O boneset (Eupatorium perfoliatum) é uma planta medicinal também conhecida como erva-de-cobra, planta-sudorípara, sálvia-indiana e boneset em inglês, com sinônimos botânicos como Eupatorium tucrifolium e Eupatorium chapmanii. O nome do gênero homenageia Mitrídates VI (Eupátor Dionísio), rei do Ponto, na Anatólia, entre 120 e 63 a.C., que possuía um imenso jardim de ervas. Já o gênero em si é citado em estudos médicos desde meados do século XVIII.
Sumário do Artigo
- O Que É o Boneset
- Composição Química do Boneset
- Benefícios e Usos Tradicionais do Boneset
- Alcaloides Pirrolizidínicos e Segurança do Fígado
- O Que a Pesquisa de Laboratório Mostra
- Situação Regulatória do Boneset
- Origem e História do Boneset
- Características Botânicas do Boneset
- Perguntas Frequentes sobre Boneset (Eupatório)
O Que É o Boneset
O boneset é uma erva perene da família Asteraceae, nativa da América do Norte, onde cresce espontaneamente em pântanos, brejos e prados úmidos. O nome científico perfoliatum descreve uma característica marcante da planta: as folhas, opostas e unidas na base, dão a impressão de que o caule as atravessa, como se as perfurasse. Essa arquitetura foliar é um dos principais sinais para reconhecer a espécie no campo.
Composição Química do Boneset
Os principais compostos identificados na planta incluem ácido gálico, derivados de ácido cafeico, flavonoides (canferol e quercetina), glicosídeos, lactonas sesquiterpênicas (eupafolina e euperfolina), óleo essencial, polissacarídeos, resina e taninos, além de minerais e vitaminas como cálcio, magnésio, potássio e vitamina C.
O ácido clorogênico é o composto mais abundante do material seco, em torno de 2,5%, e a American Herbal Pharmacopoeia adota teor mínimo de 1,5% como critério de qualidade. A eupafolina, ligada à atividade anti-inflamatória vista em laboratório, fica entre 0,1% e 0,2%.
Benefícios e Usos Tradicionais do Boneset
Na publicação médica The People’s Common Sense Medical Advisor in Plain English, do Dr. Pierce, de 1895, o Eupatorium perfoliatum é descrito como estimulante de apetite, tônico e sudorífero. Segundo relatos históricos, a planta foi usada durante a epidemia de febre amarela de 1793, na Filadélfia (EUA).
A planta age como diaforético quando consumida em infusão morna e como laxante suave quando fria. Tem uso tradicional para febre, tosse seca de resfriados e sintomas de gripe, e é associada popularmente ao alívio de desconforto muscular e articular, sobretudo quando as dores pioram com tempo frio e úmido. Indicações para quadros graves, como pneumonia e hidropisia fetal, refletem apenas registro histórico de uso popular, sem respaldo científico atual. O mesmo vale para dengue, chikungunya e outras viroses: o uso tradicional para sintomas leves de resfriado não substitui avaliação médica diante de febre alta persistente ou sinais de alarme.
Chá de Boneset
A forma mais usada é a infusão, e o preparo não envolve ferver a erva. Despeje uma xícara de água fervente sobre uma a duas colheres de chá de folhas secas e deixe em infusão por 10 a 20 minutos, tampado. Pelo gosto amargo, muitos preferem adoçar com mel ou misturar a outros chás. A recomendação tradicional é de até três xícaras por dia, entre as refeições, e infusões muito fortes ou muito quentes tendem a provocar náusea. Consulte um profissional de saúde antes de um uso mais prolongado.
Contraindicações e Efeitos Colaterais do Boneset
Por se tratar de planta silvestre, alguns cuidados são necessários. Pessoas hipersensíveis ou alérgicas aos compostos do Eupatorium (ou a outras plantas da família Asteraceae, como ambrósia, crisântemo e margarida) devem evitar o consumo, pelo risco de dermatite e reações alérgicas.
A recomendação de usar a planta seca costuma vir acompanhada da menção ao tremerol como justificativa. A monografia da American Herbal Pharmacopoeia corrige essa atribuição: o tremetol é toxina da Ageratina altissima, antes classificada como Eupatorium rugosum, espécie historicamente confundida com o boneset por ocupar as mesmas áreas. O caule atravessando o par de folhas opostas distingue as duas espécies, traço presente no boneset e ausente na outra. A orientação de preferir material seco e bem identificado continua válida, agora pelo motivo correto: evitar troca de espécie.
Doses altas trazem efeito próprio: decocções com 5,5 a 7 gramas da erva são eméticas e catárticas. A faixa tradicionalmente considerada segura fica entre 2 e 3 gramas diários.
Alcaloides Pirrolizidínicos e Segurança do Fígado
Supunha-se que o Eupatorium perfoliatum fosse exceção num gênero conhecido por produzir alcaloides pirrolizidínicos, substâncias associadas a lesão hepática. Análises publicadas em 2018 encerraram a dúvida: pesquisadores do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos examinaram 49 amostras da planta e encontraram esses alcaloides em todas, em teores de 0,0002% a 0,07% do peso seco, com predomínio de licopsamina e intermedina. O dado que mais importa a quem toma chá: tanto tinturas quanto preparações com água quente os extraem bem, e a infusão caseira não é uma via isenta.
A Agência Europeia de Medicamentos fixou teto de 1,0 micrograma desses alcaloides por dia em fitoterápicos tradicionais, e a American Herbal Pharmacopoeia contraindica o boneset na gravidez, na amamentação, em crianças e em quem tem função hepática comprometida, limitando o uso a episódios agudos e breves.
O Que a Pesquisa de Laboratório Mostra
A investigação farmacológica se concentra em duas frentes, ambas restritas ao laboratório. Na anti-inflamatória, extratos da planta e a eupafolina isolada reduziram a liberação de óxido nítrico em macrófagos, em cultura de células.
A frente antiviral é a mais desenvolvida. Um extrato hidroalcoólico das partes aéreas inibiu o vírus influenza A em cultura de células renais caninas, com concentração inibitória média de 7 microgramas por mililitro diante da cepa pandêmica H1N1 de 2009, bloqueando a adesão do vírus à célula hospedeira mesmo em isolados resistentes ao oseltamivir. Outro estudo, também em cultura de células, reduziu a autofagia induzida pelo vírus da dengue tipo 2, apontando a quercetina como componente mais ativo.
Nada disso equivale a eficácia demonstrada em pessoas. A American Herbal Pharmacopoeia registra que não há, até hoje, ensaio clínico com preparações não homeopáticas de boneset. Diante de suspeita de dengue ou de gripe com sinais de gravidade, procure atendimento médico.
Situação Regulatória do Boneset
O boneset não consta das farmacopeias convencionais em vigor nos Estados Unidos e na União Europeia. No Canadá, exige-se autorização prévia e teste que comprove a ausência de alcaloides pirrolizidínicos, com alegação restrita ao uso tradicional para dores musculares, tosse e congestão respiratória de resfriado e gripe. Uma distinção importa ao leitor brasileiro: o Eupatorium perfoliatum de farmácia homeopática é preparação ultradiluída, farmacologicamente distinta da planta seca usada em chá.
Origem e História do Boneset
O boneset integra há séculos o arsenal de plantas medicinais da América do Norte. Antes da chegada dos colonizadores europeus, povos indígenas como os iroqueses, os mohegan e os cherokee já utilizavam a erva para tratar febres e mal-estar, preparando infusões fortes com folhas e flores secas para induzir a sudorese. Com a colonização, o conhecimento sobre a planta foi absorvido pela medicina popular e por correntes como a medicina eclética do século XIX. A espécie foi oficial na Farmacopeia dos Estados Unidos de 1820 a 1900 e no National Formulary de 1916 a 1946. Durante a pandemia de gripe espanhola, em 1918, o boneset voltou a ser amplamente utilizado pela população para aliviar os sintomas da doença.
O nome popular em inglês (boneset) foi dado por americanos que o usavam para tratar a “febre quebra-ossos” (breakbone fever), causadora de fortes dores ósseas. A tribo indígena Chippewa usava o eupatório para atrair cervos, esfregando a erva em apitos de caça.
Características Botânicas do Boneset
A maioria das subespécies de eupatório é cultivada em regiões de clima quente ou tropical, podendo atingir até 1,50 metro de altura, com caule forte e arredondado, geralmente dividido no topo em espigas de flores brancas levemente espinhosas. Já as folhas, ligadas à base em pares, são compridas, serrilhadas e levemente pontiagudas.
Perguntas Frequentes sobre Boneset (Eupatório)
O Boneset Trata Pneumonia?
Não. Essa indicação reflete apenas registro histórico de uso popular; pneumonia exige diagnóstico e tratamento médico.
Posso Usar Boneset Fresco?
Use sempre a planta seca e bem identificada, o que reduz o risco de troca por espécies parecidas, como a Ageratina altissima, esta sim portadora do tremetol.
Quantas Xícaras de Chá de Boneset Posso Tomar por Dia?
A recomendação tradicional é de até três xícaras diárias, entre as refeições, mas consulte um profissional para uso prolongado.
Quem Tem Alergia a Asteráceas Pode Usar Boneset?
Não é recomendado; pessoas hipersensíveis aos compostos do Eupatorium devem evitar o consumo.
De Onde Vem o Nome Boneset?
Vem do uso histórico americano da planta para tratar a “febre quebra-ossos”, que causava fortes dores ósseas.
O Boneset Serve para Gripe?
Há uso tradicional nesse sentido, associado a suas propriedades antitérmicas, mas quadros persistentes ou graves devem ser avaliados por um médico.
Qual a Diferença entre Consumir o Chá Morno ou Frio?
O chá morno tem efeito diaforético tradicionalmente associado, enquanto o chá frio tem efeito laxante suave.
O Boneset Pode Ser Combinado com Outros Chás?
Sim, por conta do gosto amargo, é comum misturá-lo a outros chás, como o de limão, para melhorar o sabor.
O Boneset Contém Toxinas Que Afetam o Fígado?
Análises de 2018 detectaram alcaloides pirrolizidínicos nas 49 amostras examinadas, e tanto tinturas quanto infusões quentes os extraem; o consumo deve ser breve e é contraindicado a quem tem doença no fígado.
Gestantes e Lactantes Podem Usar Boneset?
Não é recomendado sem orientação profissional; as evidências de segurança para gestantes e lactantes são insuficientes.
O Eupatório Homeopático É a Mesma Coisa Que o Chá de Boneset?
Não. A preparação homeopática é ultradiluída e não equivale, em composição nem em constituintes ativos, à planta seca usada em infusão.
Por Quanto Tempo Posso Usar Boneset?
Apenas por períodos curtos e em situações agudas. Pela presença de alcaloides pirrolizidínicos, monografias de referência desaconselham o uso prolongado.
O Boneset Interage com Medicamentos?
Não há interações descritas na literatura de referência, mas ausência de relatos não é segurança comprovada; informe seu médico sobre qualquer planta em uso.
Referências Científicas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)
- DOI2018 Colegate SM, et al. Potentially toxic pyrrolizidine alkaloids in Eupatorium perfoliatum and three related species. Phytochemical Analysis. 2018;29(6):613-626.
- DOI2016 Derksen A, et al. Antiviral activity of hydroalcoholic extract from Eupatorium perfoliatum L. against the attachment of influenza A virus. Journal of Ethnopharmacology. 2016;188:144-152.
- DOI2011 Hensel A, et al. Eupatorium perfoliatum L.: phytochemistry, traditional use and current applications. Journal of Ethnopharmacology. 2011;138(3):641-651.
- DOI2011 Maas M, Deters AM, Hensel A. Anti-inflammatory activity of Eupatorium perfoliatum L. extracts, eupafolin, and dimeric guaianolide via iNOS inhibitory activity. Journal of Ethnopharmacology. 2011;137(1):371-381.
- DOI2022 Sinha M, et al. In-vitro antiviral action of Eupatorium perfoliatum against dengue virus infection. Journal of Ethnopharmacology. 2022;282:114627.
Leituras Complementares (2)
- 1974 Hall TB. Eupatorium perfoliatum: a plant with a history. Missouri Medicine. 1974;71(9):527-528.
- 2019 Upton R, Petrone C, eds. Boneset Aerial Parts, Eupatorium perfoliatum L. American Herbal Pharmacopoeia. 2019.






