O Sistema Único de Saúde reconhece oficialmente o valor da fitoterapia desde 2006, quando o Ministério da Saúde instituiu a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF) para orientar o uso seguro e racional de plantas medicinais dentro da rede pública. Essa política ganhou um instrumento prático em 2009, com a criação da Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS, conhecida pela sigla RENISUS: uma lista de 71 espécies selecionadas por seu potencial terapêutico e pela força do conhecimento tradicional que sustenta seu uso em todo o território brasileiro.
Este guia reúne a estrutura completa do programa, apresenta em detalhes as principais plantas da RENISUS e explica, passo a passo, como qualquer cidadão pode acessar esses fitoterápicos gratuitamente em uma Unidade Básica de Saúde. Ao final, você também encontra a lista completa das 71 espécies, com links para o perfil de cada uma, e um conjunto de perguntas frequentes que reúne as dúvidas mais comuns sobre o tema.
Sumário do Artigo
- A História da RENISUS e da Política Nacional de Plantas Medicinais
- Objetivos da RENISUS e Critérios de Seleção das 71 Espécies
- Como Ter Acesso a Plantas Medicinais e Fitoterápicos no SUS
- Principais Plantas Medicinais da RENISUS
- Benefícios da Fitoterapia no Sistema Único de Saúde
- Desafios e o Futuro da Fitoterapia no SUS
- A Riqueza da Biodiversidade Brasileira como Fonte de Saúde
- Como Usar Plantas Medicinais com Segurança
- Conhecimento Tradicional e Validação Científica
- O Papel da Anvisa na Regulamentação de Fitoterápicos
- Impacto Econômico e Social da Cadeia Produtiva de Fitoterápicos
- Educação em Saúde e o Combate à Desinformação sobre Plantas Medicinais
- Um Olhar Integrado entre Tradição, Ciência e Saúde Pública
- Lista Completa das 71 Plantas Medicinais do SUS (RENISUS)
- Perguntas Frequentes sobre Plantas Medicinais no SUS
A História da RENISUS e da Política Nacional de Plantas Medicinais
O uso terapêutico de plantas acompanha a história do Brasil desde muito antes da chegada dos europeus, sustentado pelo conhecimento de povos indígenas, comunidades quilombolas e populações ribeirinhas que aprenderam, ao longo de séculos, a reconhecer o potencial das espécies nativas. Esse saber popular se manteve vivo mesmo quando a medicina oficial se distanciou dele, e foi só a partir da segunda metade do século 20 que o poder público passou a olhar para essa tradição com outros olhos, estimulado também por recomendações da Organização Mundial da Saúde a favor da valorização das medicinas tradicionais.
Um marco importante veio em 1983, quando o professor Francisco José de Abreu Matos concebeu o programa Farmácia Viva, um modelo que reúne cultivo, processamento e dispensação de plantas medicinais em um só lugar. A proposta ganhou escala nacional apenas em 2010, quando foi formalmente institucionalizada pelo Ministério da Saúde, e hoje mais de 800 municípios brasileiros mantêm unidades de Farmácia Viva em funcionamento.

Foi nesse contexto de amadurecimento institucional que o Ministério da Saúde publicou, em 2006, a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos, documento que estabeleceu as diretrizes para garantir o acesso seguro e o uso racional dessas plantas dentro do SUS. Em 2009, a política ganhou um braço técnico mais específico com a criação da RENISUS, lista que passou a nortear investimentos em pesquisa, produção de fitoterápicos e formação de profissionais de saúde em todo o país.
Objetivos da RENISUS e Critérios de Seleção das 71 Espécies
A RENISUS não é uma lista fechada de tratamentos aprovados, mas um instrumento de priorização. Seu papel principal é apontar, entre as milhares de espécies vegetais usadas popularmente no Brasil, quais têm o potencial mais promissor para orientar pesquisas científicas e justificar investimento público. A seleção das 71 espécies levou em conta tanto o volume de evidência já disponível quanto a força do uso tradicional documentado em diferentes regiões do país.
Outro objetivo central da lista é fortalecer a cadeia produtiva nacional de fitoterápicos. Ao sinalizar quais plantas merecem atenção prioritária, a RENISUS orienta laboratórios públicos, universidades e cooperativas de agricultura familiar sobre onde concentrar esforços de cultivo, manejo sustentável e industrialização, o que ajuda a reduzir a dependência de matéria-prima importada e a gerar renda em regiões produtoras.
Por fim, a RENISUS busca reconhecer formalmente o conhecimento tradicional como parte legítima do saber em saúde. Comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas que preservam esse conhecimento há gerações passam a ser vistas como parceiras do sistema público, não apenas como fonte de informação a ser extraída, e essa integração entre saber popular e validação científica é hoje um dos pilares da fitoterapia oferecida pelo SUS.
Como Ter Acesso a Plantas Medicinais e Fitoterápicos no SUS
O acesso aos fitoterápicos da RENISUS começa, na maioria dos casos, por uma consulta em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Ali, um profissional habilitado (médico, dentista ou, conforme o protocolo local, enfermeiro) avalia a queixa do paciente e verifica se um fitoterápico é indicado para aquela situação específica. Com a prescrição em mãos, o paciente pode retirar o produto diretamente na farmácia da UBS, quando o município disponibiliza aquele item.

Grande parte dessa produção acontece dentro do programa Farmácia Viva, em hortos medicinais municipais onde as espécies da RENISUS são cultivadas organicamente, colhidas no ponto certo e processadas em chás, tinturas, géis e pomadas sob controle de qualidade. Esse modelo de produção local reduz significativamente o custo do tratamento em comparação a medicamentos industrializados e garante rastreabilidade completa, do plantio até a entrega ao paciente.
A disponibilidade de cada planta varia de cidade para cidade, já que a gestão da atenção básica é descentralizada e cada município decide, conforme sua estrutura e demanda local, quais fitoterápicos vai oferecer. Por isso é sempre recomendável procurar a UBS mais próxima e perguntar diretamente sobre o programa de plantas medicinais em vigor na região.
Principais Plantas Medicinais da RENISUS
A lista da RENISUS reúne espécies de biomas diferentes, com propriedades muito variadas, mas todas com uso tradicional consolidado e algum nível de estudo científico que sustenta sua inclusão. A seguir, um panorama das plantas mais conhecidas e mais dispensadas dentro do SUS, organizadas em ordem alfabética.
Alcachofra (Cynara scolymus)

A alcachofra entrou na RENISUS por seu efeito sobre o fígado e sobre o metabolismo de gorduras. A cinarina, seu principal composto ativo, estimula a produção de bile e favorece a digestão, enquanto os flavonoides presentes na planta são estudados por seu possível papel auxiliar no controle do colesterol LDL, sempre como parte de um acompanhamento clínico e nunca como substituto de um tratamento já prescrito. Curiosamente, o que comemos como coração da alcachofra é o receptáculo da flor ainda fechada, mas são as folhas da base da planta que concentram a maior quantidade de princípios ativos usados nos extratos fitoterápicos.
Aroeira (Schinus terebinthifolia)

A aroeira foi incluída na RENISUS por sua ação antimicrobiana e anti-inflamatória, especialmente relevante na saúde ginecológica. O SUS disponibiliza um gel vaginal de aroeira como apoio ao tratamento de vaginites, sempre sob orientação médica, com resultados que estudos associam a taninos e triterpenos presentes na casca da planta. Vale lembrar que os frutos da aroeira, conhecidos como pimenta-rosa, são usados na culinária, mas é a casca, e não o fruto, que concentra as propriedades medicinais estudadas, uma distinção importante para o uso correto e seguro da espécie.
Babosa (Aloe vera)

Reconhecida na RENISUS por sua ação cicatrizante, a babosa tem no gel transparente de suas folhas o principal ativo terapêutico. Rico em polissacarídeos como a acemanana, esse gel favorece a proliferação de fibroblastos e a produção de colágeno, o que ajuda a pele a se recuperar de queimaduras leves e feridas superficiais. É essencial usar apenas o gel transparente e descartar a casca e a seiva amarelada, chamada aloína, que é tóxica se ingerida; por esse motivo, tanto a Anvisa quanto o SUS regulamentam o uso da babosa apenas para aplicação tópica, já que faltam estudos conclusivos de segurança para seu consumo por via oral.
Calêndula (Calendula officinalis)

As flores da calêndula concentram triterpenos e flavonoides com reconhecida ação cicatrizante e anti-inflamatória tópica, o que torna a planta um recurso valioso no cuidado de feridas, queimaduras leves, assaduras e dermatites, sempre com acompanhamento profissional para lesões mais extensas ou profundas. A cor vibrante das pétalas, que varia do amarelo ao laranja, indica alta concentração de carotenoides, precursores da vitamina A. Além do uso medicinal, a calêndula também é comestível: suas pétalas aparecem em saladas e para colorir pratos, o que lhe rendeu o apelido popular de açafrão dos pobres.
Camomila (Matricaria chamomilla)

A camomila deve seu lugar na RENISUS à combinação de ação calmante, anti-inflamatória e digestiva. A apigenina, um de seus principais flavonoides, interage com receptores cerebrais e produz um efeito tranquilizante suave, enquanto o alfa-bisabolol contribui com propriedades anti-inflamatórias e antiespasmódicas. Essa versatilidade explica por que a camomila está entre as plantas mais dispensadas nas Farmácias Vivas do SUS, com uso tradicional bem estabelecido desde cólicas em bebês até quadros leves de ansiedade em adultos, sempre respeitando a orientação de um profissional de saúde. Além do chá, o óleo essencial de camomila também é usado em aromaterapia e em produtos tópicos para a pele.
Carqueja (Baccharis trimera)

Planta exclusivamente sul-americana, a carqueja entrou na RENISUS por sua ação digestiva e por seu possível efeito protetor sobre o fígado. Rica em flavonoides e terpenos, ela é tradicionalmente usada para aliviar má digestão e dispepsia, além de ser estudada como coadjuvante em queixas hepáticas leves, sempre como parte de um cuidado orientado por profissional de saúde. O sabor amargo característico costuma ser associado à sua ação sobre o fígado. Do ponto de vista botânico, a curiosidade é que a carqueja não tem folhas verdadeiras: suas funções de fotossíntese acontecem nas próprias hastes verdes e aladas, o que a torna fácil de identificar no campo.
Cúrcuma (Curcuma longa)

Também chamada de açafrão-da-terra, a cúrcuma entrou na RENISUS graças às evidências sobre sua ação anti-inflamatória e antioxidante. A curcumina, seu principal polifenol, é estudada por seu possível papel de apoio em quadros inflamatórios articulares, como parte de um cuidado multiprofissional e nunca em substituição a um tratamento já prescrito. Para melhorar a absorção da curcumina, costuma-se recomendar o consumo junto com uma pitada de pimenta-do-reino, rica em piperina. A mesma cor amarela intensa que faz da cúrcuma um corante alimentar popular já foi usada, historicamente, para tingir as vestes de monges budistas, muito antes de suas propriedades despertarem o interesse da ciência ocidental.
Equinácea (Echinacea purpurea)

A equinácea foi incluída na RENISUS por seu possível papel em reduzir a duração e a intensidade de sintomas de infecções respiratórias, funcionando como uma estratégia preventiva de baixo custo em períodos de maior circulação de vírus respiratórios. Por atuar sobre o sistema imunológico, o uso da equinácea costuma ser recomendado em ciclos, e não de forma contínua. Originária da América do Norte, a planta era a mais importante na farmacopeia dos povos indígenas das Grandes Planícies, usada tradicionalmente para queixas que iam de picadas de cobra a dores de dente. Seu nome vem do grego echinos, que significa ouriço-do-mar, uma referência ao formato espinhoso do centro de sua flor.
Erva-Baleeira (Cordia verbenacea)

A erva-baleeira é um dos maiores exemplos de sucesso da fitoterapia brasileira: foi a partir dela que se desenvolveu o Acheflan, o primeiro fitoterápico totalmente nacional a receber patente internacional. O composto responsável por sua ação anti-inflamatória é o alfa-humuleno, que atua inibindo seletivamente a enzima COX-2, associada à dor e à inflamação, e que vem sendo estudado como apoio complementar no alívio de dores musculares e articulares, com um perfil de segurança que diferentes pesquisas comparam ao de anti-inflamatórios sintéticos. A planta é comum ao longo do litoral brasileiro e já era usada por pescadores para aliviar dores e inflamações do trabalho diário, um uso popular que acabou inspirando toda a linha de pesquisa científica sobre a espécie.
Saiba mais sobre a Erva-Baleeira
Erva-Cidreira (Melissa officinalis)

Presente na RENISUS por seu efeito calmante, a erva-cidreira tem no ácido rosmarínico um de seus principais compostos ativos, atuando sobre o sistema nervoso central e ajudando a aliviar espasmos gastrointestinais de origem nervosa. É tradicionalmente utilizada como apoio no alívio de sintomas leves de ansiedade e de distúrbios do sono, uma alternativa suave para quem busca uma opção natural sob orientação de um profissional de saúde. O nome melissa vem do grego e significa abelha, uma referência ao aroma cítrico da planta, que atrai esses insetos; por séculos, a erva-cidreira foi cultivada perto de colmeias justamente para manter as abelhas por perto.
Saiba mais sobre a Erva-Cidreira
Espinheira-Santa (Maytenus ilicifolia)

Incluída na RENISUS como gastroprotetor natural, a espinheira-santa é estudada como apoio complementar no manejo de sintomas de gastrite e no cuidado de úlceras, sempre em conjunto com acompanhamento médico. Seus polissacarídeos e taninos formam uma camada protetora sobre a mucosa gástrica, enquanto os triterpenos ajudam a reduzir a secreção de ácido clorídrico, uma dupla ação que explica seu uso consolidado em quadros digestivos crônicos. O nome popular vem do formato espinhoso das folhas e da fama antiga de remédio santo para o estômago, uma tradição que a ciência acabou confirmando ao validar boa parte de seus efeitos digestivos.
Saiba mais sobre a Espinheira-Santa
Gengibre (Zingiber officinale)

O gengibre entrou na RENISUS por seu reconhecido apoio no alívio de náuseas e enjoos, inclusive em gestantes e em pacientes em tratamento oncológico, sempre sob orientação médica nesses casos específicos. O gingerol, seu principal composto ativo, age no trato gastrointestinal e no sistema nervoso central para reduzir a sensação de enjoo, e sua ação anti-inflamatória também é estudada como possível apoio em dores articulares. Consumida no mundo todo há mais de 5.000 anos, na China e na Índia, essa especiaria milenar teve seu uso tradicional resgatado e validado cientificamente pelo SUS, o que a tornou acessível a toda a população.
Ginkgo (Ginkgo biloba)

O ginkgo foi incorporado à RENISUS como apoio em queixas circulatórias cerebrais leves e em quadros iniciais de declínio cognitivo, sempre sob acompanhamento médico. Seu extrato padronizado é indicado, entre outras finalidades, para tontura e zumbido no ouvido de origem vascular, e é estudado por seu possível papel de auxílio à memória e à concentração em pessoas idosas, graças à melhora do fluxo sanguíneo cerebral e à proteção dos neurônios contra danos oxidativos. Considerado um fóssil vivo, o ginkgo é a única espécie sobrevivente de uma ordem de plantas que existia há mais de 270 milhões de anos, e algumas árvores na China têm mais de 1.500 anos de idade.
Saiba mais sobre o Ginkgo Biloba
Guaco (Mikania glomerata)

O guaco é uma das plantas brasileiras mais importantes da RENISUS para queixas respiratórias. O xarope de guaco, produzido pelo SUS, é utilizado tradicionalmente para aliviar tosses e sintomas de bronquite e de asma leve, sendo um dos fitoterápicos mais prescritos na atenção básica e um exemplo de sucesso da fitoterapia no sistema público. A cumarina, seu principal composto, relaxa a musculatura dos brônquios e facilita a eliminação do muco. Além do xarope, as folhas frescas ou secas são usadas em infusões caseiras, mas a padronização do fitoterápico do SUS garante a dose correta e a ausência de contaminantes, o que também estimula a agricultura familiar responsável pela produção descentralizada nas Farmácias Vivas.
Maracujá (Passiflora incarnata)

Presente na RENISUS por seu efeito calmante, o maracujá é tradicionalmente utilizado como apoio no alívio de sintomas leves a moderados de ansiedade, sempre como parte de um acompanhamento com profissional de saúde. Flavonoides como a crisina atuam em receptores GABA no cérebro, promovendo relaxamento sem o mesmo risco de dependência associado a alguns medicamentos controlados. O uso das folhas em chá é a forma mais tradicional, mas o SUS prioriza o extrato padronizado em comprimidos ou solução oral, o que garante dosagem consistente e reforça a credibilidade da fitoterapia dentro do sistema de saúde.
Unha-de-Gato (Uncaria tomentosa)

Planta amazônica reconhecida por suas propriedades imunomoduladoras e anti-inflamatórias, a unha-de-gato é indicada no SUS como adjuvante em doenças reumáticas, como artrite e osteoartrite, sempre sob orientação médica. Seus alcaloides oxindólicos pentacíclicos regulam a resposta imune em vez de simplesmente estimulá-la, o que é considerado mais seguro do que uma estimulação indiscriminada do sistema imunológico. O nome vem dos espinhos curvos do caule, que lembram as garras de um felino, e o conhecimento sobre seu uso foi aprendido com povos indígenas da Amazônia, como os Ashaninka, que utilizam a planta há séculos para tratar inflamações e fortalecer o corpo.
Saiba mais sobre a Unha-de-Gato
Valeriana (Valeriana officinalis)

A valeriana está na RENISUS como indutora natural do sono, permitindo ao SUS oferecer apoio a quadros de insônia sem recorrer, de imediato, a hipnóticos sintéticos, especialmente entre idosos atendidos na atenção primária. O ácido valerênico, um de seus principais compostos, aumenta a disponibilidade do neurotransmissor GABA, o que ajuda a acalmar a atividade cerebral e facilita o início do sono, geralmente sem a sonolência residual associada a alguns soníferos convencionais. O odor forte e característico da raiz, com frequência descrito como desagradável, sinaliza a presença dos compostos ativos; curiosamente, embora acalme humanos, a valeriana tem efeito estimulante em gatos, de forma parecida com a erva-gateira, ou catnip.
Benefícios da Fitoterapia no Sistema Único de Saúde
A incorporação da fitoterapia ao SUS amplia, na prática, as opções de tratamento disponíveis para a população, especialmente na atenção primária, onde queixas de saúde comuns, como insônia leve, ansiedade, problemas digestivos e dores musculares, podem encontrar uma resposta terapêutica adicional, sempre articulada com o restante do cuidado clínico oferecido pelo profissional de saúde.
Há também um ganho cultural relevante. O uso de plantas medicinais integra a história e a identidade de comunidades em todo o Brasil, e ao incorporar essa prática de forma estruturada, o SUS reconhece formalmente um saber que muitas vezes ficou à margem da medicina oficial, o que estimula a troca de conhecimento entre profissionais de saúde e população e torna o cuidado mais participativo.
Por fim, a fitoterapia oferecida pelo SUS tem um componente de sustentabilidade importante. O cultivo local de plantas da RENISUS movimenta a economia de pequenos produtores, promove a conservação de espécies nativas e reduz a dependência de insumos importados, unindo saúde pública e desenvolvimento sustentável em um único programa.
Desafios e o Futuro da Fitoterapia no SUS
Apesar dos avanços das últimas duas décadas, a fitoterapia dentro do SUS ainda enfrenta obstáculos relevantes. A falta de informação de qualidade é um dos principais: muitos profissionais de saúde recebem pouca formação específica sobre plantas medicinais durante a graduação, e boa parte da população desconhece que tem direito a esses tratamentos gratuitamente.
O investimento em pesquisa clínica também precisa crescer. Embora a RENISUS oriente onde concentrar esforços, os recursos disponíveis para estudos com plantas brasileiras ainda são limitados diante do potencial da nossa biodiversidade, e ampliar essas pesquisas é fundamental para consolidar a confiança de médicos e pacientes no uso desses fitoterápicos.
Ainda assim, a tendência é de expansão. A busca por práticas de saúde mais sustentáveis, aliada à valorização crescente da biodiversidade e do conhecimento tradicional, aponta para uma fitoterapia cada vez mais presente na rede pública brasileira, com potencial para transformar o país em referência internacional na área.
A Riqueza da Biodiversidade Brasileira como Fonte de Saúde
O Brasil concentra a maior biodiversidade do planeta, uma riqueza que se traduz em potencial concreto para a saúde pública. Biomas como a Amazônia, o Cerrado, a Mata Atlântica e a Caatinga abrigam milhares de espécies vegetais, muitas delas com compostos de interesse farmacológico ainda pouco estudados.
A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos reconhece esse potencial e incentiva o uso sustentável da flora nacional, com a pesquisa científica ocupando papel central na identificação de novas moléculas e na validação do uso tradicional. A RENISUS é um reflexo direto dessa estratégia, ao priorizar espécies nativas com grande potencial terapêutico e produtivo.
Valorizar essa biodiversidade gera benefícios que vão além da saúde: promove a conservação ambiental, fortalece uma bioeconomia sustentável e beneficia diretamente as comunidades locais que, historicamente, são as guardiãs desse conhecimento sobre as plantas do território brasileiro.
Como Usar Plantas Medicinais com Segurança
Mesmo sendo naturais, plantas medicinais podem causar efeitos adversos e interações, e a segurança no seu uso deve ser sempre a prioridade. A orientação de um profissional de saúde, como médico, farmacêutico ou fitoterapeuta habilitado, é indispensável para garantir que a escolha da planta, a forma de preparo e a dosagem sejam adequadas ao caso de cada pessoa.
A procedência do material vegetal também importa. Plantas colhidas em locais poluídos podem estar contaminadas, e a secagem e o armazenamento inadequados comprometem sua qualidade; por isso, adquirir plantas de fontes confiáveis, como as Farmácias Vivas do SUS, é essencial para garantir segurança.
A dosagem correta é outro ponto de atenção: fatores como idade, peso e condição de saúde de cada pessoa influenciam a quantidade adequada de planta a ser usada, e o uso excessivo pode levar a intoxicação. Seguir a orientação do profissional de saúde responsável, sem recorrer à automedicação, é a forma mais segura de aproveitar os benefícios da fitoterapia.
Conhecimento Tradicional e Validação Científica
A fitoterapia oferecida pelo SUS se apoia em dois pilares complementares. O primeiro é o conhecimento tradicional, construído ao longo de séculos e transmitido de geração em geração por comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, uma sabedoria empírica que serve de base para muitos dos tratamentos hoje disponíveis na rede pública.
O segundo pilar é a validação científica. A pesquisa busca comprovar a eficácia e a segurança de cada planta, isolando princípios ativos, estudando mecanismos de ação no organismo e testando efeitos em ensaios clínicos, o que traz rigor e precisão ao uso terapêutico das espécies.
A integração entre esses dois saberes é o cenário ideal: o conhecimento tradicional aponta caminhos promissores para a pesquisa, e a ciência qualifica e aprimora o uso popular, uma aliança que o SUS busca promover de forma contínua e que resulta em um cuidado mais rico, seguro e culturalmente relevante.
O Papel da Anvisa na Regulamentação de Fitoterápicos
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem papel central na garantia da qualidade dos fitoterápicos disponíveis no Brasil, estabelecendo normas que abrangem desde o cultivo da matéria-prima vegetal até a comercialização do produto final.
Para ser registrado, um fitoterápico precisa comprovar eficácia e segurança por meio de estudos pré-clínicos e, quando exigido, clínicos, com a Anvisa analisando detalhadamente os dados apresentados antes de autorizar a venda de qualquer produto ao público.
A rotulagem também é regulamentada: cada rótulo deve trazer posologia, contraindicações e possíveis efeitos adversos de forma clara, o que orienta tanto o consumidor quanto os profissionais de saúde. A fiscalização da Anvisa ainda ajuda a combater a pirataria e a propaganda enganosa, mantendo o mercado de fitoterápicos mais seguro e transparente.
Impacto Econômico e Social da Cadeia Produtiva de Fitoterápicos
A cadeia produtiva de plantas medicinais movimenta a economia de diversas regiões do Brasil. O cultivo dessas espécies é fonte de renda para a agricultura familiar, o que fortalece a produção local e sustentável e gera empregos em comunidades que muitas vezes têm poucas outras alternativas econômicas.
A indústria nacional de fitoterápicos também tem espaço para crescer: a biodiversidade brasileira é um diferencial competitivo importante, e o investimento em pesquisa e tecnologia pode impulsionar o desenvolvimento de novos produtos, inclusive com potencial de exportação.
Essa cadeia produtiva também tem um componente de inclusão social: a legislação brasileira prevê a repartição justa dos benefícios com as comunidades tradicionais detentoras do conhecimento sobre as plantas, um princípio importante para que a bioeconomia se desenvolva de forma justa e sustentável.
Educação em Saúde e o Combate à Desinformação sobre Plantas Medicinais
A educação em saúde é uma ferramenta importante contra a desinformação sobre fitoterapia. Muitas pessoas ainda acreditam que produtos naturais não fazem mal em nenhuma hipótese, enquanto outras desconfiam completamente da sua eficácia; os dois extremos podem ser prejudiciais e afastar a população de um cuidado seguro e informado.
As equipes de saúde da família têm papel importante na disseminação de informação correta, explicando tanto os benefícios quanto os riscos das plantas medicinais em palestras, materiais educativos e no próprio atendimento clínico do dia a dia.
A comunicação também importa: divulgar informação científica de forma clara e acessível ajuda a mostrar que a fitoterapia é uma prática séria, baseada em evidências, e a parceria entre ciência, saúde pública e comunicação segue sendo fundamental para o avanço desse campo no Brasil.
Um Olhar Integrado entre Tradição, Ciência e Saúde Pública
A RENISUS é bem mais do que uma lista de espécies: ela representa um movimento de valorização da biodiversidade brasileira e do conhecimento tradicional do nosso povo, construindo uma ponte concreta entre o saber ancestral e a ciência moderna.
Ao integrar a fitoterapia ao Sistema Único de Saúde, o Brasil oferece à população mais uma opção de cuidado, que une sustentabilidade ambiental, desenvolvimento social e uma abordagem terapêutica culturalmente próxima da realidade de muitas famílias brasileiras. Ainda há desafios pela frente, mas os resultados já alcançados mostram que o investimento nessa área vale a pena.
Lista Completa das 71 Plantas Medicinais do SUS (RENISUS)
- Abacateiro (Persea americana)
- Abacaxi (Ananas comosus)
- Açafrão-da-Terra (Curcuma longa)
- Alcachofra (Cynara scolymus)
- Alecrim-Pimenta (Lippia sidoides)
- Alfavacão (Ocimum gratissimum)
- Alho (Allium sativum)
- Amora (Morus spp)
- Amor-Crescido (Portulaca pilosa)
- Andiroba (Carapa guianensis)
- Arnica (Solidago microglossa)
- Aroeira (Schinus terebinthifolius)
- Arruda (Ruta graveolens)
- Artemísia (Artemisia absinthium)
- Assa-Peixe (Vernonanthura spp)
- Babaçu (Orbignya speciosa)
- Babosa (Aloe spp)
- Barbatimão (Stryphnodendron adstringens)
- Boldo-Baiano (Vernonia condensata)
- Boldo-Brasileiro (Plectranthus barbatus)
- Caju (Anacardium occidentale)
- Calêndula (Calendula officinalis)
- Camomila (Matricaria chamomilla)
- Cana-do-Brejo (Costus spp)
- Carqueja (Baccharis trimera)
- Cáscara-Sagrada (Frangula purshiana)
- Cavalinha (Equisetum arvense)
- Chambá (Justicia pectoralis)
- Colônia (Alpinia spp)
- Copaíba (Copaifera spp)
- Crajiru (Fridericia chica)
- Cravo-de-Defunto (Tagetes minuta)
- Erva-Baleeira (Varronia curassavica)
- Erva-de-Bicho (Polygonum spp)
- Espinheira-Santa (Maytenus spp)
- Eucalipto (Eucalyptus globulus)
- Folha-da-Fortuna (Kalanchoe pinnata)
- Funcho (Foeniculum vulgare)
- Garra-do-Diabo (Harpagophytum procumbens)
- Gengibre (Zingiber officinale)
- Goiabeira (Psidium guajava)
- Guaco (Mikania glomerata)
- Guaçatonga (Casearia sylvestris)
- Ipê-Roxo (Tabebuia avellanedae)
- Jambolão (Syzygium spp)
- Jurubeba (Solanum paniculatum)
- Malva (Malva sylvestris)
- Maracujá (Passiflora spp)
- Marupari (Eleutherine plicata)
- Mastruz (Chenopodium ambrosioides)
- Melão-de-São-Caetano (Momordica charantia)
- Mil-Folhas (Achillea millefolium)
- Mulungu (Erythrina mulungu)
- Pata-de-Vaca (Bauhinia spp)
- Pau-Ferro (Libidibia ferrea)
- Picão (Bidens pilosa)
- Pinhão-Roxo (Jatropha gossypiifolia)
- Pitangueira (Eugenia uniflora)
- Poejo (Mentha pulegium)
- Quebra-Pedra (Phyllanthus spp)
- Romãzeira (Punica granatum)
- Sacaca (Croton spp)
- Salgueiro (Salix alba)
- Salsa (Petroselinum sativum)
- Soja (Glycine max)
- Tanchagem (Plantago major)
- Trevo-Vermelho (Trifolium pratense)
- Unha-de-Gato (Uncaria tomentosa)
- Urtiga-Branca (Lamium album)
- Valeriana (Valeriana officinalis)
- Verônica-Verdadeira (Dalbergia subcymosa)
Perguntas Frequentes sobre Plantas Medicinais no SUS
Qualquer Médico do SUS Pode Prescrever um Fitoterápico da RENISUS?
Sim. Qualquer profissional de saúde habilitado para prescrição, como médicos, dentistas e, conforme o protocolo local, enfermeiros, pode prescrever um fitoterápico da RENISUS. A única condição é que esse profissional tenha conhecimento sobre indicação, posologia e segurança da planta, e que o produto esteja disponível na rede de saúde daquele município.
Os Fitoterápicos do SUS São Tão Eficazes quanto os Remédios Alopáticos?
Para as indicações em que foram estudados, os fitoterápicos da RENISUS apresentam resultados considerados satisfatórios pela literatura científica disponível. As plantas da lista passaram por uma seleção que leva em conta evidências de eficácia e segurança para condições específicas, e em alguns casos, como o do Acheflan, à base de erva-baleeira, estudos apontam resultados comparáveis aos de anti-inflamatórios sintéticos, sempre dentro do uso indicado e sob orientação profissional.
Posso Pegar uma Planta no Meu Quintal e Usar como se Fosse do SUS?
Não é recomendado. A segurança e a eficácia de uma planta medicinal dependem da identificação correta da espécie, do cultivo sem agrotóxicos, da colheita no momento certo e do preparo adequado. Os fitoterápicos do SUS passam por controle de qualidade que garante todos esses fatores, algo praticamente impossível de replicar em casa sem conhecimento técnico especializado.
Por que nem Todas as 71 Plantas da RENISUS Estão Disponíveis na Minha Cidade?
A gestão do SUS é descentralizada, e a incorporação e a disponibilização dos fitoterápicos da RENISUS dependem da decisão e da capacidade de cada município ou estado. Fatores como custo, demanda local e a estrutura das Farmácias Vivas influenciam diretamente quais plantas acabam sendo oferecidas à população em cada região.
O Que É uma Farmácia Viva?
É um programa do SUS em que todas as etapas do processo fitoterápico acontecem em um só lugar: cultivo da planta medicinal, coleta, processamento, preparo do medicamento (chás, géis, pomadas) e dispensação à comunidade com orientação farmacêutica. É um modelo que une saúde, agricultura e conhecimento tradicional em uma única estrutura.
O Tratamento com Plantas Medicinais no SUS É Gratuito?
Sim. Assim como os demais medicamentos e procedimentos oferecidos pelo Sistema Único de Saúde, o acesso aos fitoterápicos da RENISUS, incluindo consulta, prescrição e o próprio medicamento, é totalmente gratuito para toda a população brasileira.
As Plantas da RENISUS Podem Ter Efeitos Colaterais ou Interações?
Sim. Natural não significa inofensivo. Toda planta medicinal possui princípios ativos que podem causar efeitos colaterais e interagir com outros medicamentos, alimentos ou suplementos. Por isso a prescrição e a orientação de um profissional de saúde são fundamentais para um uso seguro.
Se uma Planta Não Está na RENISUS, Significa que Ela Não Funciona?
Não necessariamente. A RENISUS é uma lista de prioridades para o SUS, focada em plantas com bom potencial de saúde pública e viabilidade de produção em larga escala. Existem milhares de outras plantas medicinais com uso tradicional e, em muitos casos, com estudos que sustentam sua eficácia, que não estão na lista por razões variadas de gestão e priorização, o que não invalida seu uso terapêutico.
Todas as Plantas da RENISUS São Nativas do Brasil?
Não. A lista reúne tanto espécies nativas do Brasil quanto espécies exóticas que se adaptaram bem ao país e hoje são amplamente cultivadas e utilizadas aqui, como é o caso da camomila e do gengibre. O critério de seleção da RENISUS prioriza o potencial de uso dentro do SUS, e não apenas a origem geográfica da planta.
Referências
Ver Todas as 15 Referências Citadas
Estudos Científicos Peer-Reviewed (2)
- PMC2016 Medicinal Plants in Brazil: Pharmacological Studies, Drug Discovery, Challenges and Perspectives – Pharmacological Research, 2016
- PEER Anti-Inflammatory Activity of Cordia Verbenacea – Nature, Scientific Reports
Fontes Institucionais (3)
- GOV2010 Plantas Medicinais da RENISUS com Potencial Anti-Inflamatório – Revista Fitos, 2010
- GOV2018 Brazilian Medicinal Plants with Corroborated Anti-Inflammatory Activity – Pharmaceutical Biology, 2018
- GOV Effectiveness of Maytenus Ilicifolia (Espinheira Santa) for the Treatment of Dyspepsia – NCBI
Leituras Complementares (10)
- Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos – Ministério da Saúde
- 2006 Política e Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos – Ministério da Saúde, 2006
- 2012 Práticas Integrativas e Complementares: Plantas Medicinais e Fitoterapia na Atenção Básica – Ministério da Saúde, 2012
- Plantas Medicinais e Fitoterápicos – Portal Gov.br
- A Fitoterapia no SUS e o Programa Farmácias Vivas – SciELO
- 2014 A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos: Construção, Perspectivas e Desafios – Physis: Revista de Saúde Coletiva, 2014
- 2019 Análise dos Programas de Plantas Medicinais e Fitoterápicos no SUS sob a Perspectiva Territorial – Ciência & Saúde Coletiva, 2019
- 2011 Disponibilidade de Medicamentos Fitoterápicos e Plantas Medicinais nas Unidades de Atenção Básica do Estado de São Paulo – Ciência & Saúde Coletiva, 2011
- 2000 Plantas Medicinais, um Retorno ao Passado – Revista Brasileira de Plantas Medicinais, 2000
- 2021 Plantas Medicinais: uma Abordagem sobre o Uso Seguro e Racional – Physis: Revista de Saúde Coletiva, 2021






