O ginseng-brasileiro é o nome comercial de plantas do gênero Pfaffia, sobretudo a Pfaffia paniculata, também chamada de suma ou paratudo. Apesar do nome, não há parentesco com o ginseng verdadeiro: a semelhança está apenas no aspecto da raiz.
A planta ocupa lugar firme na tradição sul-americana como tônico. Já o volume de alegações modernas que a cercam, de câncer a impotência, cresceu muito além do que a pesquisa consegue sustentar.
Este texto apresenta a planta, o estágio real da evidência, os achados de segurança que merecem atenção e as confusões de nome que afetam quem compra a raiz.
Sumário do Artigo
O Que É o Ginseng-Brasileiro
Botanicamente, trata-se de um arbusto trepador da família Amaranthaceae, a mesma do amaranto e da beterraba, nativo da América do Sul. A parte usada é a raiz, de aspecto volumoso e amarelado.
Por sua vez, o nome popular vem da semelhança visual dessa raiz com a do Panax ginseng coreano. A comparação para por aí: as famílias botânicas, os compostos e a literatura científica são completamente diferentes.
Um Detalhe Que Afeta o Que Você Compra
Acontece que duas espécies circulam sob o mesmo nome comercial: a Pfaffia paniculata, que a botânica atual reclassificou como Hebanthe eriantha, e a Pfaffia glomerata, espécie distinta e hoje a mais cultivada no Brasil.
Assim, dois produtos rotulados como ginseng-brasileiro podem conter plantas diferentes, com perfis químicos diferentes. O nome científico no rótulo é a única forma de saber qual raiz está no pacote.
O tamanho desse problema já foi medido. Pesquisadores brasileiros compraram sessenta amostras vendidas como ginseng brasileiro e identificaram a espécie pelo gene matK. Apenas sete embalagens traziam nome de espécie no rótulo, e em 71,4% desses casos o material do pacote era de outra planta.
Composição
O composto mais estudado do gênero é a beta-ecdisona, um fitoecdisteroide presente sobretudo na Pfaffia glomerata. Uma revisão publicada no Journal of Ethnopharmacology reuniu a botânica, a fitoquímica e as atividades biológicas descritas para essa espécie.
Além disso, as raízes contêm saponinas, os chamados pfaffosídeos, além de fitoesteróis. É dessa mistura que vêm as atividades investigadas em laboratório.
O Que a Pesquisa Mostra
Antes de mais nada, é preciso ser direto: a pesquisa sobre o ginseng-brasileiro é quase toda pré-clínica, feita em células e em animais. Ensaios clínicos em pessoas praticamente não existem.
O Que Há de Concreto
Por exemplo, estudos em modelos experimentais investigam extratos da planta em contextos variados, de inflamação intestinal a ensaios antiproliferativos em cultura de células.
De fato, são trabalhos legítimos de bancada, que servem para levantar hipóteses. Nenhum deles demonstra eficácia em seres humanos, e essa distância é exatamente o que separa uma planta promissora de um tratamento.
Achados de Segurança Que Merecem Atenção
Nesse terreno, dois resultados experimentais pesam mais que as promessas.
Antes de tudo, o primeiro: um estudo japonês com camundongos que consumiram raiz de Pfaffia paniculata em pó por trinta dias encontrou níveis mais altos de estradiol, progesterona e testosterona nos animais tratados do que nos controles. Ou seja, a planta mostrou atividade hormonal em modelo animal.
Já o segundo: a beta-ecdisona apresentou resultado genotóxico em ensaio de micronúcleo em medula óssea de roedores. Genotoxicidade em animal não condena uma planta, mas exige prudência com doses altas e uso prolongado.
Sobre as Alegações de Câncer
Ainda assim, circula material associando a planta ao tratamento de linfomas e outros tumores, a partir de estudos antigos em células e camundongos.
Ocorre que nada disso tem validação clínica. Câncer tem tratamento estabelecido, e adiar ou substituir esse cuidado por uma raiz é a decisão mais cara que um paciente pode tomar.
Sobre Impotência, Diabetes e Anemia
Da mesma forma, o mesmo vale para as demais promessas populares: não há ensaios clínicos que sustentem o uso em disfunção erétil, controle de glicemia ou anemia. Disfunção erétil, em particular, pode ser sinal precoce de doença cardiovascular e merece avaliação médica, não automedicação.
Beta-Ecdisona, o Composto Que Virou Suplemento de Academia
Fora do Brasil, a beta-ecdisona atende por outros dois nomes: ecdisterona e 20-hidroxiecdisona. São sinônimos da mesma molécula, e essa equivalência explica por que o marcador químico de uma raiz sul-americana aparece em rótulos de suplemento esportivo no mundo inteiro.
É desse composto isolado, e não da raiz, que vem o único ensaio clínico relevante da história. Publicado em Archives of Toxicology, acompanhou 46 homens jovens por dez semanas de treino de força e registrou ganho maior de massa muscular e de desempenho no supino no grupo que recebeu ecdisterona. O mecanismo proposto passa pelo receptor de estrogênio, não pelo androgênico.
Duas ressalvas desmontam o atalho fácil. O ensaio usou ecdisterona padronizada, enquanto o teor na raiz varia conforme espécie, cultivo e processamento. E a rotulagem desses suplementos costuma ser péssima: um ensaio duplo-cego de 2025 mediu menos de 1% da ecdisterona anunciada no produto testado, e o resultado do treino foi igual nos dois grupos.
O composto purificado tem, portanto, um sinal em humanos saudáveis. Pó de raiz de espécie incerta e teor desconhecido não herda esse sinal, e carrega a mesma molécula que se mostrou genotóxica em roedores.
O Que Isso Significa Para Quem Compete
Desde 2020 a ecdisterona integra o Programa de Monitoramento da Agência Mundial Antidoping, na seção de agentes anabólicos. Monitorar não é proibir: ela não consta da lista de proibições, e a agência acompanha o padrão de uso para decidir. Nos exames ela aparece com frequência: o laboratório antidoping polonês a detectou em 507 de 11.191 amostras analisadas ao longo de dois anos e meio.
Usos Tradicionais
Historicamente, comunidades da América do Sul empregam a raiz como tônico geral, para fadiga e como afrodisíaco, e a revisão etnofarmacológica registra também usos anti-inflamatórios e analgésicos na tradição.
Contudo, vale a distinção de sempre: registro etnobotânico documenta o que as comunidades fazem, e não o que está comprovado. A tradição justifica pesquisa, não substitui evidência.
Contraindicações e Cuidados
Na prática, diante da atividade hormonal observada em animais e da ausência de estudos de segurança em pessoas, a lista de cautela é ampla.
- Crianças, em qualquer forma
- Gestantes e lactantes, pela atividade hormonal descrita em modelo animal
- Pessoas com asma, já que há relato de asma ocupacional causada pelo pó da raiz em quem o manipula
- Pessoas com câncer hormônio-dependente, atual ou prévio, como mama, útero, ovário e próstata
- Pessoas com endometriose, miomas ou outras condições sensíveis a hormônios
- Pessoas em uso de terapia hormonal ou anticoncepcional, sem orientação
Além disso, o uso prolongado e em doses altas merece cautela extra pelo achado de genotoxicidade experimental da beta-ecdisona.
Se Ainda Assim For Usar
Nesse caso, prefira produtos com nome científico no rótulo, informe o médico que acompanha o caso, evite uso contínuo por longos períodos e suspenda diante de qualquer sintoma novo, sobretudo alterações menstruais ou mamárias. Para o preparo em si, o método correto para raiz, a diferença entre pó, raiz picada e extrato e a conservação do preparado estão reunidos no texto sobre o chá de ginseng brasileiro.
Perguntas Frequentes Sobre o Ginseng-Brasileiro (FAQ)
Para Que Serve o Ginseng-Brasileiro?
A tradição sul-americana usa a raiz como tônico, para fadiga e como afrodisíaco. A pesquisa moderna é quase toda em células e animais, sem ensaios clínicos que estabeleçam indicação terapêutica em pessoas.
Ginseng-Brasileiro É Ginseng de Verdade?
Não. O ginseng verdadeiro pertence ao gênero Panax, da família Araliaceae. A Pfaffia é da família Amaranthaceae, a mesma da beterraba, e o nome vem apenas da semelhança visual das raízes.
A Planta Trata Câncer?
Não. As associações que circulam vêm de estudos antigos em células e camundongos, sem qualquer validação clínica. Substituir ou adiar tratamento oncológico por causa dessa alegação é perigoso.
Ginseng-Brasileiro Tem Efeito Hormonal?
Em modelo animal, sim: um estudo com camundongos encontrou alteração de estradiol, progesterona e testosterona após consumo da raiz. É justamente por isso que gestantes e pessoas com condições sensíveis a hormônios devem evitar.
Qual a Diferença entre Pfaffia paniculata e Pfaffia glomerata?
São espécies distintas vendidas sob o mesmo nome comercial. A paniculata, hoje reclassificada como Hebanthe eriantha, é a suma clássica. Já a glomerata é a mais cultivada no Brasil e concentra a beta-ecdisona.
A Planta Ajuda na Impotência?
Não há ensaios clínicos que sustentem esse uso. Disfunção erétil pode ser sinal precoce de doença cardiovascular, e a avaliação médica importa mais do que qualquer tônico.
Ginseng-Brasileiro Aumenta Massa Muscular?
A raiz nunca foi testada com essa finalidade. Existe um estudo de dez semanas com ecdisterona isolada, composto também presente na planta, em que homens em treino de força ganharam mais massa que o grupo controle. Raiz em pó, de espécie e teor incertos, não equivale a esse composto padronizado.
Quem Compete Pode Usar a Planta?
A ecdisterona é monitorada pela Agência Mundial Antidoping desde 2020, sem constar da lista de proibições. Como aparece em exames de rotina, avisar o serviço médico da entidade esportiva antes de usar é a conduta prudente.
Grávida Pode Tomar?
Não. A atividade hormonal observada em animais e a ausência total de estudos de segurança na gestação e na amamentação tornam o uso desaconselhado nesses períodos.
O Uso Prolongado É Seguro?
Não está estabelecido. A beta-ecdisona apresentou genotoxicidade em ensaio com roedores, o que pede prudência com doses altas e uso contínuo. Períodos curtos, com orientação profissional, são o cenário menos arriscado.
Referências Científicas
Ver Todas as 14 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (13)
- PMC2024 “A comprehensive review of Pfaffia glomerata botany, ethnopharmacology, phytochemistry, biological activities and biotechnology.” Journal of Ethnopharmacology, 2024. ↗.
- PMC2003 Oshima, M., Gu, Y. “Pfaffia paniculata-induced changes in plasma estradiol-17beta, progesterone and testosterone levels in mice.” The Journal of Reproduction and Development, 2003. ↗.
- PMC2016 “The phytoecdysteroid beta-ecdysone is genotoxic in Rodent Bone Marrow Micronuclei and Allium cepa assays.” Journal of Ethnopharmacology, 2016. ↗.
- PMC2018 “Pfaffia paniculata (Brazilian ginseng) extract modulates Mapk and mucin pathways in intestinal inflammation.” Journal of Ethnopharmacology, 2018. ↗.
- PMC2024 “Antiproliferative assay of suma or Brazilian ginseng (Hebanthe eriantha) methanolic extracts.” Natural Product Research, 2024. ↗.
- PMC2014 “Phytochemical analysis of Pfaffia glomerata inflorescences by LC-ESI-MS/MS.” Molecules, 2014. ↗.
- PMC2024 “Pressurized liquid extraction followed by high-performance liquid chromatography for determination of beta-ecdysone in Pfaffia glomerata roots.” Scientific Reports, 2024. ↗.
- PMC2025 “Juglans regia and Pfaffia paniculata extracts: implications for periodontal disease treatment.” Frontiers in Cellular and Infection Microbiology, 2025. ↗.
- PMC1991 “Occupational asthma caused by Brazil ginseng dust.” The Journal of Allergy and Clinical Immunology, 1991. ↗.
- DOI2023 Almeida, F. A. N. et al. “Authentication of Brazilian Ginseng using Bar-HRM analysis.” Brazilian Journal of Pharmaceutical Sciences, 2023. ↗.
- PMC2019 Isenmann, E. et al. “Ecdysteroids as non-conventional anabolic agent: performance enhancement by ecdysterone supplementation in humans.” Archives of Toxicology, 2019. ↗.
- PMC2025 Dissemond, J. et al. “How reliable is the labeling of a commercial phytosteroid product?” Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2025. ↗.
- PMC2024 Kwiatkowska, D. et al. “Ecdysterone: possible sources of origin in urine.” Drug Testing and Analysis, 2024. ↗.
Leituras Complementares (1)
- U.S. Anti-Doping Agency. “What Athletes Need to Know about Ecdysteroids.” ↗.






