O visco-branco (Viscum album) é uma planta fascinante e cheia de mistérios, conhecida tanto por suas tradições culturais quanto por seu impressionante potencial medicinal. Imagine uma planta que não precisa do solo para viver, mas que escolhe os galhos de grandes árvores como sua casa, em uma relação de semiparasitíssimo que intriga botânicos há séculos. Longe de ser um simples “ladrão” de nutrientes, o visco-branco é um verdadeiro laboratório químico natural, produzindo substâncias que têm sido estudadas para tratar desde a hipertensão até o câncer.
Neste guia completo, vamos desvendar os segredos do Viscum album, explorando sua história, desde os rituais dos druidas celtas até seu uso moderno na medicina antroposófica. Você descobrirá suas propriedades farmacológicas, os compostos bioativos que o tornam tão especial, e como ele pode ser usado de forma segura e eficaz. Prepare-se para conhecer o “super-herói discreto” que vive no topo das árvores, uma planta que é um símbolo de Natal, um remédio poderoso e um exemplo incrível da complexidade da natureza.
Nomes Populares do Viscum album
- Português: agárico, azevinho, visco, visco-branco
- Espanhol: muérdago, muérdago blanco
- Inglês: european mistletoe, mistletoe
- Francês: gui, gui blanc
- Italiano: vischio
- Alemão: Mistel, Weißbeerige Mistel
- Outras Línguas: viscum (Latim)
Família Botânica

O Viscum album L. (Santalaceae) é um arbusto hemiparasita perene e dioico que forma tufos esféricos de 20 a 100 cm nos galhos de árvores hospedeiras. Possui caule dicotomicamente ramificado verde-amarelado, folhas opostas coriáceas de 2-8 cm, flores amarelo-esverdeadas inconspícuas e pseudobagas brancas translúcidas de 6-10 mm contendo sementes em polpa viscosa. Estabelece conexão vascular com o hospedeiro através de haustórios, obtendo água e sais minerais, mas mantém fotossíntese autônoma. Distribui-se pela Europa, Norte da África e Ásia temperada até 1.400 m de altitude, com três subespécies principais que se especializam em diferentes hospedeiros, influenciando sua composição fitoquímica.
O visco-branco pertence à família Santalaceae. Esta família é conhecida por agrupar plantas que, em sua maioria, são parasitas ou hemiparasitas, o que significa que elas obtêm parte ou todos os seus nutrientes de outras plantas. A Santalaceae inclui árvores, arbustos e ervas perenes, e o gênero Viscum é um dos mais representativos, com cerca de 100 espécies distribuídas pelo mundo.
Partes Usadas
- Folhas
- Frutos (bagas)
- Ramos jovens
Usos Etnobotânicos
- Ansiedade e estresse
- Arteriosclerose
- Convulsões e epilepsia
- Dores de cabeça e enxaquecas
- Hipertensão arterial
- Problemas circulatórios
- Reforço do sistema imunológico
- Tratamento complementar de câncer
- Vertigens e tonturas
Propriedades Medicinais
- Ansiolítica: (ajuda a reduzir a ansiedade e o estresse, promovendo uma sensação de calma e relaxamento)
- Anticâncer: (inibe o crescimento de células tumorais e induz a apoptose, sendo usado como terapia complementar em oncologia)
- Anticonvulsivante: (atua no sistema nervoso para prevenir ou reduzir a gravidade de convulsões e ataques epiléticos)
- Anti-inflamatória: (reduz a inflamação no corpo ao inibir vias como a da COX-2, aliviando dores e inchaços)
- Antioxidante: (combate os danos causados pelos radicais livres, protegendo as células do envelhecimento precoce e de doenças crônicas)
- Cardioprotetora: (protege o coração, melhorando a função cardíaca e regulando a pressão arterial)
- Hepatoprotetora: (protege o fígado contra danos causados por toxinas e substâncias químicas, auxiliando em sua regeneração)
- Hipotensora: (ajuda a baixar a pressão arterial, sendo útil no tratamento da hipertensão)
- Imunomoduladora: (regula e fortalece o sistema imunológico, melhorando a resposta do corpo a infecções e doenças)
- Sedativa: (promove um efeito calmante e relaxante, auxiliando no tratamento da insônia e da agitação nervosa)
Sinergia com Outras Plantas

As bagas brancas e translúcidas do Viscum album são sua assinatura visual, especialmente durante o inverno. Cada baga contém uma ou mais sementes envoltas em uma polpa extremamente pegajosa, rica em viscina. Essa substância adesiva é crucial para a dispersão da planta: quando os pássaros comem as bagas, as sementes grudam em seus bicos ou são excretadas nos galhos de outras árvores, garantindo a propagação da espécie. Embora tóxicas para humanos em grandes quantidades, as bagas são uma fonte de alimento vital para muitas aves durante os meses frios e são um componente importante nos extratos medicinais da planta.
Visco-Branco e Cardo-Mariano (Silybum marianum)
Nível de sinergia: ★★★★★
Uma dupla imbatível na proteção do fígado. Enquanto o visco-branco já possui uma ação hepatoprotetora, o cardo-mariano, com sua famosa silimarina, é o especialista em regenerar as células hepáticas. Juntos, eles formam uma barreira robusta contra danos causados por toxinas, álcool e medicamentos, sendo uma combinação excelente para terapias de desintoxicação e suporte em tratamentos agressivos.
Visco-Branco e Crataegus (Crataegus oxyacantha)
Nível de sinergia: ★★★★★
Esta é a combinação clássica da fitoterapia europeia para o coração. O crataegus é um tônico cardíaco que melhora a força de contração do músculo cardíaco, enquanto o visco-branco atua como um potente hipotensor, relaxando os vasos sanguíneos. Juntos, eles regulam a pressão arterial, melhoram a circulação coronariana e fortalecem o coração de forma segura e eficaz, sendo ideais para o tratamento de hipertensão leve a moderada e insuficiência cardíaca congestiva.
Visco-Branco e Equinácea (Echinacea purpurea)
Nível de sinergia: ★★★★★
Dois gigantes da imunomodulação trabalhando em equipe. A equinácea é famosa por sua capacidade de estimular a resposta imune inata, enquanto o visco-branco tem uma ação mais profunda, modulando tanto a imunidade inata quanto a adaptativa, incluindo a ativação de células NK (Natural Killer). A combinação é perfeita para fortalecer o sistema imunológico de forma completa, seja para prevenir infecções ou como suporte em tratamentos oncológicos.
Visco-Branco e Ginkgo (Ginkgo biloba)
Nível de sinergia: ★★★★★
Uma parceria poderosa para a saúde cerebral e circulatória. O ginkgo é conhecido por melhorar o fluxo sanguíneo para o cérebro e proteger os neurônios, enquanto o visco-branco contribui com suas propriedades antioxidantes e neuroprotetoras. Juntos, eles podem ajudar a combater os efeitos do envelhecimento cerebral, melhorar a memória e a concentração, e proteger contra o estresse oxidativo no sistema nervoso.
Visco-Branco e Ginseng (Panax ginseng)
Nível de sinergia: ★★★★★
A união da vitalidade e da modulação. O ginseng é um adaptógeno clássico, que ajuda o corpo a lidar com o estresse e aumenta a energia, enquanto o visco-branco melhora a qualidade de vida e modula o sistema imune. Essa combinação é especialmente valiosa para pacientes em recuperação ou em tratamentos desgastantes, como a quimioterapia, pois combate a fadiga, melhora o bem-estar geral e fortalece as defesas do corpo.
Visco-Branco e Cúrcuma (Curcuma longa)
Nível de sinergia: ★★★★☆
Uma dupla dinâmica anti-inflamatória. A curcumina, princípio ativo da cúrcuma, é um dos anti-inflamatórios naturais mais potentes conhecidos, e o visco-branco também possui uma forte ação inibitória sobre a via da COX-2. A combinação dos dois cria um efeito sinérgico poderoso para combater inflamações crônicas, dores articulares e doenças autoimunes, atuando em diferentes frentes do processo inflamatório.
Visco-Branco e Erva-de-São-João (Hypericum perforatum)
Nível de sinergia: ★★★★☆
Uma aliança para o equilíbrio emocional e nervoso. A erva-de-são-joão é amplamente utilizada para tratar depressão leve a moderada, enquanto o visco-branco possui propriedades ansiolíticas e sedativas. Juntos, eles podem oferecer um suporte completo para a saúde mental, ajudando a aliviar a ansiedade, melhorar o humor e promover um sono mais tranquilo. É importante, no entanto, ter cuidado com as interações medicamentosas da erva-de-são-joão.
Visco-Branco e Melissa (Melissa officinalis)
Nível de sinergia: ★★★★☆
A combinação perfeita para acalmar a mente e o corpo. A melissa, ou erva-cidreira, é famosa por suas propriedades calmantes e digestivas, enquanto o visco-branco atua como ansiolítico e hipotensor. Juntos, eles formam uma sinergia ideal para pessoas que sofrem de estresse, ansiedade e problemas de sono, especialmente quando associados a sintomas físicos como palpitações ou pressão alta de fundo nervoso.
Visco-Branco e Dente-de-Leão (Taraxacum officinale)
Nível de sinergia: ★★★☆☆
Uma parceria focada na desintoxicação. O dente-de-leão é um excelente diurético e tônico hepático, que ajuda a eliminar toxinas através da urina e da bile. O visco-branco complementa essa ação com suas propriedades hepatoprotetoras e antioxidantes. A combinação é útil em curas de desintoxicação sazonais ou para dar um suporte geral aos órgãos de eliminação do corpo.
Visco-Branco e Valeriana (Valeriana officinalis)
Nível de sinergia: ★★★☆☆
Uma dupla clássica para uma boa noite de sono. A valeriana é um dos sedativos naturais mais conhecidos, que ajuda a induzir o sono e melhorar sua qualidade. O visco-branco, com seu efeito calmante e hipotensor, complementa essa ação, ajudando a relaxar o corpo e a mente antes de dormir. É uma combinação indicada para quem sofre de insônia, especialmente aquela causada por ansiedade e preocupação.
Composição Científica (Fitoquímicos)
O Viscum album é uma verdadeira usina de compostos bioativos. Sua composição química pode variar dependendo da árvore hospedeira, da época de colheita e da subespécie, mas os principais “pozinhos mágicos” responsáveis por suas propriedades são:
- Alcaloides: (compostos orgânicos com nitrogênio que podem ter efeitos farmacológicos diversos no corpo)
- Ácidos Fenólicos: (como ácido cafeico e ácido ferúlico, que são poderosos antioxidantes e protegem as células)
- Fenilpropanoides: (classe de compostos com atividades anti-inflamatórias e antioxidantes)
- Flavonoides: (como quercetina e ramnazina, que combatem a inflamação, protegem o coração e fortalecem os vasos sanguíneos)
- Lectinas (Viscum album agglutinins – VAA): (proteínas complexas que são as principais responsáveis pelas atividades anticâncer e imunomoduladoras do visco-branco)
- Lignanas: (compostos com propriedades antioxidantes e antitumorais)
- Polióis: (como o manitol, que pode ter efeito diurético)
- Polissacarídeos: (carboidratos complexos que contribuem para a atividade imunomoduladora)
- Terpenoides: (como ácido oleanólico e ácido betulínico, que possuem efeitos anti-inflamatórios, antitumorais e cardioprotetores)
- Viscotoxinas: (pequenas proteínas que têm um efeito citotóxico, ou seja, matam células, especialmente as cancerígenas, e também contribuem para a modulação imune)
Modo de Uso

As folhas e ramos jovens do Viscum album são colhidos e secos para serem usados em diversas preparações medicinais, como chás, tinturas e extratos padronizados. O processo de secagem concentra os compostos bioativos, como flavonoides e ácidos fenólicos, potencializando suas propriedades terapêuticas. É crucial que a colheita e o processamento sejam feitos corretamente para garantir a eficácia e a segurança do produto final, já que a concentração de lectinas e viscotoxinas pode variar significativamente dependendo da época do ano e da árvore hospedeira.
Receita de Chá de Visco-Branco (Infusão)
Este chá é tradicionalmente usado por seu efeito calmante e para ajudar a regular a pressão arterial. Deve ser preparado como uma maceração a frio para evitar a degradação de alguns compostos sensíveis ao calor.
Ingredientes
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- Água fria (250 ml)
- Folhas secas de visco-branco (1 colher de chá, cerca de 2,5g)
Modo de Preparo
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- Coloque as folhas secas de visco-branco em uma xícara ou frasco de vidro.
- Despeje a água fria sobre as folhas.
- Cubra e deixe em maceração (de molho) durante a noite, por cerca de 8 a 12 horas.
- Pela manhã, coe o líquido para remover as folhas.
- Amasse levemente o líquido antes de beber, se desejar. Não aqueça o chá.
- Beba 1 a 2 xícaras por dia, de preferência sem açúcar.
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Receita de Tintura de Visco-Branco
A tintura é uma forma concentrada de extrair os princípios ativos da planta e permite um uso prático em gotas.
Ingredientes
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- Álcool de cereais a 40% ou 50% (ou vodka de boa qualidade)
- Folhas e ramos finos de visco-branco, secos e picados
Modo de Preparo
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- Encha um frasco de vidro esterilizado com 1/3 de sua capacidade com a erva seca.
- Complete o frasco com o álcool de cereais, garantindo que toda a planta fique submersa.
- Feche bem o frasco e agite vigorosamente.
- Guarde em um local escuro e fresco por 4 a 6 semanas, agitando o frasco todos os dias.
- Após o período de maceração, coe o líquido usando um filtro de pano ou café, espremendo bem para extrair todo o álcool.
- Armazene a tintura em um frasco de vidro escuro com conta-gotas.
- Uso: A dose usual é de 10 a 20 gotas, diluídas em um pouco de água, 2 a 3 vezes ao dia. Consulte sempre um profissional de saúde antes de usar.
Contraindicações e Precauções
Apesar de seus benefícios, o Viscum album é uma planta poderosa e deve ser usada com cuidado e, idealmente, sob supervisão de um profissional de saúde qualificado.
- Alergias: Pessoas com alergia conhecida a plantas da família Santalaceae devem evitar o uso.
- Crianças: O uso não é recomendado para crianças devido à falta de estudos de segurança.
- Doenças autoimunes: Como o visco-branco estimula o sistema imunológico, ele pode teoricamente piorar condições como lúpus, esclerose múltipla ou artrite reumatoide. Use com extrema cautela.
- Gravidez e amamentação: O uso é contraindicado durante a gravidez e a amamentação por falta de estudos que garantam sua segurança.
- Hipotensão: Pessoas que já têm pressão arterial baixa devem evitar o uso, pois o visco-branco pode reduzi-la ainda mais.
- Interações medicamentosas: Pode interagir com medicamentos para hipertensão, imunossupressores, sedativos e anticoagulantes. Consulte um médico se estiver tomando qualquer medicação.
- Toxicidade das bagas: As bagas do visco-branco são consideradas tóxicas e não devem ser ingeridas, especialmente em grandes quantidades. A ingestão pode causar náuseas, vômitos, diarreia e problemas cardíacos.
Curiosidades sobre o Visco-Branco
O Beijo Sob o Visco: Uma Tradição Milenar
A famosa tradição natalina de se beijar sob um ramo de visco tem raízes profundas na mitologia e no folclore europeu. Para os druidas celtas, o visco era uma planta sagrada, um presente dos céus que crescia entre o céu e a terra. Eles acreditavam que a planta possuía poderes mágicos de fertilidade, proteção e reconciliação. A colheita era um ritual solene, realizado no sexto dia da lua nova após o solstício de inverno.
Na mitologia nórdica, o visco era a única coisa que poderia matar o deus Baldur, mas após sua ressurreição, sua mãe, a deusa Frigga, declarou o visco um símbolo de amor e paz, prometendo um beijo a todos que passassem por baixo dele. Essa mistura de crenças pagãs evoluiu para o costume vitoriano que conhecemos hoje, onde um beijo sob o visco simboliza amor, amizade e boa sorte para o ano novo.
A Planta que Escolhe sua Casa

O Viscum album, conhecido como visco-branco, é uma planta hemiparasita que cresce nos galhos de diversas árvores hospedeiras, como macieiras, choupos e pinheiros. Esta imagem mostra sua forma característica de arbusto esférico, com folhas perenes e coriáceas. A planta realiza sua própria fotossíntese, mas depende da árvore hospedeira para obter água e sais minerais, uma relação simbiótica complexa que influencia diretamente sua composição fitoquímica e, consequentemente, suas propriedades medicinais. Suas bagas brancas e translúcidas, que amadurecem no inverno, são uma característica marcante e contêm uma substância pegajosa chamada viscina, essencial para sua dispersão por pássaros.
O visco-branco é um hemiparasita, o que significa que ele é um “meio-parasita”. Ele realiza sua própria fotossíntese para produzir açúcares, mas depende de uma árvore hospedeira para obter água e sais minerais. O mais fascinante é que o Viscum album se especializa! Existem três subespécies principais na Europa, cada uma com sua preferência de “casa”: o Viscum album subsp. album prefere árvores de folha caduca como macieiras e choupos; o Viscum album subsp. abietis cresce em abetos; e o Viscum album subsp. austriacum vive em pinheiros.
Essa especialização é tão importante que a composição química da planta, e consequentemente seu potencial medicinal, pode variar drasticamente dependendo da árvore em que ela cresce. Por isso, na medicina antroposófica, os extratos de visco são preparados e nomeados de acordo com a árvore hospedeira, como Iscador M (de macieira) ou Iscador P (de pinheiro).
A Arma dos Deuses e a Medicina Antroposófica
A dualidade do visco-branco como veneno e remédio é um tema central em sua história. Na mitologia nórdica, uma flecha feita de visco foi a arma que matou o invulnerável deus Baldur. Séculos depois, no início do século XX, o filósofo e cientista austríaco Rudolf Steiner, fundador da antroposofia, resgatou essa dualidade. Ele viu no visco uma planta que desafia as leis da natureza: cresce no inverno, não se orienta pela gravidade e vive entre o céu e a terra.
Steiner propôs que as forças “caóticas” e de crescimento descontrolado do visco poderiam ser usadas para combater o crescimento desordenado do câncer no corpo humano. Ele desenvolveu um processo farmacêutico complexo que combina extratos de visco colhidos no verão e no inverno, dando origem a medicamentos como o Iscador, que hoje é uma das terapias complementares mais utilizadas para o câncer na Europa, especialmente na Alemanha e Suíça.
Dispersão Inteligente: Uma Parceria com os Pássaros
Como uma planta que vive no alto das árvores se espalha? O visco-branco desenvolveu uma estratégia de dispersão brilhante em parceria com os pássaros. Suas bagas brancas e translúcidas são ricas em uma substância extremamente pegajosa chamada viscina. Pássaros como o tordo-visgueiro (Turdus viscivorus) são atraídos por essas bagas durante o inverno, quando outras fontes de alimento são escassas. Ao comerem, as sementes grudentas podem ficar presas em seus bicos.
Para se limpar, o pássaro esfrega o bico nos galhos de outras árvores, “plantando” a semente exatamente onde ela precisa estar para germinar. Alternativamente, se a semente for engolida, ela passa intacta pelo sistema digestivo do pássaro e é excretada junto com um fertilizante natural, também nos galhos de uma nova árvore hospedeira. Essa simbiose perfeita garante a sobrevivência e a propagação do visco-branco.
Um Indicador de Ar Limpo?
Embora seja um parasita, a presença de visco-branco em uma floresta ou pomar pode, paradoxalmente, ser um sinal de um ecossistema saudável. O visco-branco é sensível à poluição do ar, especialmente ao dióxido de enxofre. Em áreas com alta poluição industrial, a planta tem dificuldade para sobreviver e se reproduzir. Portanto, a presença abundante de visco-branco viçoso pode indicar uma boa qualidade do ar na região.
Além disso, a planta serve como fonte de alimento e abrigo para várias espécies de pássaros e insetos durante o inverno rigoroso, desempenhando um papel ecológico importante. Assim, embora possa enfraquecer uma árvore hospedeira individualmente, sua presença no ecossistema como um todo adiciona uma camada de complexidade e biodiversidade, mostrando que até mesmo os “parasitas” têm seu lugar no equilíbrio da natureza.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O chá de visco-branco é seguro para tomar todos os dias?
O uso contínuo de chá de visco-branco não é recomendado sem supervisão profissional. Embora seja usado para tratar condições crônicas como a hipertensão, seu uso a longo prazo deve ser monitorado por um médico ou fitoterapeuta. A planta contém compostos potentes que podem se acumular no corpo ou exigir pausas periódicas. Para a maioria das pessoas, o uso é feito em ciclos, por exemplo, durante algumas semanas seguido de uma pausa.
Posso usar o visco que cresce no meu quintal?
Não é aconselhável. Primeiro, a identificação correta da espécie é crucial, pois existem outras plantas parecidas que podem ser tóxicas. Segundo, a composição química do Viscum album varia muito dependendo da árvore hospedeira. Extratos comerciais são padronizados para garantir uma dose consistente e segura de compostos ativos. O uso da planta selvagem sem conhecimento adequado pode levar a uma dosagem ineficaz ou, pior, tóxica.
Visco-branco emagrece?
Não há evidências científicas diretas que comprovem que o visco-branco promova a perda de peso. Alguns estudos em animais com a variedade coreana da planta (Viscum album coloratum) mostraram um efeito antiobesidade e proteção contra o acúmulo de gordura no fígado, mas esses resultados não podem ser diretamente aplicados a humanos ou à subespécie europeia. O foco principal do visco-branco é na saúde cardiovascular, imunológica e como terapia complementar ao câncer.
Qual a diferença entre o visco-branco e o azevinho?
Apesar de ambos serem associados ao Natal, são plantas completamente diferentes. O visco-branco (Viscum album) é uma planta hemiparasita que cresce em árvores, com folhas esverdeadas e bagas brancas e translúcidas. O azevinho (Ilex aquifolium) é um arbusto ou árvore que cresce no solo, com folhas verde-escuras, espinhosas e brilhantes, e frutos vermelhos vivos. Ambos são tóxicos se ingeridos em grandes quantidades, mas apenas o visco-branco é amplamente utilizado na fitoterapia moderna.
O tratamento com extrato de visco-branco para câncer é aprovado?
Na Europa, especialmente na Alemanha, Suíça e Áustria, os extratos de visco-branco são aprovados como medicamentos de prescrição para terapia complementar ao câncer. Eles são usados para melhorar a qualidade de vida dos pacientes, reduzir os efeitos colaterais da quimioterapia e radioterapia, e estimular o sistema imunológico. No entanto, nos Estados Unidos, a FDA (Food and Drug Administration) não aprovou o visco-branco para o tratamento de nenhuma doença, e seu uso é considerado uma terapia alternativa ou complementar.
Por que a árvore hospedeira é tão importante?
A árvore hospedeira funciona como o “solo” do visco-branco, fornecendo-lhe água e minerais. A interação entre o parasita e o hospedeiro influencia quais compostos a planta irá produzir e em que quantidade. Por exemplo, o visco que cresce em um pinheiro terá uma composição fitoquímica diferente daquele que cresce em uma macieira. A medicina antroposófica leva isso tão a sério que desenvolve extratos específicos para cada tipo de hospedeiro, acreditando que eles são mais adequados para tratar diferentes tipos de câncer.
Posso tomar chá de visco-branco para pressão alta?
O visco-branco é tradicionalmente usado para ajudar a baixar a pressão arterial, e alguns estudos clínicos preliminares apoiam esse uso. No entanto, a automedicação para hipertensão é perigosa. Se você tem pressão alta, deve sempre consultar um médico. O visco-branco pode interagir com medicamentos anti-hipertensivos, potencializando seu efeito e causando uma queda perigosa na pressão. O uso só deve ser feito com acompanhamento profissional.
As bagas do visco-branco são venenosas?
Sim, as bagas são consideradas a parte mais tóxica da planta para humanos. A ingestão de uma pequena quantidade (1 a 3 bagas) pode não causar sintomas graves em um adulto, mas a ingestão de quantidades maiores pode levar a náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e, em casos raros e extremos, problemas cardíacos e convulsões. Crianças são especialmente vulneráveis. Por isso, todo o uso medicinal do visco-branco é feito com as folhas e ramos, e as preparações são cuidadosamente dosadas.
O que são lectinas e viscotoxinas?
São os dois grupos de compostos mais importantes e potentes do visco-branco. As lectinas são proteínas que têm a capacidade de se ligar a açúcares na superfície das células. Essa propriedade permite que elas modulem o sistema imunológico (ativando células de defesa) e induzam a apoptose (morte celular programada) em células cancerígenas.
As viscotoxinas são proteínas menores que têm um efeito citotóxico direto, ou seja, elas conseguem “perfurar” a membrana das células, causando sua morte. Elas também contribuem para a resposta imune. A combinação desses dois compostos é o que torna o visco-branco uma ferramenta tão poderosa na terapia complementar ao câncer.
O visco-branco pode curar o câncer?
Não. É fundamental entender que o visco-branco não é uma “cura” para o câncer. Ele é usado como uma terapia complementar ou adjuvante, o que significa que é usado junto com os tratamentos convencionais (quimioterapia, radioterapia, cirurgia). Os estudos mostram que seu principal benefício é melhorar a qualidade de vida dos pacientes, reduzir os efeitos colaterais dos tratamentos convencionais, diminuir a dor e fortalecer o sistema imunológico para que o próprio corpo possa combater melhor a doença. Algumas pesquisas sugerem que ele pode ajudar a retardar o crescimento do tumor, mas ele não substitui os tratamentos médicos padrão.
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