As plantas são elementos centrais na cultura dos povos indígenas. Elas são fontes de alimento, matéria-prima e, sobretudo, de cura. O crajiru, conhecido cientificamente como Fridericia chica (sinônimo: Arrabidaea chica), ocupa um lugar de destaque neste universo. Para muitas etnias da Amazônia, esta planta é mais do que um remédio. Ela é um símbolo de identidade cultural e conexão espiritual. Portanto, seu estudo nos abre uma janela para a rica cosmologia indígena.
O uso mais visível do crajiru é como corante. A seiva de suas folhas, ao ser macerada, libera um pigmento de um vermelho intenso e profundo. Esta tinta natural é usada para pintar o corpo em rituais e cerimônias. A pintura corporal não é apenas um adorno estético. Ela carrega significados sociais, espirituais e de proteção. Consequentemente, o crajiru está presente nos momentos mais importantes da vida comunitária.
O Vermelho do Crajiru: Tinta, Símbolo e Proteção
QUIZ - Descubra o Seu Chá Ideal

O processo de extração do corante vermelho do crajiru é um conhecimento transmitido há gerações. A maceração das folhas libera os pigmentos que, fixados com técnicas tradicionais, produzem cores que resistem a lavagens e ao tempo.
A cor vermelha possui um simbolismo universal de força, vitalidade e paixão. Para os povos amazônicos, o vermelho extraído do crajiru agrega ainda outras camadas de significado. Ele está associado ao sangue, à guerra e à proteção contra maus espíritos. A aplicação da tinta no corpo é um ato ritualístico. É uma forma de se preparar para a caça, para a festa ou para o confronto.
O processo de extração da tinta é, por si só, um conhecimento tradicional. As folhas são colhidas e maceradas, muitas vezes em um pilão. A massa resultante é cozida lentamente em água. O líquido vai se concentrando até se transformar em uma pasta de cor vibrante. Esta pasta pode ser armazenada por longos períodos. O escritor José de Alencar, em seu romance “Iracema”, descreve a personagem pintando o guerreiro Martim com a “tinta do crajuru”.
Uso do Crajiru para Tingimento

O tingimento natural com crajiru produz tonalidades únicas que variam do rosa ao terracota, dependendo da concentração e dos mordentes utilizados. Esta técnica ancestral inspira hoje movimentos de moda sustentável e valorização de corantes naturais.
Além da pintura corporal, o pigmento do crajiru é usado para tingir fibras vegetais. Cestos, redes e outros artefatos ganham a cor vermelha com esta planta. Isso demonstra sua importância também no artesanato e na vida cotidiana. O crajiru não é apenas uma planta útil. Ele é parte integrante da identidade material e imaterial de muitos povos.
O Crajiru na Farmacopeia Tradicional Indígena

A pintura corporal com crajiru transcende a estética: para os povos indígenas amazônicos, ela carrega significados de proteção espiritual, identidade tribal e conexão com os ancestrais. Cada padrão geométrico conta uma história e marca momentos importantes da vida. A pintura corporal com crajiru não é apenas decorativa: para os povos indígenas, ela possui função protetora contra insetos e radiação solar, além de significados espirituais profundos ligados a rituais de passagem e cura.
Se o uso como corante é o mais visível, o uso medicinal é o mais vital. O crajiru é uma das plantas mais importantes na farmacopeia de etnias como os Krahô, os Kayapó e os Apinajé. O conhecimento sobre suas propriedades é transmitido oralmente. De geração em geração, os pajés e curandeiros ensinam como e quando usar a planta. Portanto, é um saber vivo e em constante evolução.
Medicina Indígena

Na medicina indígena da Amazônia, o crajiru é planta de observação e equilíbrio. Primeiro, aprende-se a ler sinais do corpo e da floresta. Depois, as folhas viram infusão, banho ou compressa, conforme o propósito. Assim, a cor vermelha do preparo simboliza vitalidade e proteção cotidiana. Esse saber passa por gerações e orienta usos para feridas e para fraqueza.
Na medicina indígena, o crajiru é usado para uma ampla gama de enfermidades. É reconhecido como um potente remédio para diarreias e desinterias. O chá de suas folhas possui forte ação adstringente. Ele ajuda a “prender” o intestino e a combater a infecção. Também é usado para tratar feridas e úlceras. A aplicação da seiva ou do chá sobre a lesão acelera a cicatrização e previne infecções.
Outro uso muito difundido é no tratamento de anemias. Os indígenas perceberam que o consumo da planta devolvia a cor e a força às pessoas pálidas e fracas. Hoje, a ciência confirma que o crajiru é rico em ferro. Além disso, é usado para tratar inflamações ginecológicas e como um fortificante geral. Consequentemente, o crajiru é visto como uma planta que restaura o equilíbrio do corpo.
Cosmologia e Usos Rituais do Crajiru

O conhecimento sobre o crajiru é transmitido oralmente há gerações entre pajés e curandeiros. Este saber etnobotânico representa um patrimônio cultural imaterial que antecede a colonização europeia em milhares de anos.
Para os povos indígenas, a fronteira entre o físico e o espiritual é fluida. As plantas medicinais não atuam apenas no corpo. Elas também atuam no espírito. O crajiru é considerado uma planta de grande poder espiritual. Ele é usado em rituais de cura e de proteção. Acredita-se que a cor vermelha da planta tenha o poder de afastar energias negativas e maus espíritos.
Em muitos rituais de passagem, como a iniciação de jovens, o crajiru está presente. A pintura corporal com a tinta vermelha marca a transição. Ela confere força e coragem ao iniciado. Em rituais de cura, o pajé pode defumar o doente com as folhas de crajiru. A fumaça é vista como um veículo de purificação. Ela limpa o corpo e o espírito das causas da doença.
O cipó-cruz, outro nome popular do crajiru, tem uma origem simbólica. Ao se fazer um corte transversal no caule da planta, observa-se um desenho em forma de cruz. Para algumas culturas, este é um sinal sagrado. É a assinatura da natureza, indicando o poder da planta. Portanto, o respeito pelo crajiru é profundo. Ele é tratado como um ser vivo, um espírito da floresta.
Preservação do Conhecimento e Biopirataria

O crajiru cresce como trepadeira vigorosa, podendo alcançar mais de 10 metros de altura ao escalar árvores na floresta amazônica. Suas folhas trifoliadas são a parte mais utilizada na medicina tradicional, concentrando os compostos bioativos que conferem as propriedades terapêuticas à planta.
O conhecimento tradicional associado ao crajiru é um patrimônio imaterial de valor incalculável. A transmissão oral deste saber, no entanto, o torna vulnerável. A perda de território e as mudanças no estilo de vida indígena ameaçam esta herança. Se os jovens não se interessarem em aprender com os mais velhos, o conhecimento pode se perder. Por isso, projetos de valorização cultural são fundamentais.
Ao mesmo tempo, a crescente popularidade do crajiru acende um alerta. O risco de biopirataria é real. Empresas podem se apropriar do conhecimento indígena para desenvolver produtos e patentes. Elas lucram sem repartir os benefícios com as comunidades que detêm o saber. Isso é uma forma de exploração e injustiça. É essencial que haja mecanismos legais para proteger os direitos dos povos indígenas.
A Convenção da Diversidade Biológica e o Protocolo de Nagoia são marcos importantes. Eles estabelecem regras para o acesso aos recursos genéticos e a repartição de benefícios. O conhecimento tradicional associado deve ser respeitado. O uso comercial do crajiru deve garantir que as comunidades de origem sejam justamente compensadas. Consequentemente, a pesquisa e o uso da planta devem ser éticos e sustentáveis.
1. Todos os povos indígenas da Amazônia usam o crajiru?
Não necessariamente. A Amazônia é um mosaico de centenas de etnias diferentes. Cada uma possui sua própria cultura e farmacopeia. O uso do crajiru é mais documentado entre os povos do tronco linguístico Jê, no leste e sul da Amazônia. No entanto, seu uso é bastante difundido e pode ser encontrado em muitas outras comunidades, com variações locais.
2. A pintura corporal com crajiru sai com água?
O pigmento do crajiru tem uma boa fixação na pele. Ele não sai facilmente com água. A duração da pintura pode variar de vários dias a semanas. Depende da concentração da tinta e do tipo de pele. Para remover, é preciso esfregar com óleos vegetais ou sabão. Esta durabilidade era uma vantagem para o uso em rituais e na guerra.
3. O uso do crajiru pelos indígenas é apenas externo?
Não. Embora o uso como corante seja externo, o uso medicinal é tanto externo quanto interno. O chá das folhas é a principal forma de uso interno. Ele é ingerido para tratar diarreias, anemias e inflamações. O uso externo envolve a aplicação da seiva ou do chá em feridas e problemas de pele.
4. Os indígenas vendem o crajiru ou o conhecimento sobre ele?
Tradicionalmente, o conhecimento sobre as plantas medicinais não é uma mercadoria. Ele é compartilhado dentro da comunidade para o bem de todos. No entanto, com o contato com a sociedade não-indígena, algumas comunidades passaram a comercializar plantas e artesanatos. Projetos de economia sustentável buscam criar formas de geração de renda que valorizem a cultura e conservem a floresta.
5. Como a ciência pode ajudar a preservar o conhecimento indígena?
A ciência pode atuar como uma parceira, não como uma exploradora. Pesquisas etnobotânicas podem ajudar a documentar o conhecimento tradicional. Isso cria um registro que pode ajudar na sua preservação. Além disso, a validação científica das propriedades das plantas pode valorizar este saber. O importante é que a pesquisa seja feita de forma colaborativa e respeitosa, com o consentimento e a participação dos indígenas.
6. O que significa o nome “cipó-cruz”?
Este nome popular vem de uma característica anatômica da planta. Ao se fazer um corte transversal no caule lenhoso do crajiru, o arranjo dos vasos condutores forma um desenho que se assemelha a uma cruz. Esta marca é considerada por muitos como um sinal divino ou uma assinatura da natureza, indicando as propriedades curativas da planta.
7. A cor da tinta de crajiru pode variar?
Sim. A intensidade e a tonalidade do vermelho podem variar. Fatores como a idade da planta, a época da colheita e o método de preparo influenciam na cor. A adição de outras substâncias, como cinzas ou óleos, também pode alterar o resultado final. Cada povo e cada artesão pode ter seus próprios segredos para obter a cor desejada.
8. O uso do crajiru está ameaçado de extinção?
A planta em si não está ameaçada de extinção. Ela é bastante comum em sua área de ocorrência. O que está em risco é o conhecimento tradicional associado a ela. A desvalorização da cultura indígena e a perda de seus territórios são as maiores ameaças. Preservar o crajiru significa, acima de tudo, proteger os povos da floresta e seus modos de vida.
Referências Científicas
- Barbosa, W. L. R. Crajiru ou pariri (Arrabidaea chica Verlot): um corante e um medicamento da Amazônia. Revista Brasileira de Farmacognosia. 2008.
- Di Stasi, L. C.; Hiruma-Lima, C. A. Plantas medicinais na Amazônia e na Mata Atlântica. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2002.
- Polesna, L. et al. Ethnopharmacological inventory of plants used in traditional medicine of the Shuar nationality in the Amazon of Ecuador. Journal of Ethnopharmacology. 2011.
- Corrêa, M. P. Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas. 6 vols. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1926-1978.
-
Ribeiro, D. O Suma Etnológica Brasileira: Arte Índia. Vol. 3. Petrópolis: Vozes, 1986.
- Van den Berg, M. E. Plantas medicinais na Amazônia: contribuição ao seu conhecimento sistemático. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1993.
- Ministério do Meio Ambiente (Brasil). Política Nacional de Gestão Territorial e Ambiental de Terras Indígenas – PNGATI. Brasília, 2012.
- Alexiades, M. N. (Ed.). Selected guidelines for ethnobotanical research: a field manual. New York: New York Botanical Garden Press, 1996.
- Posey, D. A. Etnobiologia: teoria e prática. In: Ribeiro, B. G. (Coord.). Suma Etnológica Brasileira. Vol. 1. Etnobiologia. Petrópolis: Vozes/Finep, 1987.
- Schultes, R. E.; Hofmann, A. Plants of the Gods: Their Sacred, Healing, and Hallucinogenic Powers. Rochester: Healing Arts Press, 1992.















