saúde deve ser procurado.
Onde Encontrar a Casca de Angico?
A casca de angico pode ser encontrada em lojas de produtos naturais, ervanárias, farmácias de manipulação, feiras de ervas e mercados municipais. É importante buscar fornecedores de confiança, que garantam a procedência sustentável e a qualidade do material, já que a qualidade da casca influencia diretamente o resultado do preparo.
Referências
Ver Todas as 12 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (8)
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