Paeonia officinalis, popularmente chamada de peônia, é uma planta com flor da família Paeoniaceae, valorizada há milênios tanto pelo valor ornamental quanto pelo uso na medicina tradicional. Ao longo de mais de dois mil anos de uso etnobotânico, sobretudo na Europa, a raiz e as flores da planta foram empregadas em diferentes culturas na forma de chás e outras preparações.
O gênero Paeonia reúne mais de trinta espécies de interesse medicinal, entre elas Paeonia albiflora, Paeonia lactiflora e Paeonia suffruticosa, esta última conhecida como peônia-de-árvore. Essa distinção entre espécies importa mais do que parece: boa parte da pesquisa clínica citada mais adiante refere-se a um extrato específico da raiz de Paeonia lactiflora, e não à Paeonia officinalis, que é o foco deste texto.
Sumário do Artigo
- O Que É a Peônia
- Nomes Populares e Internacionais
- Sinônimos Botânicos da Peônia
- História e Curiosidades
- Usos Tradicionais e Propriedades Medicinais
- Composição Química e Fitoquímicos
- Pesquisa Clínica: Glicosídeos Totais de Peônia em Artrite Reumatoide
- Como Preparar o Chá de Peônia
- Sinergia com Outras Plantas
- Terapias Associadas
- Contraindicações, Efeitos Colaterais e Interações
- Perguntas Frequentes Sobre a Peônia
O Que É a Peônia
A Paeonia officinalis pertence à família Paeoniaceae e ocorre naturalmente em regiões montanhosas da Europa, onde cresce em pastagens e bordas de floresta.
Trata-se de planta herbácea perene que alcança cerca de setenta centímetros de altura, com raízes robustas e folhas grandes, de tonalidade verde-escura, com formato lobulado e oval. A flor é grande e solitária, com corola de até dez pétalas em tom rosa avermelhado e aroma marcante, o que explica a popularidade da planta em jardins ao redor do mundo e o apelido de rainha das flores em diversas culturas.
Na fitoterapia, as partes tradicionalmente usadas são as flores e as raízes, sendo a raiz a mais estudada e empregada em preparações.
Nomes Populares e Internacionais
- Alemão: Echte Pfingstrose, Bauern-Pfingstrose.
- Espanhol: peonía, rosa de monte.
- Francês: pivoine officinale, pivoine des jardins.
- Inglês: common peony, garden peony, European peony, king of flowers.
- Italiano: peonia officinale, rosa di monte.
- Português: peônia.
Sinônimos Botânicos da Peônia
- Paeonia corallina
- Paeonia europaea
- Paeonia officinalis subsp. huthii
- Paeonia officinalis subsp. microcarpa
- Paeonia peregrina (sinonímia homeopática)
- Rosa benedicta (sinonímia homeopática)
História e Curiosidades
O nome do gênero é uma homenagem a Peon, médico dos deuses na mitologia grega. Segundo a tradição, Peon teria sido transformado em peônia por Asclépio, o deus da medicina, para escapar de sua ira, o que reforça a associação antiga entre a planta e a cura.
Desde a época de Hipócrates, entre os séculos V e IV antes de Cristo, a peônia era administrada em quadros de epilepsia e para promover a menstruação, além de empregada como laxante suave na forma das flores. As sementes chegavam a ser usadas em colares, tanto com a crença de que afastariam doenças quanto, em outras tradições, para proteger recém-nascidos. São registros históricos, não indicações atuais.
Na China, a peônia é cultivada há mais de mil anos e é considerada a rainha das flores, símbolo de riqueza, honra e prosperidade. Um ditado antigo dizia que mulheres que usassem a raiz da peônia ficariam tão bonitas quanto sua flor, o que ajuda a explicar a presença da planta em preparações cosméticas até hoje. Na Idade Média, era comum encontrar a peônia cultivada em mosteiros e jardins medicinais europeus.
Usos Tradicionais e Propriedades Medicinais
Os usos a seguir vêm da tradição e de compêndios de fitoterapia, sem confirmação por ensaios clínicos robustos em humanos. À raiz e às flores são atribuídas as seguintes propriedades:
- Analgésica (tradicionalmente usada para alívio da dor)
- Antiácida (tradicionalmente associada ao conforto digestivo)
- Anti-inflamatória (tradicionalmente associada à redução de processos inflamatórios)
- Antiespasmódica (tradicionalmente usada para alívio de espasmos musculares)
- Antisséptica (tradicionalmente associada ao combate a microrganismos)
- Diurética (tradicionalmente associada ao aumento da produção de urina)
- Emenagoga (tradicionalmente associada à estimulação do fluxo menstrual)
- Hepatoprotetora (tradicionalmente associada à proteção do fígado)
- Sedativa (tradicionalmente associada ao relaxamento)
- Tônica Circulatória (tradicionalmente associada à circulação sanguínea)
Na medicina chinesa, a raiz é descrita como um recurso para acalmar o fígado e nutrir o sangue, dentro da lógica própria daquele sistema terapêutico. A tradição ocidental, por sua vez, associa as propriedades adstringentes da raiz ao uso em hemorroidas, e a planta aparece como componente de pomadas voltadas a essa finalidade, embora sem confirmação por estudos clínicos controlados.
Saúde da Mulher
A tradição registra uso em cólicas menstruais e em irregularidades do ciclo, associado à propriedade emenagoga descrita acima. Vale um alerta que aparece com mais detalhe adiante: por atuar sobre a musculatura uterina, a planta exige cautela redobrada e é contraindicada na gestação.
Uso Cosmético
A paeoniflorina aparece em formulações cosméticas, com relatos de efeito sobre rugas faciais quando usada topicamente em concentração de aproximadamente meio por cento. Esse uso é tópico, distinto de qualquer efeito por ingestão.
Composição Química e Fitoquímicos
A Paeonia officinalis é rica em compostos bioativos que contribuem para o perfil terapêutico do gênero. O composto mais estudado nas espécies de peônia é a paeoniflorina, um glicosídeo monoterpênico. A planta também contém paeonol, um composto fenólico associado a ações anti-inflamatórias e analgésicas em modelos de laboratório, além de taninos, que sustentam a ação adstringente descrita na tradição, e flavonoides com atividade antioxidante demonstrada em ensaios in vitro.
Pesquisa Clínica: Glicosídeos Totais de Peônia em Artrite Reumatoide
A pesquisa clínica mais consistente do gênero não usa a planta bruta, e sim um extrato padronizado conhecido como glicosídeos totais de peônia. É importante frisar a origem botânica desse extrato: ele é obtido das raízes de Paeonia lactiflora, espécie diferente da Paeonia officinalis tratada neste artigo, e contém cerca de noventa por cento de paeoniflorina.
Esse extrato foi aprovado na China, em 1998, como medicamento modificador do curso da artrite reumatoide. Ensaios clínicos avaliaram os glicosídeos totais de peônia em associação a medicamentos convencionais, como metotrexato e leflunomida, em pacientes com artrite reumatoide ativa, sempre como terapia adjuvante e nunca em substituição ao tratamento prescrito.
Um achado adicional chamou atenção dos pesquisadores: a associação reduziu a hepatotoxicidade causada por metotrexato e leflunomida, segundo uma metanálise que reuniu ensaios randomizados avaliando eficácia e segurança dessa combinação. Ainda assim, nada disso autoriza substituir tratamento médico por chá de peônia, nem indica automedicação, até porque o chá caseiro da raiz não equivale ao extrato padronizado usado nos estudos.
Como Preparar o Chá de Peônia
- Use uma colher de chá de raiz seca de peônia para cada xícara de água.
- Leve a água à fervura e despeje sobre a raiz.
- Deixe em infusão por dez a quinze minutos, sem ferver a raiz diretamente, para não degradar os compostos ativos.
- Coe a infusão para remover os resíduos da planta.
- Beba até duas xícaras ao dia, observando a resposta do corpo.
Esse preparo é tradicionalmente usado para cólicas menstruais e espasmos, mas não substitui o extrato padronizado avaliado nos estudos clínicos citados acima nem qualquer tratamento prescrito.
Tintura de Peônia para Uso Externo
A tintura de peônia também é utilizada topicamente, aplicada em algumas gotas diluídas em água sobre a área afetada, com massagem suave, para desconforto muscular ou inflamação localizada. Antes da aplicação, é recomendável testar uma pequena área da pele para verificar sensibilidade, e o uso deve ser orientado por um profissional habilitado.
Sinergia com Outras Plantas
A peônia pode ser combinada com outras plantas para complementar seus efeitos tradicionais, sempre sob orientação profissional. Para dores e inflamações, é por vezes associada a Harpagophytum procumbens (garra-do-diabo) ou Salix alba (salgueiro-branco). Em quadros de ansiedade e insônia, aparece combinada a Passiflora incarnata (passiflora) ou Valeriana officinalis (valeriana). Para suporte digestivo, é por vezes considerada ao lado de Matricaria chamomilla (camomila). É fundamental consultar um profissional de saúde antes de iniciar qualquer combinação de plantas medicinais.
Terapias Associadas
Homeopatia
Na homeopatia, a Paeonia officinalis é tradicionalmente indicada em formulações para hemorroidas não complicadas, fissuras anais e outras condições inflamatórias do reto, conforme os princípios da similitude, em que doses altamente diluídas da substância buscam estimular a resposta do organismo. Não existem ensaios clínicos controlados que confirmem esse efeito, e o tratamento homeopático deve ser sempre prescrito e acompanhado por um médico homeopata qualificado.
Contraindicações, Efeitos Colaterais e Interações
Esta seção reúne o que é mais importante saber antes de considerar a peônia.
Quem Não Deve Usar
- Crianças, pela ausência de estudos de segurança na faixa pediátrica
- Gestantes, já que a planta pode induzir contrações uterinas e as sementes têm propriedades abortivas descritas na literatura
- Lactantes, pela falta de dados de segurança
- Pessoas com distúrbios de coagulação ou em uso de anticoagulantes, sem avaliação médica, pois a peônia pode retardar a coagulação sanguínea
- Pessoas em preparo para cirurgia, recomendando-se suspender o uso pelo menos duas semanas antes de procedimentos programados
As sementes merecem menção separada: além do efeito abortivo, são descritas como purgativas e capazes de induzir vômito, não devendo ser consumidas.
Interações Medicamentosas
A peônia pode interagir com diversos medicamentos. Pode potencializar o efeito de anticoagulantes, aumentando o risco de sangramento. Pode também interferir com a fenitoína, reduzindo sua eficácia e aumentando o risco de convulsões. Devido à possível atividade estrogênica, pode interagir com pílulas anticoncepcionais e terapias de reposição hormonal, alterando seus efeitos, além de poder modificar o metabolismo hepático de outros medicamentos. É fundamental informar o médico sobre o uso de peônia antes de iniciar qualquer tratamento medicamentoso. Quem faz tratamento para artrite reumatoide e se interessa pelo extrato padronizado precisa conversar com o reumatologista, já que a indicação é adjuvante e depende de acompanhamento.
Efeitos Colaterais Comuns
Os efeitos colaterais mais comuns incluem desconforto gastrointestinal, como dor de estômago. Em algumas pessoas, a aplicação tópica pode causar erupções cutâneas. Caso ocorram reações adversas, o uso deve ser interrompido e um profissional de saúde deve ser consultado. A segurança do uso prolongado ainda não está totalmente estabelecida, sendo o uso por até doze meses considerado possivelmente seguro em adultos saudáveis, sob orientação profissional.
Perguntas Frequentes Sobre a Peônia
Para Que Serve a Peônia?
Na tradição, a raiz e as flores são usadas por propriedades como adstringente, anti-inflamatória e antiespasmódica, com registro de uso em hemorroidas, cólicas menstruais e quadros de tensão. Na pesquisa clínica, o destaque é o extrato padronizado de Paeonia lactiflora como terapia adjuvante em artrite reumatoide, sempre associado a tratamento médico.
A Peônia Cura Hemorroidas?
Não. A planta aparece na tradição e na homeopatia como recurso para hemorroidas, mas não existe evidência clínica controlada que sustente cura. Hemorroidas têm causas variadas e exigem avaliação médica, sobretudo quando há sangramento, que precisa ser investigado.
Qual a Diferença Entre as Espécies de Peônia?
A diferença é relevante para quem busca a planta pela pesquisa científica. A maior parte dos estudos clínicos usa glicosídeos totais extraídos da raiz de Paeonia lactiflora, e não da Paeonia officinalis tratada neste artigo. São espécies do mesmo gênero, com composição e padronização distintas.
Grávidas Podem Usar Peônia?
Não. O uso é contraindicado na gestação, porque a planta pode induzir contrações uterinas e as sementes têm propriedades abortivas descritas na literatura. Lactantes também devem evitar, pela falta de dados de segurança.
A Peônia Substitui o Remédio para Artrite?
Não substitui. Nos estudos, o extrato padronizado foi avaliado como terapia adjuvante, ou seja, somado a medicamentos como metotrexato e leflunomida, nunca no lugar deles. Interromper tratamento prescrito por conta própria pode agravar a doença.
Como se Prepara o Chá da Raiz de Peônia?
A preparação tradicional é uma infusão de uma colher de chá de raiz seca por xícara de água fervente, deixada em repouso por dez a quinze minutos e coada antes de beber, até duas xícaras ao dia. Vale insistir num ponto: o chá caseiro não equivale ao extrato padronizado usado nos estudos clínicos, e o preparo doméstico não permite controle de dose dos princípios ativos.
A Peônia Tem Efeito Sedativo?
A tradição atribui à raiz uma ação sedativa leve, e o gênero aparece em preparações voltadas a quadros de tensão. Não há, porém, ensaio clínico robusto que confirme esse efeito em humanos, e a planta não deve ser usada como alternativa a tratamento de ansiedade ou insônia.
Peônia Ornamental e Peônia Medicinal São a Mesma Planta?
Podem ser a mesma espécie, mas a finalidade muda tudo. Plantas cultivadas para ornamentação costumam receber defensivos agrícolas e não têm controle de identidade botânica nem de resíduos, o que as torna inadequadas para consumo.
Por Quanto Tempo É Seguro Usar Peônia?
Dados de segurança apontam o uso por até doze meses como possivelmente seguro em adultos saudáveis, sempre em doses moderadas e sob orientação profissional. Para uso prolongado, especialmente em quem toma outros medicamentos ou tem condições de saúde preexistentes, o acompanhamento médico é indispensável.
Referências
Estudos Científicos Peer-Reviewed (3)
- PMC2013 Xiang, N., et al. “Reduced hepatotoxicity by total glucosides of paeony in combination treatment with leflunomide and methotrexate for patients with active rheumatoid arthritis.” International Immunopharmacology, 2013. ↗.
- PMC2019 Zhang, W., et al. “Efficacy and safety of total glucosides of paeony combined with methotrexate and leflunomide for active rheumatoid arthritis: a meta-analysis.” Drug Design, Development and Therapy, 2019. ↗.
- PMC2005 “Comparative study on clinical efficacy of using methotrexate singly or combined with total glucosides of Paeony in treating rheumatoid arthritis.” Zhongguo Zhong Xi Yi Jie He Za Zhi, 2005. ↗.






