Plantas Medicinais

Erva-Mate (Ilex paraguariensis): Benefícios, Riscos e Como Preparar

Conheça os benefícios e propriedades medicinais da erva-mate (Ilex paraguariensis), também conhecida chá-mate e yerba mate, de onde também é feito o chimarrão.

Por Conselho Editorial11 Min de Leitura
7 Referências
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Chá-mate (erva-mate) - Ilex paraguariensis
Erva-mate (Ilex paraguariensis) in natura e processada: folhas secas utilizadas no preparo de chás, chimarrão e tererê, ricas em compostos bioativos.

A erva-mate, cientificamente Ilex paraguariensis, é uma árvore nativa da América do Sul cujas folhas dão origem ao chimarrão, ao tereré e ao chá-mate, bebidas que atravessam gerações no Brasil, na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. Também conhecida como azevinho-do-paraguai, chá-dos-jesuítas, erva ou simplesmente mate, a planta carrega tanto peso cultural quanto interesse científico, sobretudo pelos compostos que estimulam o sistema nervoso e pelo potencial antioxidante já estudado em laboratório.

Este texto separa o que a pesquisa sustenta do que pertence apenas à tradição, com atenção especial a um risco pouco divulgado: o vínculo entre bebidas muito quentes, entre elas o chimarrão, e o câncer de esôfago.

Sumário do Artigo
  1. O Que É a Erva-Mate (Ilex paraguariensis)
  2. Do Guaraní ao “Chá dos Jesuítas”
  3. Composição Química
  4. Benefícios da Erva-Mate para a Saúde
  5. Como Preparar o Chimarrão e o Tereré
  6. Contraindicações e Efeitos Colaterais
  7. Perguntas Frequentes sobre a Erva-Mate

O Que É a Erva-Mate (Ilex paraguariensis)

A erva-mate pertence à família Aquifoliaceae, a mesma do azevinho europeu, e cresce como árvore de porte médio, podendo ultrapassar dez metros de altura em ambiente silvestre. É nativa de uma região que abrange o sul do Brasil, o nordeste da Argentina, o Paraguai e o Uruguai, onde prospera em solos bem drenados, sob sombra parcial e alta umidade. As folhas, coriáceas e de bordas serrilhadas, são colhidas principalmente no outono e no inverno e passam por secagem e trituração antes de virar o produto vendido nos mercados.

Do processamento nascem variações regionais: a erva argentina, mais fina e maturada por meses antes do consumo; a erva crioula, de moagem mais grossa e sabor suave, comum no preparo do tereré; e a erva barbaquá, que aproveita também o caule e ganha notas defumadas da secagem tradicional ao fogo.

Do Guaraní ao “Chá dos Jesuítas”

Muito antes da chegada dos espanhóis, povos guaranis da região que hoje corresponde ao Paraguai e ao sul do Brasil já colhiam e consumiam a erva-mate, que integrava rituais sociais e era usada como moeda de troca entre comunidades. Os jesuítas espanhóis, ao chegarem à região no século XVII, aprenderam o cultivo e o consumo com os guaranis e organizaram plantações extensas em suas missões, o que rendeu à erva o apelido de “chá dos jesuítas” e ajudou a espalhar o hábito para além do território original, primeiro pela América colonial e depois pela Europa. Com a expulsão dos jesuítas das colônias espanholas no século XVIII, o cultivo organizado entrou em declínio temporário, mas o hábito de consumo já estava consolidado o bastante nas populações locais para sobreviver e se tornar, séculos depois, símbolo de identidade cultural em toda a bacia do Prata.

Composição Química

O efeito estimulante da erva-mate vem principalmente da cafeína, acompanhada por quantidades menores de teobromina e teofilina, as mesmas xantinas encontradas no cacau e no chá-preto. Durante décadas circulou a ideia de que a planta conteria um alcaloide próprio chamado mateína, mas um estudo da Universidad Nacional del Centro (Argentina) demonstrou que a substância responsável pelo estímulo é a cafeína comum, e que a sensação de energia mais suave, relatada por quem consome mate, provavelmente decorre da ação combinada da teobromina e da teofilina, não de um composto exclusivo da planta.

Ao lado das xantinas, a erva-mate reúne uma quantidade expressiva de ácidos fenólicos, com destaque para o ácido clorogênico e o ácido neoclorogênico, moléculas associadas à atividade antioxidante em ensaios de laboratório. Saponinas, flavonoides como a rutina e a quercetina, além de vitaminas do complexo B e minerais como potássio e manganês completam o perfil nutricional da planta.

Benefícios da Erva-Mate para a Saúde

Ação Antioxidante

Os polifenóis da erva-mate, sobretudo os ácidos cafeoilquínicos, neutralizam radicais livres em ensaios de bancada e inibem a formação de produtos de glicação avançada, moléculas associadas ao envelhecimento celular e a complicações do diabetes. Essa atividade é bem documentada in vitro, mas a tradução direta para benefício clínico em humanos ainda depende de mais ensaios controlados.

Energia e Foco Mental

A cafeína da erva-mate bloqueia receptores de adenosina no cérebro, o que aumenta o estado de alerta e a concentração, o mesmo mecanismo por trás do efeito estimulante do café. A diferença relatada por consumidores frequentes, uma energia mais estável e com menos agitação, é atribuída à ação combinada da teobromina e da teofilina, que têm efeito vasodilatador e relaxante sobre a musculatura lisa, suavizando o pico de estímulo da cafeína isolada.

Saúde Cardiovascular

Estudos em animais e em pequenos grupos de voluntários associam o consumo de erva-mate à redução do colesterol total, do LDL e dos triglicerídeos, com um efeito adicional já registrado em pacientes que já utilizavam estatina. O mecanismo proposto envolve a inibição da oxidação do LDL pelos antioxidantes da planta e a interferência das saponinas na absorção intestinal de colesterol. São achados consistentes, mas vêm de estudos pequenos, e nenhum substitui o tratamento indicado por cardiologista para quem já tem diagnóstico de dislipidemia ou doença cardiovascular.

Controle de Peso

A erva-mate aparece em pesquisas sobre obesidade por dois mecanismos principais: o leve efeito termogênico da cafeína, que aumenta o gasto calórico, e o retardo do esvaziamento gástrico, que prolonga a sensação de saciedade. Um estudo em camundongos observou aumento da oxidação de gordura e redução de peso corporal com o extrato da planta, mas resultado de modelo animal não garante o mesmo efeito, na mesma magnitude, em pessoas. Erva-mate não substitui dieta equilibrada nem atividade física no controle de peso.

Desempenho Físico

Um ensaio clínico duplo-cego com ciclistas bem treinados encontrou melhora de 2,2% no tempo de uma prova contrarrelógio após cinco dias de suplementação com erva-mate, junto de maior utilização de gordura como combustível durante o exercício submáximo. O efeito é coerente com a ação já conhecida da cafeína sobre o desempenho de endurance, e a erva-mate funciona, nesse contexto, como mais uma fonte natural do estimulante.

Como Preparar o Chimarrão e o Tereré

Chimarrão (chá-mate)

O chimarrão, preparado com água quente entre 70°C e 80°C, é a forma mais tradicional de consumo da erva-mate no sul do Brasil.

O chimarrão é preparado numa cuia preenchida a dois terços com erva-mate, inclinada para acumular a erva de um lado antes de receber água morna, que hidrata as folhas e evita que a bomba entupa. Depois, a bomba é inserida no fundo da cuia e a água, aquecida entre 70°C e 80°C, sem ferver, completa o preparo. Água fervente queima a erva e deixa a bebida mais amarga.

O tereré segue o mesmo princípio, trocando a água quente por água gelada, com frequência aromatizada com suco de frutas cítricas ou ervas como hortelã e capim-limão. Também é possível preparar a erva-mate como chá comum, por infusão simples, servido quente ou frio.

Contraindicações e Efeitos Colaterais

O ponto de atenção mais relevante da erva-mate não é a planta em si, mas a temperatura em que costuma ser servida. Em 2016, a Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC), braço da Organização Mundial da Saúde, classificou o consumo de bebidas muito quentes, acima de 65°C, incluindo o mate tradicional, como provavelmente carcinogênico para o esôfago humano (grupo 2A), com base em estudos epidemiológicos de populações que consomem a bebida nessa temperatura. A própria avaliação da IARC registrou que o mate consumido frio ou morno não entrou nessa classificação de risco, o que indica que o problema é o calor, não a erva-mate em si. Deixar a bebida amornar antes de tomar reduz esse risco de forma direta e simples.

Quanto à cafeína, o consumo excessivo pode causar insônia, nervosismo, palpitações e ansiedade, sobretudo em pessoas sensíveis ao estimulante ou que já convivem com hipertensão ou arritmia cardíaca. Gestantes e lactantes devem conversar com o obstetra antes de manter o consumo regular, já que a cafeína atravessa a placenta e passa para o leite materno. Crianças devem evitar a bebida pela maior sensibilidade aos efeitos estimulantes. O alto teor de taninos também recomenda não tomar erva-mate junto das refeições, para não prejudicar a absorção de ferro dos alimentos.

Perguntas Frequentes sobre a Erva-Mate

A Erva-Mate Vicia?

A cafeína presente na erva-mate pode gerar dependência física leve, com sintomas de abstinência como dor de cabeça e irritabilidade em caso de interrupção abrupta após uso frequente. O quadro costuma ser mais brando do que o observado com o café e raramente representa problema em quem consome com moderação.

Chimarrão Causa Câncer?

A erva-mate em si não é considerada cancerígena. O risco documentado pela IARC está associado à temperatura muito alta da bebida, acima de 65°C, e não foi confirmado para o mate consumido frio ou morno. Deixar o chimarrão esfriar um pouco antes de tomar é a medida de segurança mais simples e eficaz.

Crianças Podem Tomar Erva-Mate?

Não é recomendado. A cafeína presente na bebida pode causar agitação, insônia e irritabilidade em crianças, que são mais sensíveis aos efeitos estimulantes do que os adultos.

Existe Diferença entre Chimarrão e Tereré?

Sim, a diferença central está na temperatura da água. O chimarrão é preparado com água quente, entre 70°C e 80°C, e é mais consumido em climas frios. Já o tereré leva água gelada, com frutas ou ervas aromáticas, e é tradicional em regiões quentes como o Paraguai e o Centro-Oeste brasileiro.

Erva-Mate Emagrece Mesmo?

Sozinha, não. A erva-mate pode contribuir com um leve aumento do gasto calórico e com maior sensação de saciedade, efeitos documentados sobretudo em estudos com animais, mas o resultado depende de dieta equilibrada e atividade física regular.

Gestantes Podem Tomar Erva-Mate?

Devem conversar com o obstetra antes de manter o consumo regular. A cafeína atravessa a placenta e pode afetar o desenvolvimento fetal em quantidades elevadas, por isso a moderação e o acompanhamento profissional são recomendados durante a gestação.

Posso Tomar Erva-Mate Todos os Dias?

O consumo diário e moderado, em torno de duas a três porções, é considerado seguro para a maioria dos adultos saudáveis. Vale observar a reação do próprio corpo à cafeína e reduzir a quantidade em caso de insônia, nervosismo ou palpitação.

Qual a Diferença entre Erva-Mate e Café?

Ambas contêm cafeína, mas a erva-mate reúne também teobromina e teofilina, combinação que costuma produzir uma energia mais estável e com menos agitação do que o pico de estímulo do café. A erva-mate ainda oferece maior variedade de compostos antioxidantes por porção.

Referências

7 Referências Citadas

Baseado em 7 Referências Citadas (7 Complementares).

  1. 2018 Areta JL, Austarheim I, Wangensteen H, Capelli C. Metabolic and Performance Effects of Yerba Mate on Well-trained Cyclists. Medicine & Science in Sports & Exercise, 2018;50(4).
  2. 2011 Bracesco N, Sanchez AG, Contreras V, Menini T, Gugliucci A. Recent advances on Ilex paraguariensis research: minireview. Journal of Ethnopharmacology, 2011;136(3):378-384. DOI: 10.1016/j.jep.2010.06.032
  3. 2000 Filip R, Lotito SB, Ferraro G, Fraga CG. Antioxidant activity of Ilex paraguariensis and related species. Nutrition Research, 2000;20(10):1437-1446. DOI: 10.1016/S0271-5317(00)00244-6
  4. 2009 Gugliucci A, Bastos DHM, Schulze J, Souza MFF. Caffeic and chlorogenic acids in Ilex paraguariensis extracts are the main inhibitors of AGE generation by methylglyoxal in model proteins. Fitoterapia, 2009;80(6):339-344. DOI: 10.1016/j.fitote.2009.04.007
  5. 2007 Heck CI, De Mejia EG. Yerba Mate Tea (Ilex paraguariensis): a comprehensive review on chemistry, health implications, and technological considerations. Journal of Food Science, 2007;72(9):R138-R151. DOI: 10.1111/j.1750-3841.2007.00535.x
  6. 2016 International Agency for Research on Cancer (IARC). IARC Monographs Evaluate Drinking Coffee, Maté, and Very Hot Beverages. IARC Press Release nº 244, Lyon, 2016.
  7. Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires (UNICEN), Facultad de Ingeniería. Estudo sobre a ausência de mateína e presença de cafeína na erva-mate, Argentina.

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