A guaçatonga (Casearia sylvestris) é uma das plantas mais emblemáticas da flora medicinal brasileira, com um legado de uso que atravessa séculos de conhecimento tradicional e popular. Distribuída por quase todo o território nacional, da Floresta Amazônica às matas do sul, essa espécie reúne em folhas, cascas e raízes um conjunto complexo de compostos bioativos, associado a múltiplas atividades terapêuticas. Seu potencial é tão reconhecido que consta na RENISUS, incentivando o desenvolvimento de fitoterápicos.
O interesse pela guaçatonga não se limita ao uso empírico. Estudos farmacológicos descrevem ações anti-inflamatórias, analgésicas, cicatrizantes e, sobretudo, antiulcerogênicas, ligadas ao alívio de gastrites e úlceras. Pesquisas recentes também investigam atividades antitumorais, antivirais e antimicrobianas, ampliando o horizonte de aplicações. A seguir, reunimos história, fitoquímica, mecanismos, formas de uso e precauções, em um guia baseado em evidências sobre a planta.
O Que é a Guaçatonga?
A guaçatonga (Casearia sylvestris) é uma árvore ou arbusto da família Salicaceae, nativa de amplas áreas da América Tropical. Ela ocorre do México e Caribe ao norte da Argentina, contudo é no Brasil que se destaca, aparecendo em biomas como Mata Atlântica, Cerrado e Floresta Amazônica. Ao longo do país, recebe nomes populares como guaçatonga, erva-de-bugre, cafezeiro-do-mato, chá-de-lagarto e paratudo.
O porte é variável, alternando entre arbusto de 2 a 3 metros e árvore que pode chegar a cerca de 10 metros de altura, mantendo ciclo perene. As folhas são simples e alternadas, com formato lanceolado a elíptico, margens serrilhadas e tom verde-brilhante, características úteis para identificação. Essa morfologia, somada ao aroma e à textura, explica parte de sua presença em hortas medicinais e quintais.
As flores são pequenas, hermafroditas, esbranquiçadas ou amareladas, e surgem em inflorescências axilares discretas. Os frutos formam cápsulas globosas que, quando maduros, se abrem e liberam sementes envoltas por arilo. Esse arilo atrai aves, que atuam como dispersoras naturais, ajudando a explicar a ampla distribuição e a regeneração em bordas de mata e áreas abertas.
História e Usos Tradicionais da Guaçatonga
A história da guaçatonga é inseparável das práticas de cura indígenas na América do Sul. Antes da colonização, diferentes etnias já empregavam a planta em preparos para enfermidades comuns, variando conforme a região e o recurso disponível. No Brasil, registros descrevem macerações da casca usadas por Karajá para diarreias e disenterias, enquanto na Amazônia peruana povos Shipibo-Conibo recorriam à decocção da casca para resfriados e dores no peito.
Outro uso tradicional de grande difusão envolvia aplicações tópicas em feridas e lesões cutâneas. Em comunidades da floresta, folhas, raízes ou sementes amassadas eram colocadas sobre a pele para reduzir inflamação e favorecer recuperação, inclusive em lesões descritas como persistentes. Também se difundiu o emprego como antídoto popular para picadas de cobras e insetos, com aplicação direta no local, buscando aliviar dor e edema e, em alguns casos, neutralizar efeitos do veneno.
Com a miscigenação cultural, esse repertório foi incorporado à medicina popular e circulou por todo o Brasil. Farmacopeias populares do início do século XX já citavam a guaçatonga como antisséptico e cicatrizante para doenças de pele, analgésico tópico e, principalmente, recurso para úlceras estomacais. Essa tradição consolidou a reputação de “paratudo” e, ao mesmo tempo, inspirou investigações modernas para identificar compostos ativos e compreender mecanismos de ação com mais precisão.
Composição Fitoquímica da Casearia Sylvestris
Diterpenos Clerodânicos e Casearinas
A atividade biológica da guaçatonga está ligada a uma composição fitoquímica complexa, com destaque para diterpenos clerodânicos. Essa classe inclui compostos como casearinas (A a X), casearvestrinas e caseargrewiina, frequentemente associados às ações anti-inflamatória, antiulcerogênica, analgésica e antitumoral descritas para a espécie. A estrutura desses diterpenos favorece a interação com diferentes alvos celulares, o que ajuda a explicar a diversidade de efeitos observados em modelos experimentais.
Polifenóis, Lapachol e Óleo Essencial
Além dos diterpenos, a planta reúne outros metabólitos citados na literatura. Folhas e galhos podem apresentar lapachol, uma naftoquinona associada a atividades antifúngicas e anticancerígenas em pesquisas. Há ainda polifenóis como ácidos cafeico, clorogênico e gálico, além de flavonoides como rutina, quercetina e hesperitina, que contribuem para potencial antioxidante ao neutralizar radicais livres e reduzir estresse oxidativo.
O óleo essencial das folhas, rico em sesquiterpenos como α-zingibereno e (E)-cariofileno, é frequentemente relacionado às propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias atribuídas à espécie. Essa combinação de frações químicas sugere atuação por múltiplas vias, o que é comum em plantas medicinais e reforça a necessidade de padronização em produtos industrializados. Na prática, isso ajuda a entender por que preparos diferentes podem apresentar intensidades distintas de efeito e tolerabilidade.
Propriedades Medicinais e Benefícios Comprovados
Ação Antiulcerogênica e Proteção Gástrica
A fama da guaçatonga como protetora gástrica é um de seus usos mais estudados. Trabalhos experimentais indicam que extratos ricos em diterpenos clerodânicos reduzem lesões e favorecem a recuperação da mucosa. Entre os mecanismos descritos estão aumento de muco protetor, menor secreção ácida e inibição da H+/K+-ATPase, conhecida como “bomba de prótons”. Em conjunto, esses efeitos ajudam a explicar o uso tradicional em gastrites e úlceras.
Efeito Anti-inflamatório e Analgésico
A atividade anti-inflamatória também aparece como pilar dos benefícios atribuídos à Casearia sylvestris. Diterpenos e flavonoides são associados à inibição de mediadores inflamatórios, incluindo prostaglandinas e citocinas pró-inflamatórias, como TNF-α e IL-6, o que pode reduzir dor e edema. Esse perfil sustenta o uso como coadjuvante em inflamações do trato digestivo e em dores articulares associadas a artrite e reumatismo, além de explicar parte do efeito analgésico relatado em preparos tradicionais.
Ação Cicatrizante e Uso Dermatológico
Cicatrização e Reparação Tecidual
O uso tradicional da guaçatonga em feridas, queimaduras e dermatoses encontra respaldo em estudos que descrevem aceleração do reparo tecidual. Em modelos experimentais, a aplicação tópica de extratos promove reepitelização mais rápida, maior deposição de colágeno e melhor resistência da pele recém-formada, especialmente em queimaduras de segundo grau. Esses achados são coerentes com a combinação de ações anti-inflamatória e antioxidante, que tende a reduzir dano local e favorecer a organização do tecido em regeneração.
Ação Antimicrobiana na Pele e Mucosas
A ação contra micro-organismos reforça o uso dermatológico, pois reduzir contaminação favorece a cicatrização. Extratos e óleo essencial são descritos como ativos contra bactérias e fungos ligados a infecções de pele, como Staphylococcus aureus e Candida albicans. Por isso, a planta aparece em pomadas e cremes para lesões leves, além de bochechos para aftas e uso localizado em herpes simples, com atenção à sensibilidade individual.
Potencial Antitumoral e Evidências Pré-clínicas
Casearinas e Citotoxicidade em Laboratório
Uma das linhas de pesquisa mais promissoras envolve a atividade antitumoral atribuída a diterpenos clerodânicos, especialmente as casearinas. Desde a década de 1980, estudos identificaram efeito citotóxico in vitro, com capacidade de reduzir viabilidade de células tumorais. Pesquisas posteriores ampliaram esse panorama, descrevendo atividade contra diferentes linhagens, como leucemia, câncer de mama, próstata, cólon, ovário e melanoma. Esses resultados sustentam o interesse em isolar moléculas e explorar a guaçatonga como fonte para protótipos farmacológicos.
Mecanismos Investigados e Limites de Uso
Os mecanismos propostos incluem indução de apoptose, menor proliferação e interferência em vias de sinalização ligadas à sobrevivência tumoral. Contudo, as evidências ainda são pré-clínicas, restritas a laboratório e modelos animais. Por isso, a guaçatonga não deve ser tratada como terapia para câncer nem substituir protocolos oncológicos. Qualquer uso complementar precisa ser discutido com a equipe médica para evitar interações e atrasos no tratamento.
Formas de Uso e Dosagem
Infusão Para Uso Interno
A forma mais comum é o chá por infusão das folhas secas, usado para desconfortos digestivos. Utiliza-se 1 a 2 gramas de folhas secas, cerca de uma colher de sopa, para cada xícara de água (200 ml). Ferve-se a água, despeja-se sobre as folhas e deixa-se tampado por 10 a 15 minutos, antes de coar. Em geral, limita-se a 1 a 2 xícaras ao dia, conforme tolerância.
Uso Tópico, Extratos e Cápsulas
Para uso tópico, prepara-se decocção concentrada, fervendo cerca de 20 gramas de folhas ou cascas em 1 litro de água por 10 minutos. Depois de frio, o líquido pode ser usado em compressas, lavagens ou bochechos, conforme a finalidade. A guaçatonga também aparece como extrato fluido, tintura e cápsulas; nesses casos, siga a orientação do fabricante ou de profissional de saúde para ajustar dose e duração.
Contraindicações, Efeitos Colaterais e Interações
Em doses terapêuticas tradicionais, a guaçatonga costuma ser considerada de baixa toxicidade, e estudos em animais não relataram efeitos adversos relevantes em avaliações agudas ou crônicas. Ainda assim, por falta de dados conclusivos em humanos, recomenda-se cautela para gestantes e lactantes, evitando uso por precaução. Em pessoas sensíveis, o consumo excessivo pode causar desconforto gastrointestinal, como náuseas ou diarreia, o que reforça a importância de respeitar dosagens e evitar uso prolongado sem acompanhamento.
QUIZ - Descubra o Seu Chá Ideal
Uma atenção específica envolve anticoagulantes, pois se descreve leve efeito de “afinamento do sangue” no uso popular. Quem utiliza varfarina, heparina ou fármacos semelhantes deve conversar com o médico antes de iniciar a guaçatonga. Também é prudente cautela em hipersensibilidade a Salicaceae, observando reações. Como regra, comece com doses menores e informe ao profissional de saúde o uso de fitoterápicos, para reduzir riscos.
Perguntas Frequentes (FAQ): Uso e Finalidades
A Guaçatonga Emagrece?
Apesar do nome popular “chá-de-bugre” ser associado, em alguns contextos, a plantas vendidas com apelo de emagrecimento, não há evidências científicas robustas de que a guaçatonga promova perda de peso de forma direta. Os benefícios mais descritos envolvem proteção gástrica, ação anti-inflamatória e suporte à cicatrização, que podem melhorar bem-estar, contudo não substituem estratégia nutricional e atividade física. Por isso, não é adequado tratar a planta como produto de emagrecimento.
Posso Usar Guaçatonga Para Gastrite e Úlcera?
Essa é uma das aplicações mais estudadas da guaçatonga. A literatura descreve ações protetoras da mucosa gástrica, redução de acidez e aceleração de recuperação de lesões, o que sustenta seu uso como coadjuvante em gastrite, refluxo e úlceras. Ainda assim, sintomas persistentes exigem diagnóstico médico, pois podem indicar outras condições e demandar tratamento específico. Use a planta como complemento informado, com acompanhamento profissional, atenção às doses e observação de resposta individual.
Como Usar a Guaçatonga Para Herpes e Aftas?
Para herpes e aftas, o uso tópico costuma ser preferido, porque concentra a aplicação na área afetada. Prepara-se uma decocção com cerca de 20 gramas de folhas em 1 litro de água, ferve-se por 10 minutos e usa-se o líquido frio. No caso de aftas, fazem-se bochechos várias vezes ao dia; para herpes, aplica-se com algodão. Interrompa se houver ardor persistente, irritação ou piora, e procure avaliação se as lesões forem recorrentes.
Perguntas Frequentes (FAQ): Segurança e Interações
A Guaçatonga Pode Ser Usada Para Tratar Câncer?
Apesar de pesquisas em laboratório apontarem que alguns compostos da guaçatonga podem reduzir a viabilidade de células tumorais, isso não equivale a tratamento validado em humanos. A evidência ainda é pré-clínica e não estabelece dose, segurança nem eficácia como terapia. Portanto, a planta não deve ser usada para tratar câncer, nem para substituir quimioterapia, radioterapia ou cirurgia. Qualquer uso complementar deve ser discutido com o oncologista, evitando falsas expectativas e atrasos terapêuticos.
É Seguro Tomar o Chá de Guaçatonga Todos os Dias?
O uso diário por longos períodos não é, em geral, recomendado sem orientação profissional, porque faltam estudos conclusivos que definam segurança e duração ideais em humanos. Em fitoterapia, é comum trabalhar em ciclos, com pausas, ajustando dose conforme resposta individual e objetivo terapêutico. Para queixas crônicas, o mais prudente é buscar médico ou fitoterapeuta, definir um plano de uso e monitorar sintomas, evitando excessos e automedicação prolongada, mesmo quando o chá parece “leve”.
A Guaçatonga Tem Interação com Medicamentos?
A principal interação citada envolve anticoagulantes, devido ao relato de leve efeito de afinamento do sangue em uso popular. Assim, pessoas em uso de varfarina, heparina ou fármacos semelhantes devem evitar automedicação e conversar com o médico antes de consumir chá, tintura ou cápsulas. Também é prudente informar o uso de fitoterápicos nas consultas, porque isso ajuda a avaliar riscos e observar sinais de sangramento ou reações adversas de modo precoce.
Perguntas Frequentes (FAQ): Comparações e Compra
Qual a Diferença Entre Guaçatonga e Espinheira-Santa?
Ambas são plantas brasileiras famosas por seu uso no sistema digestivo, contudo são espécies diferentes. A espinheira-santa (Maytenus ilicifolia) também é lembrada como protetora gástrica, mas seus compostos e mecanismos de ação não são os mesmos da guaçatonga. Em algumas pessoas, os resultados práticos são semelhantes; em outras, a resposta varia. A melhor escolha depende do quadro, da tolerância e da orientação de profissional de saúde.
Onde Posso Comprar Guaçatonga de Qualidade?
A guaçatonga pode ser encontrada em lojas de produtos naturais, farmácias de manipulação e ervanários, porém a qualidade depende de procedência e identificação correta. Procure fornecedores que informem Casearia sylvestris, mantenham boas práticas de secagem e armazenamento e indiquem validade, reduzindo risco de contaminação ou troca. Quando possível, prefira produtos com controle de qualidade e rotulagem transparente, porque isso aumenta a previsibilidade de concentração e segurança do uso.
Referências e Estudos Científicos
- “Pharmacological Studies on Casearia sylvestris var. lingua.” PubMed. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38801913/.
- “Toxicity Study About a Medicinal Plant Casearia sylvestris.” PubMed. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26344853/.
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- “Healing Activity of Casearia sylvestris Sw. in Second-degree Experimental Burns.” BMC Research Notes. https://bmcresnotes.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13104-015-1251-4.
- “Folk Uses and Pharmacological Properties of Casearia sylvestris.” PubMed. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/22159347/.
- “Guaçatonga.” Rain-Tree: The Tropical Plant Database. https://www.rain-tree.com/guaçatonga.htm.
- Sertié, J. A. A., et al. “Antiulcer Activity of the Crude Extract from the Leaves of Casearia sylvestris.” Pharmaceutical Biology, 2000.
- Itokawa, H., et al. “New Antitumor Principles, Casearins AF, for Casearia sylvestris.” Chemical and Pharmaceutical Bulletin, 1990.
- “Folk Uses and Pharmacological Properties of Casearia sylvestris: A Medicinal Review.” Anais da Academia Brasileira de Ciências. https://www.scielo.br/j/aabc/a/MNnYFhgbhKqCgDhps9bwm8C/.
- De Mattos, E. S., et al. “Evaluation of Antinociceptive Activity of Casearia sylvestris and Possible Mechanism of Action.” Journal of Ethnopharmacology, 2007.
















