Myrica cerifera, conhecida em português como mirto-de-cera, é um arbusto perene nativo do leste dos Estados Unidos, com longa história na medicina tradicional norte-americana. A planta também aparece como arbusto-de-cera, arbusto-de-sebo e árvore-de-cera, e em inglês como bayberry, candleberry, southern bayberry, wax myrtle e waxberry.
A casca da raiz é a parte historicamente mais usada, valorizada pela ação adstringente. Já a cera que reveste os frutos deu à planta boa parte de sua fama econômica, empregada em cosméticos, sabões e velas.
Antes de qualquer coisa, um ponto de segurança que costuma ficar de fora dos textos sobre a planta: a literatura desaconselha o uso interno da casca em humanos, por causa do teor de taninos. Este artigo reúne o que a tradição registra, o que a ciência mostra em laboratório e o que os dados de segurança indicam, porque as três frentes importam.
Sumário do Artigo
- Alerta de Segurança Sobre o Uso Interno
- O Que É o Mirto-de-Cera
- História e Uso Tradicional
- Composição Fitoquímica
- Usos Tradicionais Registrados
- O Que a Pesquisa Mostra Até Agora
- Cultivo e Colheita
- A Cera do Mirto-de-Cera: De Velas a Usos Modernos
- Papel Ecológico e Colheita Sustentável
- Perguntas Frequentes Sobre o Mirto-de-Cera (FAQ)
Alerta de Segurança Sobre o Uso Interno
Esta seção vem antes dos benefícios de propósito, já que a informação é determinante para qualquer decisão de uso.
A elevada concentração de taninos da casca do mirto-de-cera mostrou-se carcinogênica em ratos, e é esse dado que leva as referências de fitoterapia a desaconselharem o uso interno da casca em pessoas. Em experimentos prolongados, animais expostos a extratos da casca da raiz desenvolveram tumores malignos.
Além disso, o triterpeno miricadiol tem efeito semelhante ao de hormônios do córtex adrenal sobre o metabolismo de sódio e potássio. Na prática, doses altas podem provocar retenção de sódio e água, com elevação da pressão arterial.
Quem Deve Evitar a Planta
- Crianças e bebês
- Gestantes e lactantes, pela possível atividade mineralocorticoide e pelo dado de carcinogenicidade
- Pessoas com doença renal
- Pessoas com hipertensão arterial
Há ainda relato de que o miricadiol apresenta ação espermicida, e descrição de atividade antiandrogênica no extrato da casca, o que soma cautela para homens em busca de fertilidade.
Por fim, o uso externo, em compressas e cataplasmas, tem perfil de risco diferente do uso interno, mas também merece orientação profissional.
O Que É o Mirto-de-Cera
O mirto-de-cera pertence à família Myricaceae, grupo de plantas conhecido por folhas aromáticas. Pode se apresentar como arbusto grande ou árvore pequena, alcançando com facilidade cerca de nove metros de altura.
Além disso, a espécie é comum no Texas e em toda a porção leste dos Estados Unidos, e também ocorre naturalmente em partes da América Central e em ilhas do Caribe. Adapta-se bem a climas variados, com preferência por zonas úmidas, próximas a rios e córregos, além de áreas de floresta e solos arenosos.
Características Botânicas
As flores masculinas têm cerca de quatro estames, enquanto as femininas se desenvolvem em frutos recobertos por uma camada de cera. Ambas são amareladas. Por sua vez, os frutos, de coloração branco-azulada, são bastante consumidos por aves e pequenos mamíferos.
As folhas são longas, estreitas e de um verde escuro, e liberam um aroma picante quando esmagadas, uma das características mais distintas da planta.
Um detalhe interessante da biologia da espécie: suas raízes têm nódulos capazes de fixar nitrogênio, o que permite que ela cresça sem dificuldade em solos pobres em nutrientes e funcione como planta pioneira em áreas degradadas.
História e Uso Tradicional
Povos nativos americanos foram os primeiros a empregar a planta. Os Choctaw preparavam um chá da casca usado em quadros febris, e os Lumbee recorriam à espécie para queixas digestivas e de pele.
Em seguida, os colonizadores europeus incorporaram esses usos à própria medicina popular. A cera dos frutos, por sua vez, era muito valorizada na produção de velas perfumadas e sabonetes, considerados artigos de luxo no período colonial.
A Casca da Raiz na Farmacopeia do Século XIX
A casca da raiz era empregada como adstringente e estimulante. Em doses pequenas, a tradição a associava ao controle de diarreias e disenterias; em doses maiores, ao efeito emético. O pó da casca era inalado para aliviar congestão nasal, prática comum em resfriados e sinusites.
No século XIX, médicos do movimento eclético nos Estados Unidos prescreviam a planta para uma lista ampla de condições. Esse tipo de indicação reflete o padrão terapêutico da época, e não corresponde a evidência clínica no sentido atual.
Composição Fitoquímica
A casca da raiz concentra os compostos de interesse, e é essa mesma concentração que explica tanto a ação adstringente quanto as ressalvas de segurança.
Triterpenos
Miricadiol, taraxerol e taraxerona já foram isolados da casca da raiz. O taraxerol é descrito com atividade anti-inflamatória, enquanto o miricadiol responde pelo efeito sobre sódio e potássio mencionado no alerta de segurança.
Um composto relacionado, a miricanona, foi estudado em laboratório por seu possível papel na indução de apoptose, a morte celular programada, em células cancerígenas cultivadas. É pesquisa preliminar, feita em células isoladas, sem qualquer teste em humanos, o que está longe de sustentar qualquer indicação para tratar câncer.
Flavonoides
Da mesma forma, a miricitrina é o flavonoide glicosídico mais citado na espécie, com atividade antioxidante, anti-inflamatória e antimicrobiana descrita em estudos laboratoriais.
Taninos e Outros Componentes
Já os taninos respondem pela forte adstringência da casca, e são também o motivo da restrição ao uso interno. Completam o perfil amido, fenóis, gomas e resinas, além da cera dos frutos, formada por ésteres de ácidos graxos como o láurico, o mirístico e o palmítico.
Usos Tradicionais Registrados
Os empregos a seguir vêm da tradição e de compêndios de fitoterapia, não de ensaios clínicos em humanos. Eles ajudam a entender a reputação da planta, sem servir de orientação de uso.
Sistema Digestivo
Assim, a ação adstringente dos taninos sustenta o uso histórico contra diarreia e disenteria. A tradição também registra emprego em quadros inflamatórios do trato gastrointestinal, incluindo desconforto abdominal e gases.
Vias Respiratórias
A planta aparece na literatura tradicional como descongestionante e expectorante, com uso da casca em pó para congestão e gargarejos para dor de garganta e gengivas inflamadas.
Uso Externo
Cataplasmas para feridas, compressas em varizes e aplicação sobre hemorroidas estão entre os empregos externos mais citados, associados às propriedades adstringentes. A tradição também menciona lavagens com chá da casca ou das folhas para irritações de pele e caspa, sempre como uso pontual e externo.
O Que a Pesquisa Mostra Até Agora
Os estudos disponíveis sobre a espécie são majoritariamente laboratoriais, feitos com compostos isolados ou extratos, e não com a planta inteira em pessoas.
Por exemplo, a miricitrina demonstrou, em modelos experimentais, atividade antioxidante e anti-inflamatória, além de efeito protetor sobre células endoteliais em condições de estresse oxidativo. O taraxerol também aparece em investigações sobre inflamação.
Extratos da espécie, associados a um estudo sobre plantas medicinais da tribo Lumbee, mostraram atividade inibitória sobre bactérias como Staphylococcus aureus e também efeito nematicida em testes de laboratório. São resultados que ajudam a explicar o uso tradicional como antisséptico, mas não autorizam substituir tratamento médico para infecções.
Nada disso equivale a eficácia comprovada em humanos. Não há ensaio clínico randomizado que sustente indicação terapêutica para a espécie, e a existência de um dado de carcinogenicidade animal para a casca torna o quadro ainda mais delicado.
Cultivo e Colheita
Quem cultiva o mirto-de-cera costuma valorizar sua resistência e baixa manutenção. A planta se adapta a diferentes solos, mas prefere solo arenoso e bem drenado, com exposição a sol pleno.
A propagação ocorre por sementes, que geralmente passam por um período de estratificação a frio antes de germinar, ou por estacas semilenhosas colhidas no verão, método considerado mais rápido e confiável.
Depois de estabelecida, a planta tolera bem a seca e exige pouca irrigação. Podas ocasionais ajudam a controlar o porte e a remover galhos secos ou doentes.
A colheita da casca da raiz, quando feita, costuma ocorrer no outono, época em que a energia da planta se concentra nas raízes. A prática recomendada é retirar apenas parte das raízes de cada exemplar, preservando a planta viva.
A Cera do Mirto-de-Cera: De Velas a Usos Modernos
A cera que reveste os frutos tem uso documentado desde o período colonial. Os frutos eram fervidos em água até a cera se separar e flutuar até a superfície, de onde era coletada e purificada.
O processo exigia grande quantidade de frutos para pouca cera, o que tornava as velas de mirto-de-cera mais caras que as de sebo comum, mas valorizadas pela queima limpa e pelo aroma característico.
Hoje a cera segue empregada em velas artesanais, sabonetes e cosméticos, sobretudo pelas propriedades aromáticas, sem que isso represente indicação de uso medicinal interno.
Papel Ecológico e Colheita Sustentável
Além do interesse medicinal, o mirto-de-cera cumpre função ecológica relevante. Como mencionado, os nódulos fixadores de nitrogênio em suas raízes permitem que a espécie colonize solos pobres e degradados, preparando terreno para outras plantas.
Os frutos cerosos também alimentam aves e pequenos mamíferos, principalmente no inverno, quando outras fontes de alimento escasseiam.
Por isso, a colheita da casca da raiz deve ser feita com moderação. Retirar raízes em excesso pode matar o exemplar, e práticas de colheita responsável são importantes para manter populações saudáveis da espécie na natureza.
Perguntas Frequentes Sobre o Mirto-de-Cera (FAQ)
Para Que Serve o Mirto-de-Cera?
Na tradição norte-americana, a casca da raiz foi usada como adstringente em quadros de diarreia, como descongestionante em resfriados e, externamente, em feridas e hemorroidas. São usos históricos, sem confirmação por ensaios clínicos. A literatura atual desaconselha o uso interno da casca pelo teor de taninos.
Posso Tomar Chá da Casca de Mirto-de-Cera?
As referências de fitoterapia desaconselham o uso interno da casca em humanos, porque a elevada concentração de taninos mostrou-se carcinogênica em estudos com ratos. Por isso este artigo não recomenda preparo nem dosagem para ingestão. Qualquer uso deve ser avaliado por um profissional de saúde.
Quem Tem Pressão Alta Pode Usar a Planta?
Não sem avaliação médica. O miricadiol, um dos triterpenos da casca, atua sobre o metabolismo de sódio e potássio de forma semelhante a hormônios adrenais, e doses altas podem causar retenção de sódio e água, elevando a pressão arterial. Pessoas com hipertensão ou doença renal devem evitar.
Gestantes Podem Usar Mirto-de-Cera?
Não. O uso na gravidez e na amamentação deve ser evitado, tanto pela possível atividade mineralocorticoide quanto pelo dado de carcinogenicidade observado em animais. Não há estudos de segurança nessa população que autorizem o uso.
O Mirto-de-Cera Tem Efeito Sobre a Fertilidade?
Há relato na literatura de que o miricadiol apresenta ação espermicida, e também descrição de atividade antiandrogênica no extrato da casca. Homens que buscam fertilidade têm nisso mais um motivo para evitar a planta sem orientação profissional.
Qual a Diferença Entre a Casca e a Cera dos Frutos?
São partes com destinos bem diferentes. A casca da raiz concentra taninos e triterpenos, e é o material associado às restrições de uso interno. Já a cera que reveste os frutos é formada por ésteres de ácidos graxos, com uso essencialmente industrial, em velas, sabões e cosméticos.
A Planta Serve para Tratar Infecções?
Estudos laboratoriais descrevem atividade antibacteriana e nematicida para compostos e extratos da espécie, incluindo a miricitrina. Isso não significa que a planta trate infecções em pessoas. Infecção é quadro que exige diagnóstico e tratamento médico, e adiar esse cuidado pode ser perigoso.
Onde o Mirto-de-Cera É Encontrado?
A espécie é nativa do leste dos Estados Unidos, com presença marcante no Texas, e ocorre também na América Central e em ilhas do Caribe. Prefere zonas úmidas, perto de rios e córregos, mas adapta-se a diferentes climas e a solos pobres, graças aos nódulos fixadores de nitrogênio nas raízes.
O Mirto-de-Cera Pode Causar Alergia?
Reações alérgicas são raras, mas podem ocorrer, sobretudo em pessoas sensíveis a plantas da família Myricaceae. Erupção cutânea, coceira ou outro sintoma incomum após contato ou uso externo são motivo para interromper o uso e procurar orientação médica.
É Seguro Colher o Mirto-de-Cera na Natureza?
A colheita exige identificação botânica correta, já que confundir a espécie com plantas parecidas pode ser arriscado. Quem não tem experiência em identificação de plantas deve preferir fornecedores confiáveis, e evitar colher ou consumir material de origem incerta.
Referências
Ver Todas as 10 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (5)
- PEER1974 Paul, B. D., et al. “Isolation of Myricadiol, Myricitrin, Taraxerol, and Taraxerone from Myrica cerifera L. Root Bark.” Journal of Pharmaceutical Sciences, vol. 63, no. 6, 1974, pp. 958-960. ↗.
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- PMC2015 Qin, M., Luo, Y., Meng, X. B., et al. “Myricitrin attenuates endothelial cell apoptosis to prevent atherosclerosis: an insight into PI3K/Akt activation and STAT3 signaling pathways.” Vascular Pharmacology, vol. 70, 2015, pp. 23-34. ↗.
- PMC National Center for Biotechnology Information. “Myrica cerifera, a Medicinal Plant of the Lumbee Tribe, has Antibacterial and Nematicidal Properties.” PubMed Central. ↗.
- PMC National Library of Medicine. “Anticancer Potential of Myricanone, a Major Bioactive Component of Myrica cerifera: Novel Signaling Cascade for Accomplishing Apoptosis.” PubMed. ↗.
Leituras Complementares (5)
- Drugs.com. “Bayberry: Uses, Benefits and Dosage.” Natural Products Database. ↗.
- RxList. “Bayberry: Health Benefits, Side Effects, Uses, Dose and Precautions.” ↗.
- Botanical.com. “Myrica cerifera (Linn.): Bayberry.” A Modern Herbal, Mrs. M. Grieve. ↗.
- Useful Tropical Plants Database. “Morella cerifera.” Tropical Plants Database, Ken Fern. ↗.
- 2015 MDPI. “Recent Breakthroughs in the Antioxidant and Anti-Inflammatory Properties of Morella and Myrica Species.” International Journal of Molecular Sciences, vol. 16, no. 8, 2015. ↗.






