A hortelã-do-mato, cientificamente Marrubium vulgare, é uma planta da família Lamiaceae (a mesma da menta, embora seja espécie bem diferente), reconhecida desde a Antiguidade por seu uso expectorante. Galeno e Dioscórides já a prescreviam na Roma antiga, e monges medievais a cultivavam para xaropes e tônicos, tradição que atravessou séculos e continua na farmacopeia europeia atual.
Este texto detalha o que sustenta esse uso respiratório consolidado e um ponto de segurança que costuma passar despercebido: o risco de efeito cardíaco em doses excessivas.
Sumário do Artigo
- O Que É a Hortelã-do-Mato
- Da Roma Antiga ao Folclore Europeu
- Composição Química
- Ação Respiratória: o Uso com Melhor Respaldo
- Saúde Digestiva
- Ação Antimicrobiana: Evidência Preliminar
- Controle Metabólico: Evidência Ainda Preliminar
- Segurança Cardíaca: o Ponto Que Costuma Faltar
- Uso Tradicional Adicional
- Formas de Uso
- Cultivo e Colheita
- Contraindicações
- Perguntas Frequentes sobre a Hortelã-do-Mato
O Que É a Hortelã-do-Mato
Planta herbácea perene de até um metro, com caules quadrangulares e folhas ovais cobertas por pelos finos que lhe dão aspecto aveludado esbranquiçado, a Marrubium vulgare tolera bem solos pobres e alcalinos, sendo comum em terrenos baldios. Não deve ser confundida com a menta (gênero Mentha): compartilham família botânica, mas têm composição química e usos bem distintos.
Da Roma Antiga ao Folclore Europeu
O uso da hortelã-do-mato aparece em registros médicos muito antes de Galeno e Dioscórides: o Papiro Ebers, documento egípcio de cerca de 1550 a.C. e um dos mais antigos textos médicos conhecidos, já menciona a planta, e o próprio nome em inglês, “horehound”, é associado por alguns pesquisadores a uma antiga expressão egípcia ligada ao deus Hórus, refletindo o peso quase sagrado que a planta teve em certas tradições. No folclore europeu medieval, era associada a proteção contra feitiços e maus-olhados, crença sem respaldo científico, mas que ilustra o quanto a planta era valorizada para além de seu uso estritamente medicinal.
Composição Química
A marrubiína, diterpeno labdânico de sabor amargo, é o marcador químico característico da planta e a principal responsável pela ação expectorante. Ácidos fenólicos (cafeico, clorogênico, ferúlico) e flavonoides (apigenina, luteolina, quercetina) contribuem para a atividade antioxidante, e óleos essenciais, taninos e mucilagens completam o perfil, este último responsável pela ação calmante sobre mucosas irritadas.
Ação Respiratória: o Uso com Melhor Respaldo
Este é o uso mais consolidado da hortelã-do-mato, reconhecido inclusive pela Agência Europeia de Medicamentos como tratamento tradicional para tosse associada a resfriado. A marrubiína estimula a secreção de fluidos brônquicos, ajudando a soltar o muco espesso, e a planta tem efeito antiespasmódico que alivia a tosse persistente, usada tradicionalmente para bronquite e faringite.
Saúde Digestiva
O sabor amargo intenso estimula naturalmente a salivação e a secreção de suco gástrico, mecanismo por trás do uso tradicional como digestivo, aliviando sensação de inchaço e gases. A planta também tem propriedade colerética (estimula produção de bile), útil na digestão de gorduras, embora chamá-la de “hepatoprotetora” seja um exagero: o que existe é um efeito coadjuvante na digestão, não proteção comprovada contra dano hepático.
Ação Antimicrobiana: Evidência Preliminar
Extratos da planta mostram, em ensaios de laboratório, atividade contra diversas bactérias, sobretudo as chamadas Gram-positivas, além de alguma atividade antifúngica contra fungos patogênicos comuns. Também há indício preliminar de ação contra o vírus do herpes simples em cultura de células, o que motiva pesquisa sobre uso tópico complementar em herpes labial. São resultados de laboratório que sustentam o uso tradicional em feridas e infecções de pele, não substitutos de tratamento antimicrobiano estabelecido.
Controle Metabólico: Evidência Ainda Preliminar
Estudos sugerem efeito hipoglicemiante e melhora no perfil de colesterol (redução de LDL, possível aumento de HDL), o que motiva pesquisa sobre uso complementar no diabetes tipo 2. São achados de estudos pequenos, que justificam cautela redobrada quanto à interação medicamentosa (detalhada abaixo), não uma recomendação de substituir tratamento prescrito.
Segurança Cardíaca: o Ponto Que Costuma Faltar
Doses excessivas de hortelã-do-mato já foram associadas a relatos de arritmia cardíaca, e por isso pessoas com doença cardíaca preexistente devem ter cautela redobrada e conversar com o cardiologista antes de usar a planta de forma regular. É um risco pouco divulgado em conteúdo promocional sobre a planta, mas real o suficiente para justificar essa conversa prévia.
Uso Tradicional Adicional
O uso tópico em feridas e úlceras se apoia em propriedades antimicrobianas e cicatrizantes documentadas em laboratório, incluindo estímulo à proliferação de fibroblastos e à síntese de colágeno, processos centrais na reparação da pele. Já o uso para regular ciclo menstrual, presente em algumas tradições, é exatamente o motivo pelo qual a planta é contraindicada na gravidez: a mesma ação que “regula” a menstruação pode estimular contração uterina.
Formas de Uso
O chá tradicional usa de uma a duas colheres de chá de folhas secas por xícara de água fervente, em infusão de 10 a 15 minutos, até três xícaras ao dia; o sabor amargo costuma pedir mel ou limão. Tinturas (proporção 1:5) são dosadas em 2 a 4 ml, três vezes ao dia, diluídas em água.
Cultivo e Colheita
A planta se propaga por sementes, semeadas no outono ou na primavera, e prefere solo bem drenado com boa exposição solar, mesmo tolerando solos pobres. O momento da colheita influencia diretamente sua qualidade medicinal: as partes aéreas floridas, colhidas pouco antes da plena floração, concentram a maior quantidade de marrubiína e demais compostos ativos. Depois de colhida, a planta deve secar à sombra, em local arejado e a temperatura em torno de 35 a 40 graus, já que exposição direta ao sol degrada compostos voláteis e outros fitoquímicos sensíveis ao calor.
Contraindicações
Contraindicada na gravidez (risco de estimular contração uterina) e na amamentação. Pessoas com doença cardíaca devem ter cautela pelo risco de arritmia em doses altas. A planta pode potencializar medicamentos para diabetes (risco de hipoglicemia) e para pressão alta, por isso quem usa esses medicamentos deve conversar com o médico antes de somar a planta à rotina. Suspender o uso pelo menos duas semanas antes de cirurgia programada é prudente, pelo efeito sobre glicemia.
Perguntas Frequentes sobre a Hortelã-do-Mato
Para Que Serve o Chá de Hortelã-do-Mato?
Seu uso mais respaldado é respiratório: tosse, bronquite e catarro espesso, reconhecido pela Agência Europeia de Medicamentos. Também é usado tradicionalmente para digestão.
Hortelã-do-Mato É a Mesma Coisa Que Menta?
Não. Compartilham a família botânica Lamiaceae, mas são espécies diferentes, com composição química e usos distintos.
Hortelã-do-Mato Ajuda a Emagrecer?
Não há evidência direta disso. Seu papel é indireto, através da melhora digestiva, não como estratégia de emagrecimento.
Hortelã-do-Mato Interage com Medicamentos?
Sim, pode potencializar medicamentos para diabetes (risco de hipoglicemia) e para pressão alta. Quem usa esse tipo de medicação deve consultar o médico antes de usar a planta continuamente.
Hortelã-do-Mato Pode Causar Problema no Coração?
Em doses excessivas, sim: há relatos de arritmia associada ao uso em excesso. Pessoas com doença cardíaca devem conversar com o cardiologista antes de usar a planta regularmente.
Grávidas Podem Tomar Hortelã-do-Mato?
Não. A planta pode estimular contração uterina e é contraindicada na gravidez e na amamentação.
Quais os Efeitos Colaterais da Hortelã-do-Mato?
Em doses normais, é bem tolerada. Em excesso, pode causar náusea, vômito, irritação gástrica e, em casos raros, arritmia cardíaca.
Onde Comprar Hortelã-do-Mato?
Em lojas de produtos naturais, como folhas secas, cápsulas, tinturas ou extratos, priorizando fornecedores confiáveis.
Referências
- 2020 Aćimović M, et al. Marrubium vulgare L.: A Phytochemical and Pharmacological Overview. Molecules, 2020.
- 2017 Amri B, et al. Marrubium vulgare L. Leave Extract: Phytochemical Composition, Antioxidant and Wound Healing Properties. Molecules, 2017.
- European Medicines Agency. Community herbal monograph on Marrubium vulgare L., herba.
- 2004 Herrera-Arellano A, et al. Clinical trial of Cecropia obtusifolia and Marrubium vulgare leaf extracts on blood glucose and serum lipids in type 2 diabetics. Phytomedicine, 2004.
- 2017 Rodríguez Villanueva J, et al. A Reassessment of the Marrubium vulgare L. Herb’s Potential Role in the Treatment of Skin Conditions. Molecules, 2017.






