Medicina Tradicional Chinesa

Dong Quai: Para Que Serve, Como Usar e Quem Deve Evitar

Conheça os benefícios, efeitos colaterais e propriedades medicinais do dong quai (Angelica sinensis), chamado de ginseng-para-mulheres e ginseng-feminino.

Por Conselho Editorial23 Min de Leitura
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Dong quai (ginseng feminino) - Angelica sinensis
Dong quai (Angelica sinensis) em sua forma desidratada, tradicionalmente utilizada na medicina chinesa para diversos tratamentos terapêuticos.

A dong quai é a raiz de Angelica sinensis (Oliv.) Diels, planta da família Apiaceae que ocupa um lugar central na medicina tradicional chinesa há cerca de dois mil anos. Em português ela também aparece com o nome de angélica-chinesa, e na China é conhecida como “Dang Gui”, forma que acompanha a planta na literatura clássica e nos textos de farmacopeia.

Na prática clínica chinesa, a dong quai raramente aparece sozinha. Ela costuma entrar em fórmulas com outras ervas, ajustadas ao quadro de cada pessoa, e recebeu o apelido de erva da mulher pela associação tradicional com queixas do ciclo menstrual, do período pós-parto e da transição para a menopausa. Essa reputação atravessou séculos e chegou ao Ocidente na forma de cápsulas, extratos e tinturas, quase sempre acompanhada de promessas que a pesquisa científica não sustenta.

Este artigo reúne o que se sabe hoje sobre a planta: a botânica e a origem geográfica, o registro histórico do uso tradicional, os compostos identificados na raiz e as formas de uso descritas na literatura de fitoterapia. Também mostra o que os estudos disponíveis dizem, e o que eles não dizem, sobre menopausa e saúde da mulher. O destaque maior fica com o conjunto de contraindicações e interações que faz da dong quai uma das plantas que mais exigem cuidado antes do primeiro uso.

Sumário do Artigo
  1. Alerta de Segurança: Leia Antes de Considerar o Uso
  2. O Que É a Dong Quai
  3. História e Uso Tradicional na Medicina Chinesa
  4. Composição Química da Raiz
  5. Usos Tradicionais na Saúde da Mulher
  6. Dong Quai e a Menopausa
  7. Outras Linhas de Pesquisa
  8. Como Usar: Formas e Dosagens
  9. Efeitos Colaterais, Interações e Contraindicações
  10. Perguntas Frequentes

Alerta de Segurança: Leia Antes de Considerar o Uso

A dong quai não é uma erva de uso livre, e três situações concentram o risco mais sério:

  • Cânceres hormônio-sensíveis: em quadros de câncer de mama, de ovário ou de útero, a orientação corrente é de cautela, e qualquer uso precisa ser discutido antes com a equipe oncológica que acompanha o caso.
  • Gravidez e amamentação: a planta é contraindicada na gestação, porque pode estimular contrações uterinas e aumentar o risco de aborto. Quem está com atraso menstrual precisa descartar gravidez antes de recorrer a qualquer fitoterápico para “regularizar” o ciclo. Durante a amamentação a segurança não foi estabelecida, e a recomendação é evitar.
  • Uso de anticoagulantes e antiplaquetários: a associação com medicamentos como a varfarina e a aspirina exige avaliação médica prévia, pelo risco de somar efeitos sobre a coagulação e favorecer sangramentos, e a mesma cautela vale para quem tem distúrbio hemorrágico, como a hemofilia.

Nenhuma dessas situações é remota entre as pessoas que procuram a planta, e a seção final deste texto detalha o quadro completo de contraindicações, efeitos colaterais e interações medicamentosas.

O Que É a Dong Quai

A dong quai é uma herbácea perene de porte alto, com folhas compostas divididas em folíolos serrilhados e flores brancas pequenas reunidas em umbelas, aquela inflorescência em formato de guarda-chuva que caracteriza a família Apiaceae. A parte usada é a raiz, carnosa e ramificada, com aroma intenso e adocicado que vem dos óleos voláteis armazenados nos seus canais resiníferos. A colheita costuma ocorrer no outono, a partir do segundo ou terceiro ano de cultivo, quando a raiz já acumulou a concentração de compostos que interessa à produção de extratos.

O parentesco botânico ajuda a situar a planta para quem nunca a viu: Angelica sinensis divide a família Apiaceae com o aipo, a cenoura e a salsa, e o aroma da raiz fresca lembra vagamente essas hortaliças, com um fundo mais amargo e balsâmico.

A distribuição natural e o cultivo se concentram em regiões montanhosas frias e úmidas da China, com destaque para as províncias de Gansu, de Sichuan e de Yunnan, onde a altitude elevada, o clima ameno e o solo profundo favorecem o desenvolvimento da raiz. Coreia e Japão cultivam espécies vizinhas do gênero Angelica, que chegam ao mercado com nomes populares parecidos e não devem ser confundidas com a Angelica sinensis. Essa exigência climática explica por que a produção comercial permanece geograficamente concentrada e por que a procedência do material importado pesa tanto na avaliação da qualidade do produto final.

História e Uso Tradicional na Medicina Chinesa

O Shen Nong Ben Cao Jing, compêndio de matéria médica compilado por volta do início da era comum e considerado o texto fundador da farmacologia chinesa, já registra a dong quai, na categoria intermediária da sua classificação em três graus. Desde então a raiz atravessa toda a literatura de farmacopeia chinesa, e é dessa permanência de quase dois milênios que vem o seu prestígio na tradição. O registro histórico não funciona como atestado de segurança para o uso contemporâneo: as contraindicações listadas adiante neste artigo, da gestação ao uso concomitante de anticoagulantes, contradizem qualquer leitura ingênua de um texto escrito muito antes da farmacologia moderna.

A expressão erva da mulher acompanha a planta desde os textos clássicos e reflete o lugar que ela ocupa nas prescrições voltadas ao ciclo menstrual e ao puerpério. Um ponto costuma escapar de quem conhece a dong quai apenas pelo rótulo de um suplemento: na medicina chinesa ela é prescrita quase sempre dentro de fórmulas compostas, associada a outras ervas que modulam e complementam a sua ação, como acontece na clássica Si Wu Tang. O uso isolado, em cápsula única e dose fixa, é uma adaptação ocidental que não corresponde à forma tradicional de emprego da raiz.

A tradição descreve a dong quai como uma erva que “nutre o sangue”. A expressão pertence ao vocabulário próprio da medicina chinesa, com significado interno àquele sistema de pensamento, e não equivale ao diagnóstico ou ao tratamento de anemia como a medicina contemporânea os define. Anemia tem causas variadas, da carência de ferro a doenças crônicas e perdas ocultas, exige investigação laboratorial e conduta profissional, e nenhuma planta substitui esse processo.

Composição Química da Raiz

Revisões de fitoquímica já identificaram cerca de 290 constituintes na raiz de Angelica sinensis, com a ligustilida e o ácido ferúlico reconhecidos como os principais marcadores bioativos usados para caracterizar o material vegetal (PMID 42366516). O trabalho analítico que sustenta essa caracterização se apoia em técnicas cromatográficas como HPLC e UPLC, aplicadas tanto à pesquisa quanto ao controle de qualidade dos extratos comerciais (PMID 27211015).

Ácido Ferúlico

O ácido ferúlico é um composto fenólico distribuído em várias plantas alimentícias e medicinais, estudado em laboratório por sua atividade antioxidante frente a radicais livres. Na dong quai ele cumpre também uma função prática: por ser estável e facilmente quantificável, serve como marcador de padronização, e boa parte dos extratos vendidos no mercado declara o teor desse composto no rótulo.

Ligustilida e Outros Ftalídeos

A ligustilida pertence ao grupo dos ftalídeos e responde por boa parte do aroma característico da raiz. Trata-se de uma molécula volátil e instável, sensível ao calor, à luz e ao oxigênio, o que cria uma dificuldade concreta de padronização: extratos armazenados em condições inadequadas perdem esse componente ao longo do tempo. As investigações sobre a ligustilida seguem restritas a modelos experimentais e a ensaios de laboratório, sem correspondência estabelecida com desfechos clínicos em pessoas.

Polissacarídeos

Uma revisão publicada na Frontiers in Pharmacology em 2024 reuniu as ações farmacológicas descritas para os polissacarídeos de Angelica sinensis, entre elas efeitos hematopoiéticos e imunomoduladores observados em modelos celulares e animais (PMID 39872047). Esses achados são pré-clínicos e ajudam a explicar o interesse científico pela planta, sem que se possa deduzir deles qualquer efeito terapêutico em seres humanos. A distância entre um resultado em cultura de células e uma indicação clínica é grande, e no caso da dong quai ela ainda não foi vencida.

Usos Tradicionais na Saúde da Mulher

A reputação da dong quai como erva da mulher nasce da observação clínica acumulada por gerações de praticantes da medicina chinesa, não de ensaios controlados. Essa distinção organiza tudo o que vem a seguir: os usos descritos abaixo pertencem ao domínio da tradição, a evidência clínica com a planta isolada é limitada, e nenhum deles autoriza tratar a raiz como alternativa à investigação médica de sintomas persistentes.

Ciclo Menstrual e Cólicas

Cólicas menstruais intensas e alterações do ciclo estão entre as queixas mais associadas à dong quai na prática tradicional chinesa, quase sempre em fórmulas que combinam a raiz com outras ervas. Os ensaios clínicos disponíveis com a planta isolada não permitem afirmar eficácia para menstruação dolorosa, e o que existe é um uso consagrado pela tradição, com respaldo experimental ainda insuficiente.

A ausência de menstruação, chamada de amenorreia, merece um alerta em separado. Ela é um sinal, não um diagnóstico, e pode decorrer de alterações hormonais, de distúrbios da tireoide, de estresse intenso, de gravidez, de perda acentuada de peso ou de outras condições que exigem avaliação profissional. Antes de qualquer fitoterápico, a causa precisa ser investigada, e o primeiro passo é descartar gravidez. Usar dong quai para “regularizar” um atraso menstrual que na verdade é uma gestação configura o cenário de maior risco associado a essa planta, já que ela é contraindicada na gravidez pela possibilidade de estimular contrações uterinas.

Período Pós-Parto

A tradição chinesa reserva à dong quai um papel na recuperação do puerpério, período em que ela aparece em fórmulas voltadas ao restabelecimento após o parto. Esse uso histórico não foi confirmado por estudos clínicos, e um cuidado se impõe. A segurança da planta durante a amamentação não está estabelecida, de modo que o uso no pós-parto de uma mulher que amamenta não deve ser iniciado sem orientação de um profissional de saúde que conheça o caso.

Tensão Pré-Menstrual

Irritabilidade, retenção de líquidos e sensibilidade mamária no período pré-menstrual aparecem entre as indicações tradicionais da raiz, sempre dentro de composições ajustadas individualmente. Os dados clínicos com Angelica sinensis isolada não sustentam uma recomendação para tensão pré-menstrual, e quem convive com sintomas que comprometem a rotina se beneficia mais de uma avaliação ginecológica do que da automedicação com suplementos.

Dong Quai e a Menopausa

A menopausa é o tema em que a dong quai mais aparece nas prateleiras ocidentais e, curiosamente, também aquele em que existe o dado mais claro. Hirata e colaboradores conduziram um ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, publicado na Fertility and Sterility em 1997, que testou a dong quai isolada contra placebo em mulheres na pós-menopausa (PMID 9418683). O resultado foi negativo: a planta não superou o placebo no alívio dos fogachos, e não houve diferença estatística entre os grupos, nem mesmo no índice de Kupperman, que reúne um conjunto de sintomas típicos do período.

Esse é o principal ensaio conduzido com a raiz isolada, e a sua conclusão orienta a leitura de todo o resto. A evidência clínica disponível para a dong quai isolada em sintomas da menopausa é escassa e, no único ensaio controlado de referência, negativa para fogachos. O uso tradicional chinês se dá quase sempre em combinação com outras ervas, e o formato mais vendido no Ocidente, a cápsula de extrato único, é justamente aquele que foi testado e não se mostrou superior ao placebo.

Resta a questão do mecanismo hormonal, tratada com frequência de forma apressada em textos de divulgação. A literatura sobre a atividade estrogênica de Angelica sinensis é conflitante: alguns compostos da raiz foram descritos como capazes de agir sobre vias hormonais, os resultados divergem entre pesquisas e o quadro permanece sem esclarecimento definitivo. Essa indefinição não abre espaço para relaxar a precaução. Enquanto a questão não for resolvida, a cautela em cânceres hormônio-sensíveis, entre eles os de mama, de ovário e de útero, permanece integral, e a incerteza científica sobre o mecanismo funciona como motivo adicional de prudência, nunca como argumento de segurança.

Outras Linhas de Pesquisa

Fora da saúde da mulher, a dong quai aparece em investigações que ainda se encontram em fase pré-clínica ou permanecem no terreno do uso tradicional. Os achados descritos abaixo vêm de animais de laboratório, de células em cultura e de modelos computacionais, e nenhum deles autoriza expectativa de resultado terapêutico em pessoas.

Circulação e Sistema Cardiovascular

Compostos da raiz já foram estudados por possíveis efeitos sobre a agregação plaquetária, a angiogênese e a circulação. Um estudo de farmacologia de redes publicado na Frontiers in Pharmacology em 2024 cruzou bancos de dados de alvos moleculares, compostos e vias biológicas para explorar combinações de Angelica sinensis com outras ervas no infarto do miocárdio (PMID 39717556). O desenho é inteiramente computacional, o que significa que não se trata de ensaio clínico nem de estudo em seres humanos, e sim de modelagem que serve para levantar hipóteses de pesquisa. Em ratos submetidos a isquemia cerebral, um trabalho publicado no American Journal of Chinese Medicine em 2017 descreveu indução de angiogênese e efeito anti-apoptótico pela via p38MAPK/HIF-1/VEGF (PMID 29121798), também um resultado animal, sem correspondente clínico.

Não existe comprovação clínica em seres humanos de que a dong quai previna infarto, acidente vascular cerebral ou qualquer outro evento cardiovascular, e a planta não substitui nem autoriza reduzir por conta própria qualquer tratamento cardiológico prescrito. Além disso, há uma ironia perigosa nessa linha de leitura: quem convive com doença cardiovascular costuma usar anticoagulante ou antiplaquetário de forma contínua, e esse é exatamente o grupo para o qual a planta exige a maior cautela, pela possibilidade de somar efeitos sobre a coagulação.

Desempenho Físico e Fadiga

Um estudo publicado na Molecules em 2014 avaliou Angelica sinensis em camundongos submetidos a treinamento e relatou melhora de desempenho e maior proteção contra a fadiga nos animais tratados (PMID 24691065). O resultado é pré-clínico, obtido em roedores sob condições controladas de exercício, e não permite recomendar a planta como recurso ergogênico para pessoas.

Fígado, Imunidade e Pele

Estudos em animais sugerem efeitos hepatoprotetores e imunomoduladores para extratos e polissacarídeos da raiz, achados que motivam novas pesquisas sem constituir indicação de uso. No campo dermatológico, a medicina tradicional chinesa associa a dong quai a fórmulas voltadas a condições de pele, dentro da sua própria lógica diagnóstica. Quem convive com eczema ou psoríase não deve esperar resultado da planta: são doenças crônicas com tratamentos estabelecidos, acompanhamento dermatológico próprio, e não há evidência que justifique substituir ou adiar essa conduta.

Como Usar: Formas e Dosagens

Não existe dose padronizada de dong quai estabelecida por ensaios clínicos de larga escala. As faixas reproduzidas a seguir vêm da literatura de fitoterapia e da prática tradicional, servem como referência geral e precisam ser individualizadas por um profissional habilitado, que leva em conta condições de saúde, idade e peso e, sobretudo, os medicamentos em uso.

  • Extrato padronizado: 200 a 500 mg, de duas a três vezes ao dia.
  • Raiz em pó: 1 a 2 gramas, três vezes ao dia.
  • Tintura: 2 a 4 ml, três vezes ao dia.

Na prática clínica chinesa a raiz raramente é administrada isolada, o que representa uma diferença importante em relação ao consumo ocidental de cápsulas de dose fixa. Quem opta por um produto industrializado ganha em previsibilidade de dose e perde a lógica de ajuste individual que caracteriza a tradição, e essa troca merece ser feita de forma consciente e conversada com quem acompanha o caso.

Dois cuidados acompanham qualquer forma de uso. O primeiro diz respeito à exposição solar: as furanocumarinas presentes na planta podem aumentar a fotossensibilidade da pele, o que torna recomendável o uso de protetor solar e de roupas de proteção durante o período de utilização. O segundo é cirúrgico: fitoterápicos com efeito sobre a coagulação costumam exigir suspensão de pelo menos duas semanas antes de cirurgias e de procedimentos odontológicos. Esse prazo deve ser combinado com a equipe médica responsável, que conhece o porte do procedimento e o restante da medicação em uso.

Efeitos Colaterais, Interações e Contraindicações

Esta é a seção mais importante do artigo, e a densidade de alertas não é acidental: a dong quai reúne um perfil de contraindicações mais extenso do que a maioria das plantas medicinais de uso popular.

Entre os efeitos colaterais, os mais comuns são gastrointestinais e costumam ser leves e transitórios, com relatos de diarreia, gases e inchaço abdominal. A fotossensibilidade causada pelas furanocumarinas também entra nessa lista e se manifesta como maior propensão a queimaduras e reações cutâneas após exposição ao sol.

Contraindicações

  • Amamentação: segurança não estabelecida para o lactente.
  • Cânceres hormônio-sensíveis: os de mama, de ovário e de útero exigem cautela e decisão conjunta com a equipe oncológica.
  • Distúrbios hemorrágicos: condições como a hemofilia contraindicam o uso pelo risco somado de sangramento.
  • Endometriose: quadro hormônio-dependente que pede a mesma prudência.
  • Gravidez: possibilidade de estimular contrações uterinas e de aumentar o risco de aborto.
  • Miomas uterinos: crescimentos benignos do útero sensíveis a estímulo hormonal, motivo suficiente para evitar a planta sem orientação.

Interações Medicamentosas

  • Anticoagulantes: a varfarina é o exemplo clássico, e a associação exige avaliação médica prévia pelo risco de sangramento.
  • Anti-hipertensivos: interação possível, com necessidade de acompanhamento da pressão arterial.
  • Antiplaquetários: a aspirina em uso contínuo atua sobre a mesma via em que se descreve atividade da planta.
  • Terapias hormonais: reposição hormonal e contraceptivos pedem avaliação profissional antes de qualquer associação.

A cautela com sangramento não nasce de um ensaio clínico positivo, e vale explicar por quê. Um estudo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo publicado na Phytomedicine em 2017 avaliou os efeitos anti-hemostáticos de Angelica sinensis, de Curcuma longa e de Panax ginseng, cada uma testada em braço próprio, isolada e associada à aspirina, em voluntários saudáveis (PMID 28732813). Os autores não encontraram inibição plaquetária relevante, alteração dos marcadores de coagulação nem manifestação hemorrágica significativa. O resultado é tranquilizador dentro dos seus limites, e esses limites são estreitos: participantes saudáveis, amostra pequena, uso de curta duração e nenhuma avaliação de anticoagulantes orais como a varfarina. A orientação conservadora permanece por três motivos convergentes, que são a atividade sobre a agregação plaquetária descrita em estudos experimentais, os compostos cumarínicos presentes na raiz e os relatos de alteração da coagulação em pessoas que faziam uso de varfarina. Quando o desfecho em jogo é o sangramento grave, a decisão de associar pertence ao médico que acompanha o caso, nunca ao rótulo do suplemento.

Um ponto que circula com informação contraditória na internet merece esclarecimento. Os efeitos da dong quai sobre a pressão arterial em seres humanos não estão estabelecidos clinicamente. A vasodilatação atribuída a alguns dos seus compostos é um achado de estudos experimentais e de laboratório, não um efeito clínico comprovado, e por isso a planta não deve ser considerada nem recurso para baixar a pressão nem causa esperada de hipertensão. Quem faz tratamento anti-hipertensivo e deseja usar a raiz precisa informar o médico que acompanha o caso.

Perguntas Frequentes

O Que É a Dong Quai?

É a raiz de Angelica sinensis (Oliv.) Diels, planta perene da família Apiaceae cultivada nas regiões montanhosas frias da China, sobretudo nas províncias de Gansu, de Sichuan e de Yunnan. Conhecida em português como angélica-chinesa e chamada de “Dang Gui” na China, ela integra a medicina tradicional chinesa há cerca de dois mil anos, quase sempre dentro de fórmulas que combinam várias ervas.

Como a Dong Quai Atua na Saúde da Mulher?

A tradição chinesa a emprega em queixas do ciclo menstrual, do período pós-parto e da transição para a menopausa, o que lhe rendeu o apelido de erva da mulher. Esse uso pertence ao domínio tradicional e não equivale a eficácia comprovada: a evidência clínica com a planta isolada é limitada, e o principal ensaio controlado com a raiz sozinha, voltado a fogachos da menopausa, não encontrou diferença em relação ao placebo.

A Dong Quai É Segura para Todas as Mulheres?

Não. A planta é contraindicada na gravidez, porque pode estimular contrações uterinas e aumentar o risco de aborto, e na amamentação, por falta de dados de segurança. Também é contraindicada em distúrbios hemorrágicos como a hemofilia, e exige cautela em cânceres hormônio-sensíveis de mama, de ovário e de útero, além de endometriose e miomas uterinos. Um cuidado específico se aplica ao atraso menstrual: antes de usar a dong quai com a intenção de regularizar o ciclo, é preciso descartar gravidez, já que a planta não deve ser usada por gestantes em nenhuma circunstância.

Quais São os Principais Compostos Ativos da Dong Quai?

Revisões de fitoquímica descrevem cerca de 290 constituintes na raiz, com o ácido ferúlico e a ligustilida como marcadores bioativos principais, ao lado de um conjunto de polissacarídeos estudados em modelos pré-clínicos. O ácido ferúlico é o mais usado na padronização de extratos, por ser estável e fácil de quantificar, enquanto a ligustilida responde pelo aroma característico e se degrada com facilidade em condições inadequadas de armazenamento.

Como Devo Tomar a Dong Quai?

Não há dose padronizada estabelecida por ensaios clínicos de larga escala. As faixas usadas na literatura de fitoterapia vão de 200 a 500 mg de extrato padronizado, de duas a três vezes ao dia, de 1 a 2 gramas de raiz em pó, três vezes ao dia, e de 2 a 4 ml de tintura, três vezes ao dia. A escolha da forma e a definição da dose devem ser individualizadas por um profissional habilitado, que avalia condições de saúde e medicamentos em uso.

A Dong Quai Pode Interagir com Medicamentos?

Sim, e essa é a principal preocupação prática com a planta. A atenção maior recai sobre anticoagulantes como a varfarina e antiplaquetários como a aspirina: os dados clínicos diretos são escassos, mas os compostos cumarínicos da raiz e os relatos de alteração da coagulação com varfarina justificam não fazer a associação por conta própria. Também há potencial de interação com anti-hipertensivos e com terapias hormonais. Há também o cuidado cirúrgico: a suspensão costuma ser pedida com duas semanas ou mais de antecedência em relação a qualquer procedimento cirúrgico ou odontológico, e quem define o prazo exato é a equipe que vai realizar o procedimento.

Quanto Tempo Leva para a Dong Quai Fazer Efeito?

Não existe prazo definido por pesquisa clínica, e qualquer número apresentado como regra deve ser recebido com desconfiança. Na tradição chinesa a raiz é usada em ciclos, dentro de fórmulas ajustadas ao longo do acompanhamento, e o próprio ensaio mais conhecido com a planta isolada não encontrou benefício sobre o placebo para fogachos. Sintomas que persistem merecem investigação profissional em vez de prolongamento do uso por conta própria.

Onde Comprar Dong Quai com Qualidade?

A escolha do fornecedor importa mais nessa planta do que na média, porque o gênero Angelica reúne espécies diferentes que chegam ao mercado com nomes populares parecidos. Um produto confiável declara o teor do marcador padronizado, informa lote e validade, traz o nome científico Angelica sinensis no rótulo e vem de uma marca capaz de apresentar laudo de análise e rastreabilidade da matéria-prima. Lojas especializadas em plantas medicinais, com procedência documentada e atendimento técnico, oferecem uma margem de segurança que produtos anônimos de marketplace não conseguem cobrir.

Referências

8 Referências Citadas

Nível de Evidência: 🥇 Alto

Baseado em 8 Referências Citadas (8 Peer-Reviewed).

Ver Todas as 8 Referências Citadas
  1. PMC2024 Revisão das ações farmacológicas dos polissacarídeos de Angelica sinensis, com achados hematopoiéticos e imunomoduladores em modelos celulares e animais. Frontiers in Pharmacology, 2024. PMID 39872047
  2. PMC2014 Angelica sinensis melhora o desempenho e a proteção contra a fadiga em camundongos treinados (estudo pré-clínico em animais). Molecules, 2014. PMID 24691065
  3. PMC2024 Farmacologia de redes e otimização de combinações sinérgicas de Angelica sinensis para o infarto do miocárdio (modelagem computacional, sem ensaio clínico ou estudo em humanos). Frontiers in Pharmacology, 2024. PMID 39717556
  4. PMC2017 Angelica sinensis induz angiogênese e efeito anti-apoptótico pela via p38MAPK/HIF-1/VEGF em isquemia cerebral (estudo em ratos). American Journal of Chinese Medicine, 2017. PMID 29121798
  5. PMC2017 Ensaio clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo sobre os efeitos anti-hemostáticos de Angelica sinensis, Curcuma longa e Panax ginseng, cada uma avaliada isoladamente e em associação com a aspirina em voluntários saudáveis, sem manifestação hemorrágica significativa. Phytomedicine, 2017. PMID 28732813
  6. PMC1997 Hirata JD e colaboradores. Ensaio clínico randomizado duplo-cego controlado por placebo com dong quai isolada para sintomas da menopausa, sem diferença estatística em relação ao placebo. Fertility and Sterility, 1997. PMID 9418683
  7. PMC2026 Revisão abrangente de botânica, usos tradicionais, fitoquímica, farmacologia, segurança e aplicações de Angelica sinensis, com cerca de 290 constituintes identificados e a ligustilida e o ácido ferúlico como marcadores bioativos principais. American Journal of Chinese Medicine, 2026. PMID 42366516
  8. PMC2016 Revisão do perfil botânico, da etnofarmacologia, da fitoquímica e da análise química de Angelica sinensis na China. Journal of Ethnopharmacology, 2016. PMID 27211015

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